Textinho publicado no jornal do Diretório Acadêmico de Psicologia da UFRGS de outubro/novembro/2008:
O progresso é frio como uma navalha
No dia oito de outubro de 2008, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, a Fundação Osvaldo Cruz e as Faculdades de Farmácia do país inteiro fizeram muita festa, regada a muitas risadas macabras e talvez até drogas que eles mesmos adoram desenvolver. Tudo isso pela aprovação de uma lei. Talvez eu esteja exagerando, e eles não tenham feito tanta festa assim: pra falar a verdade, a lei foi aprovada silenciosamente. E o silêncio maior foi aquele dos mais afetados pela lei: os animais nas universidades.
Esses animais que eu estou falando não são os que vão todos os dias para a sala de aula, e que se reúnem em vários pequenos grupos primatas para exercitar suas habilidades lingüísticas, mas os que não têm a mínima idéia do que raios que estão fazendo naquele gelado laboratório com o crânio aberto e uma sensação estranha produzida por alguma mágica droga sem o seu consentimento. A Lei Arouca (11794/08), que tramitava há dez anos no Senado, regulamenta nacionalmente a experimentação animal nas instituições de pesquisa e ensino, padronizando os comitês de ética e que tipo de experimentos com animais podem ser aprovados ou não. Na prática, isso quer dizer que quem trabalha com experimentação animal ganhou um baita respaldo jurídico, e que os animais criados em biotérios terão o mesmo destino no país inteiro, sem entraves. Tudo isso apenas com a pressão dos representantes da nossa classe de cientistas, sem o mínimo diálogo com a sociedade civil. De fato, apesar do que o Senador Cristovam Buarque respondeu no e-mail que mandei para ele, não houve diálogo com NENHUMA organização de defesa dos direitos dos animais (Veddas, PEA, Gato Negro, Tribuna Animal, GAE, InterNICHE). Foi simplesmente a SBPC sussurrando no ouvido dos doutos senadores. Uma decisão secreta e anti-democrática, o que faz muito sentido em uma nação que proíbe acadêmicos de discutirem sobre legalização da maconha e reprime pelas armas qualquer tipo de movimento social que clama por terra, liberdade ou dignidade. Mas como nós não somos patriotas, e temos um espírito crítico relativamente afiado, o fato de violência e falta de democracia serem fortes tradições em nosso país não justifica lhufas. Não são só adolescentes sentimentais que gostam de cachorrinhos que combatem a experimentação animal, situação que os “cientistas” alegam para dizer que quem tem que decidir sobre experimentação animal tem que ser os que estão informados, ou seja, “cientistas”. Coloco “cientistas” entre aspas porque não admito que a vontade desses idiotas sedentos por patentes farmacêuticas e linhas no currículo lattes e sem a mínima capacidade de reflexão epistemológica ou ética seja colocada como representando a classe da qual fazem parte gênios humanistas como Carl Sagan e biólogos revolucionários e proponentes do Great Ape Project, como Jane Goodall e Richard Dawkins, e muitos outros cientistas honrados que preferiram ir para áreas como agicultura, climatologia, energias limpas, ciências sociais, economia, biologia da conservação e (por que não?) psicologia, para contribuir para o progresso do conhecimento e da sociedade, em vez da torturar inocentes ratinhos e sustentar sujos biotérios. A audácia desses idiotas em se apresentarem como a voz de toda a classe dos cientistas faz com que acadêmicos e profissionais mais preocupados com saúde, educação e não-violência criem instituições que realmente os representam, como Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), Ethical Science and Education Coalition (ESEC), Humane Learning, Humane Society of the United States (HSUS), National Anti-Vivisection Society (NAVS), Novivisezione - No Vivisection, Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM) e, quem diria, Psychologists for the Ethical Treatment of Animals (PsyETA). O nó Ciência e Direitos dos Animais é bastante forte no hemisfério norte, como dá pra perceber. Lá a discussão transcende a ridícula dicotomia proteção animal x progresso das ciências da saúde, pois aparentemente os cientistas do hemisfério norte são mais criativos para imaginar métodos rigorosos de investigação que não explorem animais (os tais métodos alternativos), já que a discussão que importa é: queremos uma Ciência humanitária e não violenta ou não? O preocupante não é a tecnologia e o acúmulo de conhecimento (pelo menos enquanto não formos atacados por uma ditadura religiosa e obscurantista), pois essas coisas vão se desenvolver de qualquer jeito, matando ratinhos ou não. A questão é: que tipo de educação é essa que legitima a violência dentro da instituição máxima do saber? Que tipo de civilização a vanguarda do saber está construindo dessa forma? É isso que queremos que nossos jovens cientistas aprendam?
Agora, com essa nova lei, a ideologia do bem-estarismo e da experimentação animal será ainda mais forte, com todo um respaldo jurídico, acadêmico e midíatico, capando com uma navalha as tentativas legais de se defender a dignidade desses animaizinhos explorados e maltratados e assim vai morrendo até mesmo o espírito crítico e a reflexão filosófica da nossa tão capenga academia. Qualquer vestibulando que espera transgredir as fronteiras do pensamento ao entrar na universidade irá se deparar com professores acomodados cortando suas asas e dizendo que induzir um cão ao desamparo aprendido ou arrancar o coração de uma rã viva para ver a maravilha da noradrenalina agindo é ético porque é respaldado por lei, e porque todo mundo faz. O assassinato de inúmeros seres sencientes mata também a possibilidade de uma afiada formação filosófica para os cientistas. Essa sim é uma dicotomia na qual os dois lados não podem coexistir, e cada cientista vai ter que escolher o seu e decidir que tipo de progresso se quer.
Bruno Graebin de Farias, futuro cientista de verdade
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
sábado, 4 de outubro de 2008
Aguardar resposta e sustentação
Estive aqui em deparando com exercícios de introspecção nos quais fiquei rememorando minhas práticas de psicoterapia (ah, tão novinho!) e atitudes nas relações interpessoais em geral, e surgiu-me então uma simplória classificação sobre dois modos de se comportar durante e após proferir um enunciado, seja verbal ou não: aguardar resposta ou sustentar o enunciado. Estes dois modos de se comportar então teriam conseqüências muito diferentes, fazendo-se necessário pensar a ética de cada um.
Admito, como posição ética, que devemos sempre ter sensibilidade para perceber as respostas de outros indivíduos diante de nossos discursos e atuações, e que para a construção d euma sociedade democrática devemos sempre dar o direito à voz ao outro. Porém, o aguardo de resposta que classifico aqui se refere a assumir uma posição neutra após o enunciado, aguardando a colocação, aprovação ou recusa do outro indivíduo. Isso protege psiquicamente o autor do enunciado de sofrer qualquer ataque, pois retornando à posição neutra ele se desapega de seu enunciado, que fica à mercê da colocação do outro. Fazer isso é um bom preparo de solo para estabelecer um vínculo, evitar conflitos e conduzir negociações importantes e delicadas, o que é muito usado na prática clínica em psicologia.
Só que nem sempre é a melhor posição a assumir: hoje atendi meu primeiro caso de alcoolismo, de uma mãe que veio obrigado para o atendimento pois senão perderia a guarda dos filhos (está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que eles têm direito a viver em um ambiente livre de ameaças e práticas parentais inadequadas, e alcoolismo é uma delas). A moça chegou na consulta de forma compulsória e sem receber nenhum documento formal que pudesse ler para estar informada, o que fez com que chegasse confusa, sem querer muito papo e em tom desafiador com 'o doutor'. Esse contexto ainda catalisado pelo humor e comportamento de uma alcoolista, dentro os quais está a oposição e a negação do problema. No final das contas, o atendimento saiu ótimo, pois eu sou super congruente com a minha humanidade e me disponho à escutar, assim desenvolvemos um bom vínculo. Mas na hora de comunicar para ela o motivo de sua vinda à consulta, assumi a mesma posição de 'aguardar resposta', o que fez ela me desafiar e me achar um babaca. Nesse momento eu devia ter sustentado minha posição, de forma firme e clara, pois afinal das contas eu estava certo e tinha evidências disso.
Sustentar envolve a percepção do feedback também, mas não numa posição neutra. É preciso se descentrar e tomar partido. Devemos estar congruentes com a enunciação, seguros da nossa posição em função dos conhecimentos consolidados. Ela é mais arriscada em termos de sentimento do outro em relação ao autor da enunciação, mas é boa se o interesse é desequilibrar a relação ou fazer a sua posição ser vista. Sustentar, significa mostrar que não vamos abrir mão de nada, diferentemente da submissão de aguardar resposta, que busca ouvir a demanda do outro e modificar-se em relação à ela.
Nenhuma das duas é mais certa: são estratégias, que dependem do contexto e da aplicação para serem bem-suceiddas ou não. Sendo estratégias, portanto, é recomendável não se viciar sempre na mesma, mas agir de forma inteligente e variada.
Admito, como posição ética, que devemos sempre ter sensibilidade para perceber as respostas de outros indivíduos diante de nossos discursos e atuações, e que para a construção d euma sociedade democrática devemos sempre dar o direito à voz ao outro. Porém, o aguardo de resposta que classifico aqui se refere a assumir uma posição neutra após o enunciado, aguardando a colocação, aprovação ou recusa do outro indivíduo. Isso protege psiquicamente o autor do enunciado de sofrer qualquer ataque, pois retornando à posição neutra ele se desapega de seu enunciado, que fica à mercê da colocação do outro. Fazer isso é um bom preparo de solo para estabelecer um vínculo, evitar conflitos e conduzir negociações importantes e delicadas, o que é muito usado na prática clínica em psicologia.
Só que nem sempre é a melhor posição a assumir: hoje atendi meu primeiro caso de alcoolismo, de uma mãe que veio obrigado para o atendimento pois senão perderia a guarda dos filhos (está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que eles têm direito a viver em um ambiente livre de ameaças e práticas parentais inadequadas, e alcoolismo é uma delas). A moça chegou na consulta de forma compulsória e sem receber nenhum documento formal que pudesse ler para estar informada, o que fez com que chegasse confusa, sem querer muito papo e em tom desafiador com 'o doutor'. Esse contexto ainda catalisado pelo humor e comportamento de uma alcoolista, dentro os quais está a oposição e a negação do problema. No final das contas, o atendimento saiu ótimo, pois eu sou super congruente com a minha humanidade e me disponho à escutar, assim desenvolvemos um bom vínculo. Mas na hora de comunicar para ela o motivo de sua vinda à consulta, assumi a mesma posição de 'aguardar resposta', o que fez ela me desafiar e me achar um babaca. Nesse momento eu devia ter sustentado minha posição, de forma firme e clara, pois afinal das contas eu estava certo e tinha evidências disso.
Sustentar envolve a percepção do feedback também, mas não numa posição neutra. É preciso se descentrar e tomar partido. Devemos estar congruentes com a enunciação, seguros da nossa posição em função dos conhecimentos consolidados. Ela é mais arriscada em termos de sentimento do outro em relação ao autor da enunciação, mas é boa se o interesse é desequilibrar a relação ou fazer a sua posição ser vista. Sustentar, significa mostrar que não vamos abrir mão de nada, diferentemente da submissão de aguardar resposta, que busca ouvir a demanda do outro e modificar-se em relação à ela.
Nenhuma das duas é mais certa: são estratégias, que dependem do contexto e da aplicação para serem bem-suceiddas ou não. Sendo estratégias, portanto, é recomendável não se viciar sempre na mesma, mas agir de forma inteligente e variada.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
As idéias do Lutzenberger e as minhas
Mês passado participei de um evento muito bacana que foi a I Semana de História e Meio Ambiente e I Mostra de Documentários Ambientais, promovido pelo movimento estudantil da PUC-RS. É muito feliz ver o pessoal da História rompendo as barreiras tradicionais da disciplina e se apropriando dos problemas ambientais, cosntruindo aquela palavrinha mágica da transdisciplinaridade, embora não tenham usado esse termo nenhuma vez. Mas foi isso o que aconteceu: biólogos, historiadores, cientistas sociais, jornalistas, geógrafos, professores universitários dessas áreas, a turma do técnico em monitoramento e controle ambiental e dois estudantes de psicologia perdidos, mas muito interessados, participantes e críticos.
A temática central era sobre o meio ambiente no Rio Grande do Sul, sobre os riscos e negligências do bioma pampa, a ameaça das grandes empresas da celulose, Aracruz e Stora Enso, a perda da biodiversidade e um estudo e homenagem a um dos maiores ícones do ambientalismo no Rio Grande do Sul, José Antônio Lutzenberger. Foram exibidos dois documentários sobre a vida dele, 'Lutzenberger:For Ever Gaia' e 'O Legado Lutzenberger', e teve uma mesa-redonda com outros dois ícones do movimento ambientalista, Augusto Carneiro e Flávio Lewgoy. Com todo esse panorama, deu pra ter um quadro geral dos pressupostos epistemológicos do movimento ambientalista gaúcho e das idéias do Lutz, como é chamado. Adoro demais ouvir teorias e palavras de sabedoria de pioneiros e veteranos, e suas histórias de vitória e militância, e mudança de paradigma. Porém, não pude deixar de notar que todos os ambientalistas que falaram e a grande massa que estava presente pareciam se enquadrar em um ambientalismo softcore, com um discurso sem práxis e sem uma crítica propositiva de mudanças estruturais nos modelos econômicos. Por isso, softcore.
Cheguei atrasado e perdi o começo do primeiro filme, então peguei a partir da crítica que Lutz tece sobre a destruição ambiental causada pela moderna tecnologia industrial. Levanta os clássicos problemas de exploração dos recursos naturais, poluição, devastação e produção de lixo produzidos pela indústria e por todo o sistema capitalista desde a Revolução Industrial. No entanto, ele erra ao considerar a destruição ambiental atual como inerente à natureza da tecnologia. Isso porque esse enunciado pressupõe que tecnologia significa qualquer equipamento complexo produzido em uma indústria por uma linha de produção em série e que consuma alguma das fontes energéticas desenvolvidas a partir da Revolução Industrial, desconsiderando que vasos, talheres, tapetes, roupas, iglus, arados, enxadas, fornos e muitos outros instrumentos bem mais simples em termos de composição e de produção sejam também tecnologia. Segundo a Wikipédia:
" Tecnologia (do grego τεχνη — "ofício" e λογια — "estudo") é um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas, processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento."
Ou seja, a aplicação sistematizada dos ossos conhecimetnos e o uso de instrumentos é tecnologia. Isso é inerente e necessário à vida do Homo Sapiens e de outras espécies também. Não que isso seja bom ou ruim em si mesmo, e sim que é algo qeu acontece, e até hoje nunca vi ninguém defender que esqueçamos todos os nossos conhecimentos para tentarmos viver a vida como ignorantes absolutos. A tradição energética e de consumo da Revolução Industrial realmente ferrou com o nosso querido planetinha, que se torna cada vez mais pobre em recursos naturais, mas a solução não é abandonar a tecnologia, mas sim tranformá-la. Se o problema são os combustíveis fósseis e a poluição, precisamos de tecnologias energéticas e de produção limpas. Não se trata de reformar, com motores mais eficientes e econômicos ou estipulando taxas limites de poluição para as empresas, mas sim de instalar carros a hidrogênio e enegia elétrica derivada de baterias solares, e métodos de reaproveitamentos de produtos químicos dentro das próprias empresas. Temos o dever ético de sustentar toda a população do globo e de poupar os nossos ecossitemas, em uma missão cornucopiana que só será possível com as promissoras eco-techs.
Os ambientalistas clássicos falam na importância da mudança de consciência, mas ao meu ver a chave para salvar o globo está na modificação estrutural do sistema econômico. Consciência é super legal, mas ela não necessariamente leva a uma práxis. Essa é uma tese clássica da escola marxista, de que a tomada da consciência de classe levará necessariamente à luta contra o sistema econômico, sendo então tarefa dos intelectuais levar essa consciência de classe para os até então alienados. Não gosto dessa atitude missionária, duvido de que a consciência de classse sempre correponde aos interesses dos indivíduos desses grupos e considero as massas bastante prescindíveis nas decisões políticas (ninguém é absolutamente esclarecido, e esperar que todos sejam para então fazer alguma coisa é querer demais, além de achar que quem está ensinando a ter consciência já está prévia e absolutamente certo). Além de que a importância dessa consciência de classe está em combater valores metafísicos, como O Capitalismo ou A Exploração da Terra, e novas idéias como O Socialismo ou Gaia vão diretamente destruir todas as manifestações concretas dessas antigas cosmovisões. Considero a produção de culturas mais humanitátios um passo importantíssimo para uma mudança estrutural, mas me parece que o mais importante é a mudança em si de cada manifestação concreta dessas ideologias, sendo nomeadas e repensadas, como a substituição pelo combustível do hidrogênio, a Reforma Agrária, o biogás, a reciclagem do lixo eletrônico, o mercado agrícola local, metrôs movidos a energia elétrica, energia solar caseira ou o transporte a pé. O Marx disse que as forças produtivas é que criam a cultura, e não o contrário, e é desse conhecimento que a gente tem que se apropriar para agir mais diretamente.
A crítica à insustentabilidade envolve também uma crítica ao capitalismo, e isso o Lutz apontou de forma magnífica: o mercado é cego às necessidades humanas. A mão invisível que rege o mundo esmaga os humanos que considerar inúteis, que não tiverem como contribuir monetariamente com o sistema ou que se coloquem no caminho dos recursos qeu a mãe desejar pegar: velhos, índios, pobres, povos excluídos do mercado que detém recursos naturais em seu território... Novas necessidades humanas são impostas em função dos produtos oferecidos e necessidades básicas são negligenciadas por não serem lucrativas. Uma fábrica polui o rio que alimenta determinada vila e, sem ter o que comer e sem a mínima noção de seus direitos constitucionais, a vila se submete a trabalhar na parte mais arriscada, imbecil e alienante da linha de produção por um valor salarial ínfimo, para então comprar a água que conseguiria de graça e mais limpinha. A consciência têm dois papéis fundamentais aí: da parte da vila, de conhecer seus direitos e como se organizar politicamente, o que só é possível com determinadas formas de acesso à educação; da parte dos cidadãos externos à isso, conhecer a origem dos produtos que são vendidos em sua cidade e não consumir dos mesmos, a fim de que essa máquina quebre e a fábrica seja forçada a sair de lá. Para proteger essa vila, penso em duas opções: Estado de Bem-Estar Social e Previdência Social ou Auto-gestão. Novas sugestões são muito bem-vindas, mas pretendo deixar essa discussão para mais tarde.
Esse exemplo da vila retrata bem uma das grandes polêmicas silenciosas da atualidade que é sobre a quem pertence a terra (ou Terra?). Pertence ao Estado, ao povo que ali está, a cada indivíduo em particular, a quem chegar primeiro? Como distribuir e como atribuir valor a cada pedaço de terra? Por extensão, localização geográfica, riqueza do dono anterior, produtividade, biodiversidade, oferta e procura? Enquanto não se refletir e não se entrar em consenso sobre isso, a Reforma Agrária não será possível e os direitos das populações de fora do mercado permanecerão constantemente violados, e o mercado se apropriará dos pedaços de terra e vai fazer isso que a gente vê acontecendo. A população urbana já nem sabe mais o que é terra, e a população rural só sonha com isso. As entradas são proibidas, é tudo muito longe, o dono é desconhecido. A ONU não dá palpite e as universidades fecham os olhos, e nem o opressor nem o oprimido cogitam a hipótese da democracia e da equalidade.
Segundo tradições indígenas que o Lutz admira bastante, não são os humanos que detém a terra, mas ela que detém os humanos. Com isso eles convocam a pessoa a um apego à terra e à responsabilidade de preservá-la e cultivar sentimentos normalmente direcionados apenas a humanos(e olhe lá!), como respeito e devoção. Tenho minhas dúvidas de que essa idéia seja apenas discurso e não práxis, pois povos tribais também fazem guerra e destroem a Natureza, como disse o Jared Diamond. Mas se essas culturas pagãs, de devoção à Natureza, também envolvem práticas sustentáveis, certamente são idéias que precisamos incorporar. Tenho certas ressalvas quanto à visões místicas, ainda mais quando se existe a promessa de que são a única salvação, e considero perfeitamente possível atribuir valores mais positivos à Natureza a partir de uma visão secular, mas nada contra as pessoas considerarem a Terra uma divindade, o importante é que não se trate os nossos recursos naturais como dispensáveis ou passíveis de exploração. O Lutz sintetiza essa ética ao dizer "nós não herdamos a terra de nossos pais, nós a pegamos emprestado de nossos filhos e netos". É uma subversão do nosso conceito de propriedade.
Alguns ambientalistas não chegam a defender um valor transcendente para a Natureza, mas apontam a experiência estética como a chave para o despertar da consciência e proteção ambiental. Sou cético enquanto a isso, pois me parece muito fácil que as pessoas aproveitem as delícias da Natureza, achem o mar superagradável e as borboletinahs voando a coisa mais lindinhas, mas continuem alienadas dos processos de produção e consumo, e assim as pessaos vão pra praia e compram suas garrafinhas de Coca-Cola para apreciar a vista e o vento. Confio muito mais na divulgação da ciência como forma de conscientização, pois as pessoas querem e precisam de informação sobre como é o mundo, como descobrir, o que fazer e como fazer. A divulgação científica intrumentaliza teoricamente as pessoas, os torna mais céticas e investigadoras, e amplia os horizontes do conhecimento, da procupação e do poder da pessoa. Precisamos saber o que fazer, como intervir e como desenvolver tecnologias, para que faça sentido nos preocuparmos com a destruição ambiental - ou não passaria de uma falta de esperança sobre uma catástrofe iminente. Para isso, precisamos popularizar a ciência, principalmente as ciências ambientais - de fato, a grande maioria dos livreos de divulgação científica é sobre evolução ou neurociências, que, por mais que sejam interessantes e importantíssimos para a educação científica e desenvolvimento da ciência, não me parecem tão urgentes quanto as ciências da terra.
É importante reconhecer esse papel da ciência. Sem esse conhecimento, nem saberíamos a amplitude dos problemas ambientais, nem de onde vem, e nem teríamos feito nada a respeito. Alguns grupos fazem passeatas, mas outros estão pesquisando e desenvolvendo eco-techs. O lutzenberger aponta que ciência e tecnologia são a principal fonte de poder no mundo moderno, e a maior parte da população é iletrada em ciência e tecnologia. Ou seja, vivem em um mundo cheio de equipamentos dos quais usufruem, mas que não sabem como criá-los, nem de onde vem, nem quem está ganhando com isso e pra quê, e assim consomem mais e mais simplesmente porque está no mercado.
O Lutzenberger trabalhava com educação ambiental através de seu sítio, o Rincão Gaia, que é um lugar bem bonito, tranqüilo e com bichinhos. No evento, compareceu um trabalhador e representante do Rincão Gaia, e fizemos perguntas para ele. Eu queria saber se existia pesquisa e publicações sobre o modo de produção agrícola promovido no Rincão Gaia, e ele deu a antender que não. Mas foi decepcionante ele dizer que eles criam e abatem aimais lá, porque o Lutz dizia que não tinha problemas se a criação fosse sustentável e o abate, indolor. Nunca vi nenhum estudo bem feito mostrando como se faz uma criação de animais para consumo de forma sustentável. Pior ainda, nunca vi nenhuma justificativa ética que preste que aponte para um assassinato não-consensual humanitário, como muitos defensores do bem-estar animal propagandeam. Aparentemente, a filosofia desses ambientalistas defende a preservação dos números que eprmitem o equilíbrio do ecossistema, e não necessariamente com os sujeitos coexistentes nesse ecossistema.
Esses que eu chamei de ambientalistas softcore não sustentavam nenhuma crítica ao sistema pecuário - pelo contrário, a defendiam como uma opção ao plantio de pinus e eucaliptos, e finalizavam com a piadinha esdrúxula de que gostam de uma picanha. Nenhuma criação massiva de gado pode ser sustentável, pois envolve desmatamento, consumo exagerado de recursos e poluição dos rios e da atmosfera, além de gastos com transporte e refrigeração. Enquanto esses ambientalistas não atacarem a própria estrutura da pecuária, o aquecimento global continuará aumentando. A mudança deve ser na estrutura econômica, não simplesmente na consciência.
*Levei muito tempo escrevendo esse post, entõa talvez esteja meio solto, assim...
A temática central era sobre o meio ambiente no Rio Grande do Sul, sobre os riscos e negligências do bioma pampa, a ameaça das grandes empresas da celulose, Aracruz e Stora Enso, a perda da biodiversidade e um estudo e homenagem a um dos maiores ícones do ambientalismo no Rio Grande do Sul, José Antônio Lutzenberger. Foram exibidos dois documentários sobre a vida dele, 'Lutzenberger:For Ever Gaia' e 'O Legado Lutzenberger', e teve uma mesa-redonda com outros dois ícones do movimento ambientalista, Augusto Carneiro e Flávio Lewgoy. Com todo esse panorama, deu pra ter um quadro geral dos pressupostos epistemológicos do movimento ambientalista gaúcho e das idéias do Lutz, como é chamado. Adoro demais ouvir teorias e palavras de sabedoria de pioneiros e veteranos, e suas histórias de vitória e militância, e mudança de paradigma. Porém, não pude deixar de notar que todos os ambientalistas que falaram e a grande massa que estava presente pareciam se enquadrar em um ambientalismo softcore, com um discurso sem práxis e sem uma crítica propositiva de mudanças estruturais nos modelos econômicos. Por isso, softcore.
Cheguei atrasado e perdi o começo do primeiro filme, então peguei a partir da crítica que Lutz tece sobre a destruição ambiental causada pela moderna tecnologia industrial. Levanta os clássicos problemas de exploração dos recursos naturais, poluição, devastação e produção de lixo produzidos pela indústria e por todo o sistema capitalista desde a Revolução Industrial. No entanto, ele erra ao considerar a destruição ambiental atual como inerente à natureza da tecnologia. Isso porque esse enunciado pressupõe que tecnologia significa qualquer equipamento complexo produzido em uma indústria por uma linha de produção em série e que consuma alguma das fontes energéticas desenvolvidas a partir da Revolução Industrial, desconsiderando que vasos, talheres, tapetes, roupas, iglus, arados, enxadas, fornos e muitos outros instrumentos bem mais simples em termos de composição e de produção sejam também tecnologia. Segundo a Wikipédia:
" Tecnologia (do grego τεχνη — "ofício" e λογια — "estudo") é um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas, processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento."
Ou seja, a aplicação sistematizada dos ossos conhecimetnos e o uso de instrumentos é tecnologia. Isso é inerente e necessário à vida do Homo Sapiens e de outras espécies também. Não que isso seja bom ou ruim em si mesmo, e sim que é algo qeu acontece, e até hoje nunca vi ninguém defender que esqueçamos todos os nossos conhecimentos para tentarmos viver a vida como ignorantes absolutos. A tradição energética e de consumo da Revolução Industrial realmente ferrou com o nosso querido planetinha, que se torna cada vez mais pobre em recursos naturais, mas a solução não é abandonar a tecnologia, mas sim tranformá-la. Se o problema são os combustíveis fósseis e a poluição, precisamos de tecnologias energéticas e de produção limpas. Não se trata de reformar, com motores mais eficientes e econômicos ou estipulando taxas limites de poluição para as empresas, mas sim de instalar carros a hidrogênio e enegia elétrica derivada de baterias solares, e métodos de reaproveitamentos de produtos químicos dentro das próprias empresas. Temos o dever ético de sustentar toda a população do globo e de poupar os nossos ecossitemas, em uma missão cornucopiana que só será possível com as promissoras eco-techs.
Os ambientalistas clássicos falam na importância da mudança de consciência, mas ao meu ver a chave para salvar o globo está na modificação estrutural do sistema econômico. Consciência é super legal, mas ela não necessariamente leva a uma práxis. Essa é uma tese clássica da escola marxista, de que a tomada da consciência de classe levará necessariamente à luta contra o sistema econômico, sendo então tarefa dos intelectuais levar essa consciência de classe para os até então alienados. Não gosto dessa atitude missionária, duvido de que a consciência de classse sempre correponde aos interesses dos indivíduos desses grupos e considero as massas bastante prescindíveis nas decisões políticas (ninguém é absolutamente esclarecido, e esperar que todos sejam para então fazer alguma coisa é querer demais, além de achar que quem está ensinando a ter consciência já está prévia e absolutamente certo). Além de que a importância dessa consciência de classe está em combater valores metafísicos, como O Capitalismo ou A Exploração da Terra, e novas idéias como O Socialismo ou Gaia vão diretamente destruir todas as manifestações concretas dessas antigas cosmovisões. Considero a produção de culturas mais humanitátios um passo importantíssimo para uma mudança estrutural, mas me parece que o mais importante é a mudança em si de cada manifestação concreta dessas ideologias, sendo nomeadas e repensadas, como a substituição pelo combustível do hidrogênio, a Reforma Agrária, o biogás, a reciclagem do lixo eletrônico, o mercado agrícola local, metrôs movidos a energia elétrica, energia solar caseira ou o transporte a pé. O Marx disse que as forças produtivas é que criam a cultura, e não o contrário, e é desse conhecimento que a gente tem que se apropriar para agir mais diretamente.
A crítica à insustentabilidade envolve também uma crítica ao capitalismo, e isso o Lutz apontou de forma magnífica: o mercado é cego às necessidades humanas. A mão invisível que rege o mundo esmaga os humanos que considerar inúteis, que não tiverem como contribuir monetariamente com o sistema ou que se coloquem no caminho dos recursos qeu a mãe desejar pegar: velhos, índios, pobres, povos excluídos do mercado que detém recursos naturais em seu território... Novas necessidades humanas são impostas em função dos produtos oferecidos e necessidades básicas são negligenciadas por não serem lucrativas. Uma fábrica polui o rio que alimenta determinada vila e, sem ter o que comer e sem a mínima noção de seus direitos constitucionais, a vila se submete a trabalhar na parte mais arriscada, imbecil e alienante da linha de produção por um valor salarial ínfimo, para então comprar a água que conseguiria de graça e mais limpinha. A consciência têm dois papéis fundamentais aí: da parte da vila, de conhecer seus direitos e como se organizar politicamente, o que só é possível com determinadas formas de acesso à educação; da parte dos cidadãos externos à isso, conhecer a origem dos produtos que são vendidos em sua cidade e não consumir dos mesmos, a fim de que essa máquina quebre e a fábrica seja forçada a sair de lá. Para proteger essa vila, penso em duas opções: Estado de Bem-Estar Social e Previdência Social ou Auto-gestão. Novas sugestões são muito bem-vindas, mas pretendo deixar essa discussão para mais tarde.
Esse exemplo da vila retrata bem uma das grandes polêmicas silenciosas da atualidade que é sobre a quem pertence a terra (ou Terra?). Pertence ao Estado, ao povo que ali está, a cada indivíduo em particular, a quem chegar primeiro? Como distribuir e como atribuir valor a cada pedaço de terra? Por extensão, localização geográfica, riqueza do dono anterior, produtividade, biodiversidade, oferta e procura? Enquanto não se refletir e não se entrar em consenso sobre isso, a Reforma Agrária não será possível e os direitos das populações de fora do mercado permanecerão constantemente violados, e o mercado se apropriará dos pedaços de terra e vai fazer isso que a gente vê acontecendo. A população urbana já nem sabe mais o que é terra, e a população rural só sonha com isso. As entradas são proibidas, é tudo muito longe, o dono é desconhecido. A ONU não dá palpite e as universidades fecham os olhos, e nem o opressor nem o oprimido cogitam a hipótese da democracia e da equalidade.
Segundo tradições indígenas que o Lutz admira bastante, não são os humanos que detém a terra, mas ela que detém os humanos. Com isso eles convocam a pessoa a um apego à terra e à responsabilidade de preservá-la e cultivar sentimentos normalmente direcionados apenas a humanos(e olhe lá!), como respeito e devoção. Tenho minhas dúvidas de que essa idéia seja apenas discurso e não práxis, pois povos tribais também fazem guerra e destroem a Natureza, como disse o Jared Diamond. Mas se essas culturas pagãs, de devoção à Natureza, também envolvem práticas sustentáveis, certamente são idéias que precisamos incorporar. Tenho certas ressalvas quanto à visões místicas, ainda mais quando se existe a promessa de que são a única salvação, e considero perfeitamente possível atribuir valores mais positivos à Natureza a partir de uma visão secular, mas nada contra as pessoas considerarem a Terra uma divindade, o importante é que não se trate os nossos recursos naturais como dispensáveis ou passíveis de exploração. O Lutz sintetiza essa ética ao dizer "nós não herdamos a terra de nossos pais, nós a pegamos emprestado de nossos filhos e netos". É uma subversão do nosso conceito de propriedade.
Alguns ambientalistas não chegam a defender um valor transcendente para a Natureza, mas apontam a experiência estética como a chave para o despertar da consciência e proteção ambiental. Sou cético enquanto a isso, pois me parece muito fácil que as pessoas aproveitem as delícias da Natureza, achem o mar superagradável e as borboletinahs voando a coisa mais lindinhas, mas continuem alienadas dos processos de produção e consumo, e assim as pessaos vão pra praia e compram suas garrafinhas de Coca-Cola para apreciar a vista e o vento. Confio muito mais na divulgação da ciência como forma de conscientização, pois as pessoas querem e precisam de informação sobre como é o mundo, como descobrir, o que fazer e como fazer. A divulgação científica intrumentaliza teoricamente as pessoas, os torna mais céticas e investigadoras, e amplia os horizontes do conhecimento, da procupação e do poder da pessoa. Precisamos saber o que fazer, como intervir e como desenvolver tecnologias, para que faça sentido nos preocuparmos com a destruição ambiental - ou não passaria de uma falta de esperança sobre uma catástrofe iminente. Para isso, precisamos popularizar a ciência, principalmente as ciências ambientais - de fato, a grande maioria dos livreos de divulgação científica é sobre evolução ou neurociências, que, por mais que sejam interessantes e importantíssimos para a educação científica e desenvolvimento da ciência, não me parecem tão urgentes quanto as ciências da terra.
É importante reconhecer esse papel da ciência. Sem esse conhecimento, nem saberíamos a amplitude dos problemas ambientais, nem de onde vem, e nem teríamos feito nada a respeito. Alguns grupos fazem passeatas, mas outros estão pesquisando e desenvolvendo eco-techs. O lutzenberger aponta que ciência e tecnologia são a principal fonte de poder no mundo moderno, e a maior parte da população é iletrada em ciência e tecnologia. Ou seja, vivem em um mundo cheio de equipamentos dos quais usufruem, mas que não sabem como criá-los, nem de onde vem, nem quem está ganhando com isso e pra quê, e assim consomem mais e mais simplesmente porque está no mercado.
O Lutzenberger trabalhava com educação ambiental através de seu sítio, o Rincão Gaia, que é um lugar bem bonito, tranqüilo e com bichinhos. No evento, compareceu um trabalhador e representante do Rincão Gaia, e fizemos perguntas para ele. Eu queria saber se existia pesquisa e publicações sobre o modo de produção agrícola promovido no Rincão Gaia, e ele deu a antender que não. Mas foi decepcionante ele dizer que eles criam e abatem aimais lá, porque o Lutz dizia que não tinha problemas se a criação fosse sustentável e o abate, indolor. Nunca vi nenhum estudo bem feito mostrando como se faz uma criação de animais para consumo de forma sustentável. Pior ainda, nunca vi nenhuma justificativa ética que preste que aponte para um assassinato não-consensual humanitário, como muitos defensores do bem-estar animal propagandeam. Aparentemente, a filosofia desses ambientalistas defende a preservação dos números que eprmitem o equilíbrio do ecossistema, e não necessariamente com os sujeitos coexistentes nesse ecossistema.
Esses que eu chamei de ambientalistas softcore não sustentavam nenhuma crítica ao sistema pecuário - pelo contrário, a defendiam como uma opção ao plantio de pinus e eucaliptos, e finalizavam com a piadinha esdrúxula de que gostam de uma picanha. Nenhuma criação massiva de gado pode ser sustentável, pois envolve desmatamento, consumo exagerado de recursos e poluição dos rios e da atmosfera, além de gastos com transporte e refrigeração. Enquanto esses ambientalistas não atacarem a própria estrutura da pecuária, o aquecimento global continuará aumentando. A mudança deve ser na estrutura econômica, não simplesmente na consciência.
*Levei muito tempo escrevendo esse post, entõa talvez esteja meio solto, assim...
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Texto extraído da comunidade ' Bibliotecários Subversivos '

Independência ou Morte! Des(ordem) e Progresso! Liberdade, ainda que tardia!
- Bibliotecas polissêmicas, plurissignificativas e ecléticas!
- A biblioteca é uma espaço de inter-relações pessoais, interação social, comunicação, criação, transformação, conflito, discussão, convivência, riso, dor, paixão, produção sociocultural!
- A biblioteca é do Povo, para o Povo!Seu poder, sua construção, uso, transformação e destruição emanam do Povo!
- Música, teatro, dança, artes plástica, literatura, tai chi chuan na Hora do Conto!
- Biblioteconomia: CRIATIVIDADE, CRIAÇÃO, CRITICIDADE, CONFLITO CULTURAL, INTERAÇÃO SOCIAL;
- Bibliotecas alegres, vivas, bonitas e tão agitadas quanto os “shopping-centers” (E.N.Fonseca)
- Interação, oxigenação e diversidade sexual, racial, religiosa e gastronômica nas bibliotecas! Homens e mulheres num bolo só;
- TV de plasma, DVD, Som, Telão, Canhões de projeção, Karaokê… é “nóis”!
Lei Áurea Bibliotecária. Abaixo a Mediocridade!
sábado, 16 de agosto de 2008
Tédio e Luxo

Para uma aventura, nos dispomos a correr riscos, dormir mal, gastar dinheiro. Investimos muito dinheiro numa aventura. As pessoas pagam por viagens, festas, horas no campo de futebol, acampamentos e mais uma infinidade de atividades divertidas. Mas para investir nessas atividades, precisamos de dinheiro, e, para isso, temos que trabalhar. Se no trabalho não se investe tanto e não nos dispomos a tanto, ele não é tão divertido, então temos o seguinte esquema: fazemos coisas chatas para ter dinheiro para fazer coisas legais.
Isso nos traz a outra questão. Cada vez mais a renda média aumenta, em função da mobilização do capital e outros fenômenos econômicos, e cada vez mais aumenta a necessidade desse aumento na renda média para consumir a variedade crescente de produtos. As pessoas ficam dependentes do dinheiro, porque são dependentes dos produtos. São dependentes desse dinheiro porque não estão vivendo uma aventura. Estão entediadas.
Numa situação de aventura, o dinheiro não importa. Ele não é necessário, porque não precisamos comprar nenhum tipo de artefato para nos divertirmos. Toda a diversão está no ar. Os artefatos comprados com o dinheiro do nosso trabalho são uma forma de compensar o desprazer do trabalho, de uma vida tediosa e um cotidiano alienante. As pessoas não se envolvem com seu dia-a-dia, por isso tentam escapar de qualquer forma, gastando o que tiverem para ter um pouco de felicidade e distração, longe do resto do dia. Trabalham justamente para fugir do trabalho, e nessa equação, o resultado acaba sendo zero.
Se as pessoas vivessem vidas de aventura, todos achariam esse anúncio da Sea Shepherd Conservation Society a coisa mais natural do mundo. Marinheiros não precisam de dinheiro.
Trabalho escravizante, paixão e arte

Trabalhar mais de oito horas por dia é desumano. Isso segundo a escola de pensamento trabalhista que tem voz na legislação. Outras escolas de pensamento, como o do anti-trabalho, consideram que o trabalho por si só é desumano e extrai dos indivíduois as forças que poderiam ser usadas para o ócio e o lazer. O modelo neoliberal exige que os trabalhadores invistam cada vez mais tempo e energia a fim de sobreviver no mercado altamente competitivo, perdendo em humanidade e ganhando em produtividade. As pessoas correm para se adaptar ao sistema, mas considero importante parar para pensar em qeu tipo de sistema se quer viver. Viver para trabalhar, é isso o que queremos?
Se essa pergunta foi feita a um workaholic, a resposta é sim. Workaholics são pessoas viciadas em trabalho que trabalham o máximo de tempo que lhes for permitido e sentem-se muito insatisfeitos quando não estão trabalhando. Esse quadro apresenta vários sintomas psicopatológicos, como insônio, surtos de raiva, stress ou depressão, o que nos faz pensar que é uma subjetividade desumanizada e sofrida. Alguém que deveria trabalhar menos e fazer outras atividades, em vez de viver nesse regime de escravidão.
Mas e se o trabalho é realmente uma grande fonte de prazer? Se a pessoa é movida pela paixão,
Trouxe esse exemplo porque romantizo bastante essa imagem. Realmente gosto dessas loucuras de passar muito tempo em torno de uma única atividade que faça sentido e seja produtiva e prazeirosa para mim. Acho muito bonito, útil e interessante ficar dias e dias envolvido somente com o estágio de vivência, ou com a banda, ou com a história em quadrinhos, com o filme, com a redação de um livro, a leitura de um livro, o kung fu, a greve geral, a perseguição dos baleeiros, enfim. Parece que isso dá um sentido para a vida e uma sensação de integração, e que tudo vai fluir nesse sentido. Mas parece que o trabalho precisa realmente fazer sentido e ser fonte de prazer, senão, esse mesmo regime sem essa motivação seria simplesmente torturante e alienante.
Esses trabalhos que citei exigem a dedicação de corpo e alma, em vez do 'bater ponto' típico da sociedade capitalista. O trabalho enquanto obra de arte exige o ócio e a dedicação apaixonada à obra, que seria o projeto definido pelo próprio artista. Isso, por sua vez, contraria a política do trabalho enquanto obrigação e enquanto necessidade de renda, e se torna atividade lúdica, só que mais séria e com um toque de loucura.
Um toque de Augusto Boal:
"Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à sua arte -- é seu direito ou condição! --, mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida"
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