Acabei de assistir o filme X-MEN 3:The Last Stand, e fiquei emocionado do começo ao fim. Efeitos especiais excelentes, cenas de ação incríveis, atores cativantes, uma de minhas histórias favoritas e, o que masi me chamou a atenção, um conteúdo político extremamente relevante. Já no primeiro filme eles abordam a questão do preconceito e da discriminação, além das questões de mudanças e incompreensão adolescente. O segundo filme aborda temas como vingança e justiça, com a guerra do Striker contra os mutantes. Já neste último filme, o grande problema é 'a cura'. Uma empresa farmacêutica desenvolve uma droga capaz de anular a mutação genética da pessoa, e então 'curá-la', tornando-a uma pessoa 'normal'. A invenção foi divulgada como uma maravilha, criando espaço para uma política de contenção à ameaça mutante, mas de um forma democrática. Alguns mutantes ficaram vislumbrados com a idéia de serem curados, enquanto outros se manifestavam publicamente afirmando não serem uma doença. Quando o grupo de mutantes rebeldes liderado pelo Magneto atacou a 'humanidade', a cura passou a ser uma imposição, em defesa do bem comum. Esses vaivéns são os mesmos que acompanhamos na Psicologia e na Psiquiatria, no tratamento da Psicopatologia, ou, como é comumente chamada, a 'loucura'.
De um lado temos a responsabilidade das autoridades para zelar pelo bem comum e o bom funcionamento da sociedade, esforçando-se para fazer com que as pessoas não agridam física ou mesmo moralmente(hum, conceito discutível) uma as outras, e para assegurar sua produtividade e engagement no mainstream. De outro, temos esses considerados os diferentes, os loucos, os improdutivos, os instáveis, a possível ameaça à moral, à escola e à empresa. Suas diferenças não foram escolhidas por eles mesmos, foram causadas por alguma condição complexa que traçou determinados rumos para suas vidas. No entanto, eles manifestam uma vontade ao direito à vida, e ao direito à escolha. Eles querem ser aceitos, acolhidos, compreendidos, não excluídos, encaixados ou exterminados. Mas eles são estranhos, instáveis, fora de controle, e não temos certeza se realmente podemos dar ouvidos a eles, ou, ainda mais, mobilidade. Essa é a dialética da Psiquiatria tradicional, apoiada pelo poder vigente, e o Movimento Antimanicomial, que luta por uma humanização do tratamento da loucura.
A discussão do Movimento Antimanicomial é institucional, é uma luta por melhores condições de tratamento destes pacientes e um direito à mobilidade e até não-medicalização, em alguns casos. A minha discussão será outra: vou tratar da questão filosófica ou conceitual da dicotomia normal x patológico. Por quê conceitual? Porque eu quero propor uma (ousada)dissolução dessa dicotomia. Nem uma rígida separação baseada em preconceitos de ordem moral com raros respaldos neurocientíficos, nem a naturalização da patologia, com a filosofia do 'de perto, ninguém é normal'. Seguindo o exemplo dos mutantes, que são apenas diferentes, e não necessariamente doentes, proponho que é necessário estudá-los, compreendê-los e encontrar uma maneira de desenvolver sua autonomia e auto-controle, assim como a escola-clínica-basemilitar do Charles Xavier. De fato, pessoas como a Rogue, o Ciclope e a Jean precisam de um acompanhamento, um treinamento e às vezes um isolamento. E pessoas como o Hank McCoy, o Homem-de-Gelo e o Nightcrawler precisam de integração e aceitação. O Pyro e o Juggernaut assumem o papel de criminosos na trama, o que pode ser considerado um fruto da psicopatologia, de transtornos do desenvolvimento e más condições de sobrevivência. E que iriam para um prisão ou hospital psiquiátrico, na nossa sociedade. Mas acho que a questão da criminalidade fica para outro dia. Vamos focar nos que são só diferentes. Da mesma forma, eu não acho que alguém com Déficit de Atenção ou Transtorno Bipolar do Humor, mesmo com possíveis surtos psicóticos e agressividade, possa ser considerada doente. Até porque estas patologias(segundo o DSM-IV) trazem algumas habilidades e benefícios ao portador, como iniciativa, criatividade, ousadia, coragem e dedicação ao trabalho ou aos amigos. Essas pessoas têm poderes e limitações, e não é justo suprimir seu potencial numa tentativa de enquadrá-las. Muitos artistas e cientistas brilhntes sofrem de doença mental, o que, em vez de atrasá-los em seu trabalho, faz parte da obra e da vida dessas pessoas.
O Psicodiagnóstico faz justamente o oposto: separa, aliena a pessoa de seu conflito, sua motivação, sua psique. Considera ela errada, fora do normal. Minha proposta aqui não é dissolver as clínicas, hospitais e ambulatórios, mas pensar uma nova forma de atender essas pessoas. Baseada não na idéia de anormalidade, mas de "configuração mental". Seria uma espécie de mapeamento da estrutura e dinâmica dos diferentes indivíduos, com descrições claras e aprofundadas de seus potenciais, suas limitações e seus conflitos. Reconhecê-las como diferentes da nossa configuração burguês-trabalhador-consumidor-recalcado, e como diferentes entre si, não jogando no mesmo saco da 'patologia'. Criar instituições de apoio, treinamento e trabalho de bipolares, hiperativos, borderlines, despersonalizados e pessoas com delírios ocasionais. Oferecer um estudo da condição da pessoa desde cedo, um autoconhecimento tanto objetivo quanto introspectivo. Instituições de serviço estatal nas quais a pessoa vai deliberadamente aprender como desenvolver sua autonomia, proteger as pessoas queridas de seus surtos psicóticos, como lidar com sua depressão, sua ansiedade, seu pensamento rápido. Seus instáveis e misteriosos poderes mutantes.
Quando tentamos aplicar a escola de Charles Xavier à nossa realidade, ela passa a parecer uma utopia. Não é por menos. Temos muito preconceito, muito medo dos loucos. Imprevisíveis, deseducados, que invadem nossa privacidade e ferem nossos sentimentos. Quando nos deparamos com um, queremos logo que ele saia de perto e seja levado para um hospital psiquiátrico e receba um remédio. Uma cura para sua doença. Para sua falta de capacidade de se entender e se controlar. Se o Bobby começa a congelar as coisas sem querer, seu irmão chama a polícia. Atualmente, já é bem forte a corrente de pensamento que dá atenção à subjetividade do ser, mas ainda ninguém pensa na autonomia dessa pessoa. A promoção da autonomia está no discurso de inúmeras terapias, mas, ao considerá-los com um transtorno, sua autonomia já foi roubada. A patologização já pressupõe que a pessoa está fora de controle, e tem que ser controlada, suprimida. Eric Lansharr foi catalogado como um mutante, potencialmente perigoso, o que nutriu sua revolta pela humanidade. A pessoa carrega esse fardo, essa marca, esse algo fora do normal. O diagnóstico funciona como a marca do 'mutante perigoso'.
Mas, obviamente, isso não quer dizer que eu recomendo que psicólogos não estudem psicodiagnóstico. Este foi criado com a meta de objetivar e catalogar características desses transtornos, ou, como quero chamar, configurações. São uma tentativa bem-intencionada, mas mal-sucedida. É preciso lançar um novo olhar sobre o normal e o patológico. E pensar no potencial que até nós, normais, temos para desenvolver nossa autonomia, nosso auto-controle. E que opções devemos oferecer a estes que sofrem com a falta de controle ou com a medicalização quase-que-imposta.
Precisamos de um Instituto Xavier então...
sábado, 28 de julho de 2007
domingo, 22 de julho de 2007
Isso Não Se Discute
Vocês já notaram como as pessoas costumam fugir das discussões? Quando um assunto é polêmico, controverso, fértil, como política, religião ou existencialismo, as pessoas dizem que isto 'não se discute'. Não se discute porque as pessoas discordam, portanto, elas brigariam. Uma discussão só é boa se todos concordam com seus a prioris , e assim chegam a mesma conclusão. Mas que tipo de conhecimento pode ser produzido por um processos desses? Nenhum! O conhecimento surge da contradição, do embate de idéias, de teses múltiplas que se somam e se descartam. Só através do embate ee do questionamento que nós podemos encontrar embasamento para nossas idéias, contrapondo-as à realidade e a outras visões de mundo. É preciso buscar as justificativas dessas idéias, chegar até o cerne do processo de pensamento. Senão, essas idéias não passam de opinião, faixas de pensamento aleatórias sem justificativa, determinadas simplesmente pelo gosto do sujeito, sem profundidade alguma. Minha opinião é essa, é aquela, é porque é, porque eu quero assim. Depois eu busco os argumentos.
Pessoas assim, realmente, quebram a cara em um debate. Elas têm um ataque histéricos, ficam furiosas por discordar delas, e por elas não terem argumentos, e então repetem um "porque sim!" desesperado. Pessoas opinativas raramente entram em um debate, pois não possuem embasamento para isso, e o que possuem, é uma classe de argumentos conquistados após assumirem a opinião. Buscam fatos para confirmar sua teoria. Com uma idéia já formada, não há possiblidade de reflexão, de mudança.
É uma pena, pois o debate é algo muito gostoso e emocionante. Eu pelo menos sinto assim. O debate nos leva ao limite do pensamento, da organização, nos desafiando a formar armas novas a cada instante para tentar impedir a nossa cosmovisão de ruir. É uma verdadeira guerra, mas a Razão nos alivia ao demonstrar que não passa de abstração, e que ninguém vai se ferir. Isso torna essa guerra mais aceitável. Até porque, ao contrário da guerra, que só traz destruição e desespero, o debate é criação, construção, iluminação. A partir do choque de idéias, novas idéias são criadas, melhores, mais lógicas, mais de acordo com os fatos. As informações contraditórias destroem nossa opinião, pois não permitem formar um todo coerente. É preciso então criticar os argumentos, dissecar as idéias, encontrar as lógicas, os a prioris, as contradições, as contra-evidências. É delicioso estar dividido entre duas posturas opostas, e saber que é preciso reformular tudo para conseguir se estabilizar. Essa é a parte mais difícil : reconhecer que nem sempre vamos estar estáveis, intactos, eternos. Somos forçados a mudar, não por coação, mas pela nossa própria consciência.
Duas naturezas, de sentidos opostos, num embate para chegar a um consenso. Na minha opinião, discutir é legal.
Pessoas assim, realmente, quebram a cara em um debate. Elas têm um ataque histéricos, ficam furiosas por discordar delas, e por elas não terem argumentos, e então repetem um "porque sim!" desesperado. Pessoas opinativas raramente entram em um debate, pois não possuem embasamento para isso, e o que possuem, é uma classe de argumentos conquistados após assumirem a opinião. Buscam fatos para confirmar sua teoria. Com uma idéia já formada, não há possiblidade de reflexão, de mudança.
É uma pena, pois o debate é algo muito gostoso e emocionante. Eu pelo menos sinto assim. O debate nos leva ao limite do pensamento, da organização, nos desafiando a formar armas novas a cada instante para tentar impedir a nossa cosmovisão de ruir. É uma verdadeira guerra, mas a Razão nos alivia ao demonstrar que não passa de abstração, e que ninguém vai se ferir. Isso torna essa guerra mais aceitável. Até porque, ao contrário da guerra, que só traz destruição e desespero, o debate é criação, construção, iluminação. A partir do choque de idéias, novas idéias são criadas, melhores, mais lógicas, mais de acordo com os fatos. As informações contraditórias destroem nossa opinião, pois não permitem formar um todo coerente. É preciso então criticar os argumentos, dissecar as idéias, encontrar as lógicas, os a prioris, as contradições, as contra-evidências. É delicioso estar dividido entre duas posturas opostas, e saber que é preciso reformular tudo para conseguir se estabilizar. Essa é a parte mais difícil : reconhecer que nem sempre vamos estar estáveis, intactos, eternos. Somos forçados a mudar, não por coação, mas pela nossa própria consciência.
Duas naturezas, de sentidos opostos, num embate para chegar a um consenso. Na minha opinião, discutir é legal.
Oh, é o Lobo da Estepe!!
Quero, primeiramente, explicitar o porquê deste blog. E para isso precisarei relacioná-lo ao seu estranho título, fazendo uma alusão à maravilhosa obra do existencialista alemão Hermann Hesse, que é O Lobo da Estepe (Das Steppenwolf). Este humilde blog não está sendo escrito necessariamente pela inspiração causada pelo livro, mas sim porque ambos, tanto o blog quanto o Lobo da Estepe, possuem em seu interior os mesmos motivos. E que motivos são estes?
O motivo é a confusão, o questionamento, o desprezo, o pavor, o desejo, a revolta, a visão de mundo sobre a sociedade, ridícula, cruel, desumana, ingênua, complicada, estúpida e contraditória. A natureza de lobo tem um profundo desprezo pelas obras e leis humanas, enquanto a natureza humana nutre um desejo de comunhão com este mundo superficial e vazio.
Ambas as naturezas vivem em conflito, ao menos no livro, e possuem propostas totalmente diferentes sobre a vida, o destino e a sociedade. Aqui farei um esforço, inesperado aos pequenos-burgueses e aos lobos carniceiros, para conciliar as almas lupina e humana. Talvez daqui surjam novos Lobos das Estepes, que dilaceram tudo o que é estúpido em um humano e que construam algo que seja nobre e cheio de compaixão, qualidades que podem ser tanto humanas quanto lupinas.
É uma surpresa encontrar o Lobo da Estepe por aqui, propondo um diálogo com os burgueses e acadêmicos. Mal sabem eles que é no mundo das idéias que o lobo mostra suas presas. E é na terra que o homem constrói seus aspectos mais espirituais, por cima do que antes se dizia humano, mas era lobo.
Oh, é o Lobo da Estepe!!
O motivo é a confusão, o questionamento, o desprezo, o pavor, o desejo, a revolta, a visão de mundo sobre a sociedade, ridícula, cruel, desumana, ingênua, complicada, estúpida e contraditória. A natureza de lobo tem um profundo desprezo pelas obras e leis humanas, enquanto a natureza humana nutre um desejo de comunhão com este mundo superficial e vazio.
Ambas as naturezas vivem em conflito, ao menos no livro, e possuem propostas totalmente diferentes sobre a vida, o destino e a sociedade. Aqui farei um esforço, inesperado aos pequenos-burgueses e aos lobos carniceiros, para conciliar as almas lupina e humana. Talvez daqui surjam novos Lobos das Estepes, que dilaceram tudo o que é estúpido em um humano e que construam algo que seja nobre e cheio de compaixão, qualidades que podem ser tanto humanas quanto lupinas.
É uma surpresa encontrar o Lobo da Estepe por aqui, propondo um diálogo com os burgueses e acadêmicos. Mal sabem eles que é no mundo das idéias que o lobo mostra suas presas. E é na terra que o homem constrói seus aspectos mais espirituais, por cima do que antes se dizia humano, mas era lobo.
Oh, é o Lobo da Estepe!!
Assinar:
Postagens (Atom)