Twitter de Luiz Eduardo Soares: "A Revista Carta Capital me pediu esta entrevista mas decidiu não publicá-la. Talvez alguém me explique a razão"
“Mais cedo ou mais tarde a estupidez da política vigente há de se desmascarar” – Entrevista com Luiz Eduardo Soares
“É preciso tirar do armário as vozes libertárias, anti-proibicionistas. Elas precisam correr riscos mas têm de se pronunciar com desassombro e clareza”
O cientista político e antropólogo Luiz Eduardo Soares é muito mais do que um acadêmico engajado intelectualmente contra o proibicionismo (o que já seria ótimo). Viveu, digamos assim, “o lado de lá”, e sentiu na pele os entraves institucionais kafkanianos que impedem o poder público de atacar os probelmas que realmente importam. Foi secretário de segurança do rio de Janeiro e Secretário Nacional de Segurança Pública. Com esta experiência, pode dizer explicar a situação com clareza, como quando aponta que ” O que se passa é o seguinte: milhares de jovens pobres são capturados com drogas e, independentemente da quantidade, são rotulados como traficantes e trancafiados nessas entidades, que muitas vezes não passam de simulacros de prisões. São, assim, praticamente condenados a uma carreira no crime”.
Nesta entrevista concedida ao DAR, aponta não só os efeitos do proibicionismo e seu fracasso, como os limites de uma concepção política que encara punição e justiça como sinônimos, segurança e arbítrio como causa e consequência. Além de esboçar propostas de alternativas, como “ajustar as contas com a segurança e a justiça criminal, isto é, estender a transição democrática a essas áreas, mudando-as em profundidade. A começar pelo modelo de polícia que herdamos da ditadura e permanece intocado”.
Confira abaixo a íntegra da conversa com o autor de, entre outras obras, Elite da Tropa e Meu casaco de general: 500 dias no front da Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro
DAR – Como avalia o estágio atual de penetração do debate de drogas na sociedade brasileira? Acredita que houve avanço nos últimos anos?
Luiz Eduardo Soares – Debate? Que debate? O que há é a movimentação de grupos bastante específicos e um ou outro editorial na grande imprensa. Fora isso, o que há são os pesquisadores devotados e respeitáveis e a admirável e incansável militância anti-proibicionista. O resto é marasmo, são platitudes preconceituosas, retórica conservadora com tinturas diversas, estigmas e a pasmaceira de sempre ante a máquina feroz de morte e irracionalidade da política vigente, que criminaliza os jovens pobres e negros, estimula a corrupção policial, o domínio territorial pelo tráfico e o comércio ilegal de armas, com seus corolários sangrentos.
- Por que ainda há tanta resistência – mesmo nos ditos setores “progressistas” – quanto a enfrentar com seriedade este debate? A quem interessa a manutenção do atual status proibicionista?
Luiz Eduardo Soares – A rigor a situação atual não interessa a ninguém, salvo os segmentos corruptos da polícia, das milícias e dos políticos a eles aliados. O senso comum supõe que tudo o que existe expressa algum interesse e se realiza segundo determinado projeto de poder. Não é assim. Há efeitos perversos e efeitos de agregação, como dizemos os sociólogos. Ninguém com autoridade para mudar dispõe-se a agir por razões eleitoreiras, uma vez que formou-se uma opinião majoritária inteiramente reacionária, nessa matéria, apoiada em mitos, erros empíricos e ignorância da realidade mundial e dos resultados das pesquisas.
Para comprová-lo, basta ler o que escreveu Cesar Maia, dirigente do DEM, em seu ex-Blog. Disse que o ex-presidente FHC, ao criticar a política repressiva da guerra às drogas e reconhecer a necessidade de mudanças, ainda que tímidas, estaria prestando um desserviço à oposição, porque 80% da sociedade brasileira e 95% dos setores mais pobres eram contrários a qualquer mudança liberalizante. Cesar Maia condenava FHC por mexer em casa de marimbondo e se isolar, na opinião pública. Ou seja, segundo Cesar o líder político não deve ter compromisso com o que seja justo, necessário e verdadeiro, mas com o que seja eleitoralmente conveniente e palatável. Claro que assim não vamos a lugar nenhum. Mesmo fora da política partidária, há uma certa política na sociedade que amarra lideranças sociais aos tabus anti-drogas, subtraindo-lhes coragem de se pronunciar contra a corrente dominante.
É como as questões do aborto, da homofobia ou das políticas afirmativas contra o racismo. Não se trata apenas de troca de informações, idéias, conhecimento e opiniões, mas de valores arraigados com base em símbolos e tabus vigorosos. Os críticos se sentem envergonhados e se submetem à silenciosa pressão da maioria. Portanto, é preciso tirar do armário as vozes libertárias, anti-proibicionistas. Elas precisam correr riscos mas têm de se pronunciar com desassombro e clareza. Defender a descriminalização das drogas ou sua legalização não significa que se esteja elogiando as drogas, estimulando seu consumo ou admitindo que se consome. Eu, por exemplo, assumo publicamente essa posição minoritária desde os anos 1970. Não uso drogas nem bebo. Mas não admito que o Estado interfira em minhas decisões privadas. E repudio a hipocrisia que libera o cigarro e o álcool e proíbe a maconha, por exemplo. Assim como me nego a aceitar que um adolescente pobre e negro, de 18 anos, seja declarado criminoso e enjaulado porque vendeu maconha a outro, da mesma idade, mas de outra classe social e outra cor de pele, paternalísticamente definido como vítima: o consumidor. Bem, mas aí já entramos na discussão substantiva.
- Ultimamente a mídia tem dado destaque a movimentações institucionais e parlamentares no sentido de mudanças na atual lei drogas. Acredita na viabilidade dessas mudanças? Se sim, até onde elas iriam num primeiro momento?
Luiz Eduardo Soares – A atual política é um rotundo e eloqüente fracasso. Não só no Brasil. Por outro lado, o mal que a atual política de drogas provoca está aí, à vista de todos. Acredito que contra os tabus e a ignorância, contra a demagogia e o oportunismo eleitorais, contra o moralismo reacionário predominante, contra o populismo penal ainda há de se afirmar uma posição mais sensata, um pouquinho mais sensata. Acho que mais cedo ou mais tarde a estupidez da política vigente há de se desmascarar, revelando-se como aquilo que é. E creio que, apesar de tudo, haveremos de avançar, como avança o mundo à nossa volta, da Argentina à Suiça, de Portugal à Holanda. Não tenho dúvida que mesmo nos EUA –matriz do atraso e do obscurantismo nessa matéria– há uma consciência crítica bastante forte, inclusive dentro das polícias e do governo, mas a coalizão da direita não cessa de freiar o processo com suas chantagens.
Enfim, acredito que haverá progresso, ainda que não linear. O processo vai ser difícil, tormentoso e pleno de contradições. Hoje, o que parece começar a avançar é a descriminalização do usuário. Bem, acho que está errado em sua unilateralidade e que é injusto, mas não nego que seja melhor do que nada e que possa servir à abertura de portas para avanços mais consistentes no futuro.
- Com sua experiência como gestor público, que tipo de efeitos a chamada Guerra às drogas tem sobre a segurança pública?
Luiz Eduardo Soares – A guerra às drogas, no Brasil (e não só), tem os efeitos mais nefastos: estimula a corrupção policial e o desenvolvimento das milícias, e alimenta o tráfico de armas, sem o qual não haveria tanta violência letal, nem o domínio territorial, que veta a milhões de pessoas o acesso aos benefícios derivados do estado democrático de Direito. Além disso, há dinâmicas políticas brutais e degradadas, decorrentes desses fenômenos que acabo de enumerar. E mais: avança a criminalização da pobreza. Desafio qualquer leitor a encontrar um adolescente de classe média, branco e bem posto na vida, que esteja internado numa entidade sócio-educativa. Se houver será a exceção a confirmar a regra.
O que se passa é o seguinte: milhares de jovens pobres são capturados com drogas e, independentemente da quantidade, são rotulados como traficantes e trancafiados nessas entidades, que muitas vezes não passam de simulacros de prisões. São, assim, praticamente condenados a uma carreira no crime. O jovem rico e branco, capturado com a mesma quantidade, ou é solto mediante a propina paga pelos pais, ou é classificado como “dependente”, “viciado”, usuário, consumidor. Resultado: vai para casa. Isso é o que acontece, porque a legislação faculta ao juiz arbitrar se a quantidade recolhida com o capturado indicia tráfico ou consumo.
E atenção: a imagem usual do vendedor de drogas como o dragão da maldade, crudelíssimo e violento, é uma construção social estigmatizante que costuma ser aplicada de modo generalizante e que funciona como instrumento de reprodução de preconceitos e desigualdades sociais. Raros são aqueles que agem em conformidade com a descrição que identifica o sujeito com a monstruosidade inumana.
- De que forma e por que as políticas repressivas atuam de maneira tão seletiva, incidindo prioritariamente sobre os pobres? Por que as políticas de segurança pública são tão voltadas para a saída penal? Como fazer para alterar esse quadro?
Luiz Eduardo Soares – A sociedade e, por extensão, nossos políticos, em sua maioria, tendem a confundir justiça com punição e punição com privação de liberdade. Ficam de fora todas as dimensões da reparação da vítima, de prevenção da violência e do crime, e de construção de novas oportunidades e vias a quem transgrediu as leis ou as regras do convívio social. A lei, em sua forma pura e ideal, é igual para todos –afinal, justiça é equidade. No entanto, como nossa estrutura social é muito desigual–e nossa cultura consagra muitas delas–, e como nossas instituições de segurança e justiça criminal (assim como as políticas penais e de segurança) são fortemente marcadas por tais estruturas e por tal cultura, as leis, quando são aplicadas, submetem-se à refração imposta por filtros de classe, cor, idade, gênero, opção sexual, religião e outros. Daí a dramática desigualdade no acesso à Justiça –que talvez seja a forma mais deletéria e dura de nossas desigualdades e a mais negligenciada, até porque corrói a legitimidade da institucionalidade política–, que começa na abordagem policial e termina na prolatação das sentenças e em sua execução no sistema penitenciário, que é a negação selvagem de nossas pretensões civilizacionais. O que e como fazer? Ajustar as contas com a segurança e a justiça criminal, isto é, estender a transição democrática a essas áreas, mudando-as em profundidade. A começar pelo modelo de polícia que herdamos da ditadura e permanece intocado.
- Quais os principais avanços que uma mudança na proibição das drogas traria? Como se enfrentaria o problema no abuso do uso, por exemplo?
Luiz Eduardo Soares – Sejamos pragmáticos: o verdadeiro debate não é “devemos ou não proibir o acesso às drogas”, do álcool à cocaína. Não é esse o debate porque a hipótese do impedimento desse acesso não existe, na realidade prática. Ou seja, o acesso é um fato em todo mundo democrático ou não totalitário e teocrático. E não porque as polícias sejam incompetentes. Os EUA gastaram 500 bilhões de dólares na guerra às drogas, desde sua declaração, em meados dos anos 1990. Mesmo assim, o consumo não foi alterado. Portanto, não se pode dizer que faltou dinheiro, pessoal, equipamento, qualidade tecnológica, competência técnica, nada disso. O fato é que é simplesmente impossível controlar uma dinâmica desse tipo, quando, na sociedade, há demanda e oferta. O fato é este. Ponto final. Sejamos realistas. Rendamo-nos aos fatos.
Aliás, no fundo o que esse fato demonstra é muito bom: a sociedade vence o Estado, para o bem e para o mal. De todo modo, é necessário ter os pés no chão e reconhecer os fatos como eles são. A verdadeira questão sempre mascarada é a seguinte: como não está ao nosso alcance impedir o acesso às substâncias que chamamos drogas, temos de nos perguntar: em que contexto jurídico-político seria preferível vivenciar esta iniludível realidade? Dizendo-o de outro modo: em que contexto normativo seria menos mau lidar com a realidade do acesso às drogas? O contexto atual, em que drogas são problema de polícia e cadeia, isto é, de política criminal? Ou um contexto diferente em que elas fossem objeto de saúde pública e educação? Eu aposto no segundo caminho. Ele não vai evitar o abuso, mas pelo menos não vai provocar outros males. Das drogas e de seus efeitos destrutivos nós nunca nos livraremos, mas poderemos aprender a conviver melhor com elas, a ponto, inclusive, de reduzir o sofrimento humano que seu abuso provoca.
Vejamos o caso mais grave: o álcool. Há, no Brasil, mais de 15 milhões de alcoólicos e, mesmo assim –felizmente– ninguém está propondo a proibição e a criminalização do usuário. A não criminalização tem impedido o abuso, a dependência? Não. Mas acho que todos concordariam que a via da criminalização tampouco resolveria o abuso e ainda implicaria conseqüências coletivas desastrosas. Eis, por fim, um exemplo virtuoso e uma lição: temos diminuído bastante o consumo de cigarro com políticas inteligentes que disciplinam a venda e o consumo, e criam um ambiente cultural avesso ao uso. Esse é o caminho.
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sexta-feira, 23 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
A Liberdade é Terapêutica
A Liberdade é Terapêutica
Famosa frase do psiquiatra Franco Basaglia, que se tornou o slogan do Movimento Antimanicomial, um movimento político da segunda metade do século XX que defende a proteção dos Direitos Humanos para os usuários do sistema de saúde mental. Como tradicionalmente o serviço de saúde mental se constitui como oferta exclusiva do hospital psiquiátrico, também chamado de manicômio, e como esse estabelecimento possui algumas características intrínsecas de funcionamento que violam por si só os Direitos Humanos (internação forçada, desapropriação de bens, contenção química, isolamento, impossibilidade de participar da vida civil e também formas de terapia pseudocientíficas extremamente bizarras, como a indução de febre, o eletro choque e a imersão em água fria), o Movimento Antimanicomial ganhou esse nome por defender a abolição dos manicômios, que tradicionalmente são o único estabelecimento responsabilizado pela saúde mental.
Essa idéia ainda hoje é escandalizante, pois a nossa cultura bastante fundamentada na neurose, na intolerância e na segregação, não consegue conceber como alguém pode querer que os loucos fiquem soltos na rua. Só que esse é um movimento fundamentado tanto na observação e crítica de práticas bastante opressivas quanto de longas reflexões teóricas entre intelectuais, então o mínimo que se poderia supor é que quem defende a abolição dos manicômios sabe do que está falando. Apesar da conduta romântica dos protagonistas, o corpo teórico e conceitual é racional e já se tem muita coisa planejada.
O primeiro esclarecimento a ser feito é que os loucos não ficam ‘na rua’, no sentido de desprovidos de assistência de saúde e condições materiais adequadas. Essa idéia confusa e preconceituosa acaba levando as pessoas a deduzirem que, ou os loucos vão sair por aí sem controle aprontando as maiores loucuras e instalando o caos na cidade, que foi justamente o argumento usado para a instituição dos manicômios, ou que eles vão virar mendigos bêbados e delirantes atirados pelo chão. Mas a condição de doença mental não tem o caos, o perigo e a insanidade absoluta que o senso-comum e algumas escolas de pensamento supõem, assim como leões, elefantes ou tubarões não são bestas impetuosas e que agem despropositadamente, como era o pensamento vigente até a metade do século XX, e servia de justificativa para caçadas esportivas e verdadeiros empreendimentos de extermínio que ainda hoje ameaçam a biodiversidade. Doentes mentais, num geral, são mais prováveis vítimas do que a população normal, e também não é a loucura a causa da pobreza: falta de condições materiais para satisfazer direitos básicos de existência é que pode gerar a loucura, muito embora outros tipos de loucura sejam evidentes com o acúmulo de riquezas. Assim como eles não são bestas perigosas, mas sim pessoas que portam um grave sofrimento psíquico em função de suas experiências de vida e condições de existência, ele também não vai ser deixado sem ajuda. O Movimento Antimanicomial se baseia na defesa dos Direitos Humanos, é no mínimo óbvio que a intenção é proteger e cuidar dessas pessoas.
Mas não é meramente uma intenção: o Movimento Antimanicomial surgiu com preocupações bem práticas, e juntamente com a fundamentação filosófica, foram pensadas formas de estruturar os serviços de saúde mental e o sistema de saúde como um todo de modo a alcançar seus objetivos. Para isso, devem ser necessárias práticas de assistências que garantam o acesso à saúde, educação, moradia, liberdade, convívio social, dinheiro, trabalho, justiça e dignidade. Com exceção da saúde, e ainda com algumas ressalvas, nada disso jamais foi suprido pelo manicômio, e nunca poderá ser, pois ele funciona justamente pela internação e pelo controle autoritário dos profissionais da saúde. Então, os serviços de saúde mental estão se estruturando como estabelecimentos aos quais o paciente se dirige quando ele reconhece que necessita de ajuda, e ao qual retorna em função de seu interesse em aliviar seu próprio sofrimento, como acontece com qualquer outro doente. Esses estabelecimentos são hospitais gerais, hospitais-dia, residenciais terapêuticos, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e ambulatórios. Como todo o resto do sistema de saúde pública, ele ainda tem muitas limitações e sofre muitas críticas, principalmente em função da falta de financiamento estatal. Este pensamento prático sobre a reforma do sistema de saúde mental é chamada de Reforma Psiquiátrica.
Mesmo com todas as limitações da Reforma Psiquiátrica, existe um fato que se torna cada vez mais evidente: de fato, a liberdade é terapêutica. Usuários do sistema de saúde mental da Reforma apresentam maior autonomia e estabelecimento de redes sociais, que são fatores terapêuticos, e passam muito menos tempo no processo terapêutico. Essas evidências são basicamente ‘clínicas’, pois a ideologia pós-moderna que atravessa essa luta é um tanto afoita a estatísticas e experimentos. Na verdade, o reconhecimento do caráter terapêutico da liberdade não deriva de nenhuma observação ou teste, mas da simples dedução de seus pressupostos teóricos: os Direitos Humanos são quesitos a ser defendidos para as pessoas viverem melhor e terem vidas mais plenas e dignas, e quem vive melhor terá menos sofrimento, então, considerando que a doença mental é um grave sofrimento psíquico, as boas condições de vida propiciadas pelos Direitos Humanos fazem as pessoas sofrerem menos, ou seja, atuam de forma terapêutica.
Famosa frase do psiquiatra Franco Basaglia, que se tornou o slogan do Movimento Antimanicomial, um movimento político da segunda metade do século XX que defende a proteção dos Direitos Humanos para os usuários do sistema de saúde mental. Como tradicionalmente o serviço de saúde mental se constitui como oferta exclusiva do hospital psiquiátrico, também chamado de manicômio, e como esse estabelecimento possui algumas características intrínsecas de funcionamento que violam por si só os Direitos Humanos (internação forçada, desapropriação de bens, contenção química, isolamento, impossibilidade de participar da vida civil e também formas de terapia pseudocientíficas extremamente bizarras, como a indução de febre, o eletro choque e a imersão em água fria), o Movimento Antimanicomial ganhou esse nome por defender a abolição dos manicômios, que tradicionalmente são o único estabelecimento responsabilizado pela saúde mental.
Essa idéia ainda hoje é escandalizante, pois a nossa cultura bastante fundamentada na neurose, na intolerância e na segregação, não consegue conceber como alguém pode querer que os loucos fiquem soltos na rua. Só que esse é um movimento fundamentado tanto na observação e crítica de práticas bastante opressivas quanto de longas reflexões teóricas entre intelectuais, então o mínimo que se poderia supor é que quem defende a abolição dos manicômios sabe do que está falando. Apesar da conduta romântica dos protagonistas, o corpo teórico e conceitual é racional e já se tem muita coisa planejada.
O primeiro esclarecimento a ser feito é que os loucos não ficam ‘na rua’, no sentido de desprovidos de assistência de saúde e condições materiais adequadas. Essa idéia confusa e preconceituosa acaba levando as pessoas a deduzirem que, ou os loucos vão sair por aí sem controle aprontando as maiores loucuras e instalando o caos na cidade, que foi justamente o argumento usado para a instituição dos manicômios, ou que eles vão virar mendigos bêbados e delirantes atirados pelo chão. Mas a condição de doença mental não tem o caos, o perigo e a insanidade absoluta que o senso-comum e algumas escolas de pensamento supõem, assim como leões, elefantes ou tubarões não são bestas impetuosas e que agem despropositadamente, como era o pensamento vigente até a metade do século XX, e servia de justificativa para caçadas esportivas e verdadeiros empreendimentos de extermínio que ainda hoje ameaçam a biodiversidade. Doentes mentais, num geral, são mais prováveis vítimas do que a população normal, e também não é a loucura a causa da pobreza: falta de condições materiais para satisfazer direitos básicos de existência é que pode gerar a loucura, muito embora outros tipos de loucura sejam evidentes com o acúmulo de riquezas. Assim como eles não são bestas perigosas, mas sim pessoas que portam um grave sofrimento psíquico em função de suas experiências de vida e condições de existência, ele também não vai ser deixado sem ajuda. O Movimento Antimanicomial se baseia na defesa dos Direitos Humanos, é no mínimo óbvio que a intenção é proteger e cuidar dessas pessoas.
Mas não é meramente uma intenção: o Movimento Antimanicomial surgiu com preocupações bem práticas, e juntamente com a fundamentação filosófica, foram pensadas formas de estruturar os serviços de saúde mental e o sistema de saúde como um todo de modo a alcançar seus objetivos. Para isso, devem ser necessárias práticas de assistências que garantam o acesso à saúde, educação, moradia, liberdade, convívio social, dinheiro, trabalho, justiça e dignidade. Com exceção da saúde, e ainda com algumas ressalvas, nada disso jamais foi suprido pelo manicômio, e nunca poderá ser, pois ele funciona justamente pela internação e pelo controle autoritário dos profissionais da saúde. Então, os serviços de saúde mental estão se estruturando como estabelecimentos aos quais o paciente se dirige quando ele reconhece que necessita de ajuda, e ao qual retorna em função de seu interesse em aliviar seu próprio sofrimento, como acontece com qualquer outro doente. Esses estabelecimentos são hospitais gerais, hospitais-dia, residenciais terapêuticos, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e ambulatórios. Como todo o resto do sistema de saúde pública, ele ainda tem muitas limitações e sofre muitas críticas, principalmente em função da falta de financiamento estatal. Este pensamento prático sobre a reforma do sistema de saúde mental é chamada de Reforma Psiquiátrica.
Mesmo com todas as limitações da Reforma Psiquiátrica, existe um fato que se torna cada vez mais evidente: de fato, a liberdade é terapêutica. Usuários do sistema de saúde mental da Reforma apresentam maior autonomia e estabelecimento de redes sociais, que são fatores terapêuticos, e passam muito menos tempo no processo terapêutico. Essas evidências são basicamente ‘clínicas’, pois a ideologia pós-moderna que atravessa essa luta é um tanto afoita a estatísticas e experimentos. Na verdade, o reconhecimento do caráter terapêutico da liberdade não deriva de nenhuma observação ou teste, mas da simples dedução de seus pressupostos teóricos: os Direitos Humanos são quesitos a ser defendidos para as pessoas viverem melhor e terem vidas mais plenas e dignas, e quem vive melhor terá menos sofrimento, então, considerando que a doença mental é um grave sofrimento psíquico, as boas condições de vida propiciadas pelos Direitos Humanos fazem as pessoas sofrerem menos, ou seja, atuam de forma terapêutica.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Direitos da Criança e sustentabilidade

Nos últimos anos os Direitos da Criança e do Adolescente, como linha de pensamento baseada nos Direitos Humanos, mas com suas especificidades de um período peculiar de desenvolvimento humano, vem se tornando cada vez mais expressivo e assumindo força de lei. A defesa do desenvolvimento pleno vem se tornando cada vez mais ampla e exigente, transcendendo necessidades mais evidentes e formais, como o direito à alimentação, à integridade física e à educação escolar, e tocando em aspectos mais sutis e necessidades psicológicas, como o direito ao respeito, ao carinho e à estimulação cognitiva em casa. Atualmente, é possível classifcar como negligência o fato da criança ser obesa ou não ter acesso a um computador, e como abuso emocional rotular a criança, exigir que ela assume um papel de gênero estereotipado (tipo, boys don't cry) ou ensinar visões de mundo racistas, sexistas ou xenófobas ou baseadas no ódio e inteolerância a outros grupos. Ou seja, cada vez mais estamos mais exigentes com a forma como cuidamos de nossas crianças, e queremos que todos se desenvolvam plenamente - e, para isso, queremos estimulá-las a serem alegres, autoconfiantes, inteligentes, gentis, pacíficas e tolerantes.
Mas e quanto a sustentabilidade? Há meio século estamos tentando promover uma adequada educação ambiental(o que quer que isso seja) para a população - e temos tradicionalmente focado na educação ambiental infantil, lembrando daquela concepção das crianças como o futuro do planeta e aqueles que herdarão a Terra e sofrerão com o nosso descuido. Não é difícil constatar que as novas gerações são muito mais conscientes a respeito da falta de sustentabilidade de nossa civilização do que gerações anteriores. No entanto, parece que aidna há muitas crianças e adolescentes crescendo sem uma preocupação ambiental, e seguindo um modo de vida consumista baseado na filosofia do "american way of life". O que aconteceu de errado na história toda? Usualmente, se atribui essa permanência de um modo de vida consumista e inconseqüente a um termo vago chamado cultura, mas o principal determinante para este modo de vida foram a educação e os exemplos recebidos na infância e adolescência - o que quer dizer que as pessoas próximas não forma bons exemplos de sustentabilidade e não se preocuparam em ensinar isso às crianças. Nâo seria isso uma forma de negligência?
Talvez no futuro, com os Direitos da Criança e do Adolescente ainda mais consolidados, com uma realização maior da proteção nesses direitos mais clássicos como à higiene ou à integridade física, e a uma maior preocupação com a sustentabilidade por parte da sociedade em geral e especialmente dos law-makers e law-enforcers dos Direitos da Criança e do Adolescente, seja entendida e aplicada como lei a exigência ao ensino de práticas sustentáveis, pautadas na frugalidade, na simplicidade, no reaproveitamento, na reciclagem e na gestão consciente dos recursos ambientais.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O Fórum Social Mundial das muitas tribos: mundos possíveis
Nesta semana, do dia 25 ao 29 de janeiro de 2010 ocorreu na Grande Porto Alegre a décima edição do Fórum Social Mundial, grande evento a nível internacional que busca articualr os movimentos sociais e pautar ações de construção de um outro mundo possível, no qual sejam superadas as injustiças. Paralelamente ao Fòrum Social Mundial, e juntando forças, aconteceu o Acampamenot Intercontinental da Juventude, cujo objetivo é o mesmo, mas com uma estrutura diferente. Enquanto o Fórum consistiu de diversas atividades, algumas programadas pela organização, como os seminários internacionais, nos quais grandes intelectuais do Brasil e do mundo discursavam sobre as conjunturas atuais, e muitas oficinas e debates propostos pelas instituições e movimentos sociais, o AIJ consistiu em um acampamento no qual estavam previstos diversos espaços para juntar tribos com interesses em comum, como o Espaço Saúde, a Cidade Hip Hop, o Mundo pela Diversidade e a Ecoaldeia da Paz, no qual ocorriam diversas atividades, vivências, debates e palestras, e que era possível muita interação humana. Neste contexto, perdemos um pouco do caráter de fórum e ganhamos muitas oportunidades de vivenciar estilos de vida diferentes. No Acampamento Intercontinental da Juventude nós vivemos outros mundos possíveis.
Meu objetivo ao participar do AIJ era basicamente conhecer pessoas, debater politica e construir redes de contato, objetivo este que foi satisfeito maravilhosamente. Ainda que houvesse um número expressivo de pessoas interessadas exclusivamente em jogar papo pro ar e fazer festa, muitas pessaos foram com o propósito de construir redes e se articular enquanto movimentos sociais. Alguns desses movimentos sociais lamentavelmente apresentavam idéias bastante ingênuas e não muito produtivas em um sentido social, defendendo ideologias de um contexto de Guerra Fria pautadas no combate a determinadas classes sociais e defendendo como estratégia única a mobilização das massas. A minha perplexidade quanto a quantidade de pessoas defendendo essas idéias no que era para ser o maior evento mundial de debates de alternativas ao neoliberalismo selvagem clama por uma análise mais detalhada dessas idéias e do porquê eu estaria classificando elas como inadequadas e antiquadas.
Começamos pela proposta do FSM, que acaba por ser a proposta do AIJ também: propor alternativas ao modelo neoliberal. Isto significa que já temos um ponto de onde iniciar, que é uma crítica, e temos que propor utopias e, a partir destas, compor práticas - mais especificamente, práticas econômicas que valorizem as pessoas e levem à justiça social. Mas o que tem de prático em "combater a burguesia imperialista"? É para fazer inimigos no FSM, em vez de alianças? O que as pessoas inseridas na burguesia tem de poder e responsabilidade em relação ao imperialismo? O que é imperialismo? Como se combate o imperialismo? Mobilizando as massas? Dando palavras de ordem? Fazendo passeatas? O que tem de prático e economicamente revolucionário no grito e na pregação ideológica? A nossa causa é mesmo em relação ao imperialismo ou ao capitalismo? Por que não em relação ao meio ambiente, à educação pública de qualidade ou aos direitos humanos?
Em Histórias do Século XX (2000), Daniel Aarão diz que a pós-modernidade se inicia com a diversificação das lutas sociais, que transcende a luta de classes e contra o Capital e dá lugar a diversas micro-lutas: movimento queer, luta feminista, luta animanicomial, movimento ambientalista, pacifismo, direitos humanos, cultura livre, neotribalismo, etc. Neste contexto, não só por inadequações conceituais, mas também por ignorar todo o resto do mundo, essas lutas de cartilha contra o Capital são ideologias que emperram uma discussão mais produtiva em prol da justiça social, e encontramos a verdadeira riqueza de idéias, estilos e práticas em todas estas micro-lutas. São essas idéais novas que eu queria encontrar no FSM, e que apesar da tristeza de também encontrar as idéias da Guerra Fria ali, encontrei muitas idéias boas. Participei de debates sobre política e terapêutica de drogas, desconstrução da identidade de gênero e de conversas sobre a rede de agricultores que cultivam juçara, planta nativa semelhante ao açaí, que é um símbolo da vanguarda da soberania alimentar gaúcha.
Contudo, apesar da grande diversidade de tribos e de idéias, tive a impressão de que as idéias não circularam. Pelo que observei, fui um dos poucos a se dar ao luxo e ao desafio de circular pelas diferentes tribos, acompanhar suas causas e conhecer seus estilos de vida - a maioria dos acampados permaneceu em grupos fechados com os quais já estavam identificados.
Dentre essas tribos, a que pareceu mais singular e à parte foi a Ecoaldeia da Paz, que tem a característica excepcional de já ser um movimento organizado e itinerante, com muitos de seus habitantes vivendo permanentemente com a Ecoaldeia da Paz, e que, em vez de ser um espaço constituído no AIJ, é um movimento integrado que veio ocupar um espaço e mostrar sua utopia viva para os participantes do acampamento. Observei que os participantes da Ecoaldeia da Paz não fizeram questão de visitar outros espaços do acampamento, mas se mostravam abertos a acolher, aceitar e até compartilhar alimento com quem qeur que quisesse partilhar da experiÊncia de viver no sistema da Ecoaldeia da Paz. A Ecoaldeia era suficiente em si mesma, e rica e abundante, de forma que transbordava visibilidade através de suas músicas, shows, rituais e danças circulares, conhecidos por todos no acampamento. A Ecoaldeia é uma utopia viva, uma comunidade intencional pautada na absoluta solidariedade e no respeito sagrado à natureza, e apresenta-se como a mais concreta e organizada alternativa ao modelo neoliberal nestes anos todos de Fórum Social Mundial, com propostas práticas e estruturadas das quais pudemos observar: cozinha comunitária vegana, banheiro seco, assembléias populares pautadas no direito à palavra e à escuta respeitosa, comissões voluntárias para desempenhar tarefas específicas e temporárias, mutirões de construção e mediações e rituais de apaziguamento, permacultura, espaços de troca solidária e um dispositivo de cuidado das crianças pautado no voluntariado, no respeito à criança, an liberdade e no contato com a natureza. Esta é uma alternativa ao neoliberalismo que não passa pela revolução, mas pela comunidade intencional. Não se trata de realizar passeatas ou lutar no campo político, mas simplesmente de viver, celebrar e ser solidário com quem precisa, em ações simples como construir fornos-foguete ou composteiras em pequenas propriedades rurais.
Além de apresentar alternativas concretas ao neoliberalismo, a Ecoaldeia da Paz chama a atenção por sua unidade, integração e pela afinação de todos os participantes com os valores sustentados pela comunidade, valores pautados no pacifismo, na solidariedade, na adoração da Natureza, na liberdade pessoal, an tolerância e no comunitarianismo. Como pode uma comunidade, na qual circulam muitos estranhos alheios a estes valores, e que não têm nenhum aparato de controle na sociedade, manter a coesão e a coerência entre suas idéias e as ações de cada membro da Ecoaldeia da Paz? Percebi que a sua coerência e integração são produtos de uma das atividades que, no início, via como das masi desnecessárias e despropostiadas em qualquer sociedade humana: os rituais e canções que afirmam e reafirmam so valores dribo. São estas atividades ritualísticas/lúdicas/artísticas que remetem as pessoas às suas identidades como integrantes da tribo, desta tribo que é a Ecoaldeia da Paz, e qeu mostram o caminho a seguir e os valores a obedecer. É desta forma que se lembra que alguém deve se voluntariar para cuidar das crianças naquela tarde ou até para mediar e apaziguar um conflito, dissolvendo a discórdia em perdão ao remeter a essa identidade e a esses ideais maiores que transcendem as contingências e interesses individuais.
Estas atividades que trazem visibilidade e que são aparentemente não-funcionais - rituais, celebrações, músicas, shows - produzem ainda um outro efeito além da coerência entre idéia e ação e coesão social: elas divulgam os valores e o estilo de vida da tribo para todos os que não fazem parte dela. A estratégia da Ecoaldeia da Paz de transformar o mundo à sua volta consiste na divulgação de seu estilo de vida, em vez de centrar-se em combates ou argumentos. Trata-se não só da propaganda pelo ato, mas também da expressão dos valores, estilo de vida e visão de mundo através de sua arte, em especial pela música e pela dança circular.
Pareceu-me que muitos dos acampados estavam mais interessados em conhecer formas melhores de viver, conhecer pessoas e receber a transmissão de alguma sabedoria do bem-viver, do que em debates sobre estratégias e propostas políticas e econômicas como alternativas ao neoliberalismo. Devo confessar que meu propósito no AIJ consistia em conhecer pessoas, construir redes e alianças e aprender, e não havia nada de prévio em termos de ideologia, discurso ou ação que eu tive intenção de trazer ao acampamento - e que este meu objetivo foi satisfeito plenamente. Contudo, em um determinado momento comecei a pensar que, neste evento, absorvi muito mas não retribuí nada, ou quase nada. Eu não havia levado butiá, nem panfletos, nem jornais, não promovi nenhuma roda de conversa sobre nada e sequer comentei com outros sobre alguma militância que eu tivesse. E eis que então aprendi mais um hábito revolucionário neste outro mundo possível que foi o Acampamento Intercontinental da Juventude - sobre a importância de, onde quer que eu vá, que eu traga algo de bom para o mundo.
Bruno Graebin de Farias
Meu objetivo ao participar do AIJ era basicamente conhecer pessoas, debater politica e construir redes de contato, objetivo este que foi satisfeito maravilhosamente. Ainda que houvesse um número expressivo de pessoas interessadas exclusivamente em jogar papo pro ar e fazer festa, muitas pessaos foram com o propósito de construir redes e se articular enquanto movimentos sociais. Alguns desses movimentos sociais lamentavelmente apresentavam idéias bastante ingênuas e não muito produtivas em um sentido social, defendendo ideologias de um contexto de Guerra Fria pautadas no combate a determinadas classes sociais e defendendo como estratégia única a mobilização das massas. A minha perplexidade quanto a quantidade de pessoas defendendo essas idéias no que era para ser o maior evento mundial de debates de alternativas ao neoliberalismo selvagem clama por uma análise mais detalhada dessas idéias e do porquê eu estaria classificando elas como inadequadas e antiquadas.
Começamos pela proposta do FSM, que acaba por ser a proposta do AIJ também: propor alternativas ao modelo neoliberal. Isto significa que já temos um ponto de onde iniciar, que é uma crítica, e temos que propor utopias e, a partir destas, compor práticas - mais especificamente, práticas econômicas que valorizem as pessoas e levem à justiça social. Mas o que tem de prático em "combater a burguesia imperialista"? É para fazer inimigos no FSM, em vez de alianças? O que as pessoas inseridas na burguesia tem de poder e responsabilidade em relação ao imperialismo? O que é imperialismo? Como se combate o imperialismo? Mobilizando as massas? Dando palavras de ordem? Fazendo passeatas? O que tem de prático e economicamente revolucionário no grito e na pregação ideológica? A nossa causa é mesmo em relação ao imperialismo ou ao capitalismo? Por que não em relação ao meio ambiente, à educação pública de qualidade ou aos direitos humanos?
Em Histórias do Século XX (2000), Daniel Aarão diz que a pós-modernidade se inicia com a diversificação das lutas sociais, que transcende a luta de classes e contra o Capital e dá lugar a diversas micro-lutas: movimento queer, luta feminista, luta animanicomial, movimento ambientalista, pacifismo, direitos humanos, cultura livre, neotribalismo, etc. Neste contexto, não só por inadequações conceituais, mas também por ignorar todo o resto do mundo, essas lutas de cartilha contra o Capital são ideologias que emperram uma discussão mais produtiva em prol da justiça social, e encontramos a verdadeira riqueza de idéias, estilos e práticas em todas estas micro-lutas. São essas idéais novas que eu queria encontrar no FSM, e que apesar da tristeza de também encontrar as idéias da Guerra Fria ali, encontrei muitas idéias boas. Participei de debates sobre política e terapêutica de drogas, desconstrução da identidade de gênero e de conversas sobre a rede de agricultores que cultivam juçara, planta nativa semelhante ao açaí, que é um símbolo da vanguarda da soberania alimentar gaúcha.
Contudo, apesar da grande diversidade de tribos e de idéias, tive a impressão de que as idéias não circularam. Pelo que observei, fui um dos poucos a se dar ao luxo e ao desafio de circular pelas diferentes tribos, acompanhar suas causas e conhecer seus estilos de vida - a maioria dos acampados permaneceu em grupos fechados com os quais já estavam identificados.
Dentre essas tribos, a que pareceu mais singular e à parte foi a Ecoaldeia da Paz, que tem a característica excepcional de já ser um movimento organizado e itinerante, com muitos de seus habitantes vivendo permanentemente com a Ecoaldeia da Paz, e que, em vez de ser um espaço constituído no AIJ, é um movimento integrado que veio ocupar um espaço e mostrar sua utopia viva para os participantes do acampamento. Observei que os participantes da Ecoaldeia da Paz não fizeram questão de visitar outros espaços do acampamento, mas se mostravam abertos a acolher, aceitar e até compartilhar alimento com quem qeur que quisesse partilhar da experiÊncia de viver no sistema da Ecoaldeia da Paz. A Ecoaldeia era suficiente em si mesma, e rica e abundante, de forma que transbordava visibilidade através de suas músicas, shows, rituais e danças circulares, conhecidos por todos no acampamento. A Ecoaldeia é uma utopia viva, uma comunidade intencional pautada na absoluta solidariedade e no respeito sagrado à natureza, e apresenta-se como a mais concreta e organizada alternativa ao modelo neoliberal nestes anos todos de Fórum Social Mundial, com propostas práticas e estruturadas das quais pudemos observar: cozinha comunitária vegana, banheiro seco, assembléias populares pautadas no direito à palavra e à escuta respeitosa, comissões voluntárias para desempenhar tarefas específicas e temporárias, mutirões de construção e mediações e rituais de apaziguamento, permacultura, espaços de troca solidária e um dispositivo de cuidado das crianças pautado no voluntariado, no respeito à criança, an liberdade e no contato com a natureza. Esta é uma alternativa ao neoliberalismo que não passa pela revolução, mas pela comunidade intencional. Não se trata de realizar passeatas ou lutar no campo político, mas simplesmente de viver, celebrar e ser solidário com quem precisa, em ações simples como construir fornos-foguete ou composteiras em pequenas propriedades rurais.
Além de apresentar alternativas concretas ao neoliberalismo, a Ecoaldeia da Paz chama a atenção por sua unidade, integração e pela afinação de todos os participantes com os valores sustentados pela comunidade, valores pautados no pacifismo, na solidariedade, na adoração da Natureza, na liberdade pessoal, an tolerância e no comunitarianismo. Como pode uma comunidade, na qual circulam muitos estranhos alheios a estes valores, e que não têm nenhum aparato de controle na sociedade, manter a coesão e a coerência entre suas idéias e as ações de cada membro da Ecoaldeia da Paz? Percebi que a sua coerência e integração são produtos de uma das atividades que, no início, via como das masi desnecessárias e despropostiadas em qualquer sociedade humana: os rituais e canções que afirmam e reafirmam so valores dribo. São estas atividades ritualísticas/lúdicas/artísticas que remetem as pessoas às suas identidades como integrantes da tribo, desta tribo que é a Ecoaldeia da Paz, e qeu mostram o caminho a seguir e os valores a obedecer. É desta forma que se lembra que alguém deve se voluntariar para cuidar das crianças naquela tarde ou até para mediar e apaziguar um conflito, dissolvendo a discórdia em perdão ao remeter a essa identidade e a esses ideais maiores que transcendem as contingências e interesses individuais.
Estas atividades que trazem visibilidade e que são aparentemente não-funcionais - rituais, celebrações, músicas, shows - produzem ainda um outro efeito além da coerência entre idéia e ação e coesão social: elas divulgam os valores e o estilo de vida da tribo para todos os que não fazem parte dela. A estratégia da Ecoaldeia da Paz de transformar o mundo à sua volta consiste na divulgação de seu estilo de vida, em vez de centrar-se em combates ou argumentos. Trata-se não só da propaganda pelo ato, mas também da expressão dos valores, estilo de vida e visão de mundo através de sua arte, em especial pela música e pela dança circular.
Pareceu-me que muitos dos acampados estavam mais interessados em conhecer formas melhores de viver, conhecer pessoas e receber a transmissão de alguma sabedoria do bem-viver, do que em debates sobre estratégias e propostas políticas e econômicas como alternativas ao neoliberalismo. Devo confessar que meu propósito no AIJ consistia em conhecer pessoas, construir redes e alianças e aprender, e não havia nada de prévio em termos de ideologia, discurso ou ação que eu tive intenção de trazer ao acampamento - e que este meu objetivo foi satisfeito plenamente. Contudo, em um determinado momento comecei a pensar que, neste evento, absorvi muito mas não retribuí nada, ou quase nada. Eu não havia levado butiá, nem panfletos, nem jornais, não promovi nenhuma roda de conversa sobre nada e sequer comentei com outros sobre alguma militância que eu tivesse. E eis que então aprendi mais um hábito revolucionário neste outro mundo possível que foi o Acampamento Intercontinental da Juventude - sobre a importância de, onde quer que eu vá, que eu traga algo de bom para o mundo.
Bruno Graebin de Farias
domingo, 19 de abril de 2009
Arte, Quadrinhos e Revolução

Desde muito novo sou fã de histórias em quadrinhos, tendo investido muitas tardes lendo, relendo, desenhando e filosofando sobre qualquer chama que me inspirasse qualquer uma das obras que eu lia. Embora eu não seja o tipo clássico de fã, que coleciona revistas, bonecos e freqüenta todos os eventos - em razão das limitações financeiras - eu incorporei o gosto pelas artes gráficas, que é um de meus hobbies preferidos, e a leitura do mundo como uma aventura heróica, na qual o nosso propósito de vida é salvar o mundo. As questões éticas e existenciais do mundo dos super-heróis me guiam tanto que é a partir destes conceitos que penso meus estudos, meu trabalho, minha carreira científica, minhas práticas psi, e agora, também, minhas artes. Como disse sabiamente Tio Ben, grandes poderes trazem grandes responsabilidades, e se somos brilhantes, talentosos, fortes, corajosos, saudáveis, criativos ou poéticos, devemos direcionar nossas potencialidades para fins heróicos, e não meramente para sobrevivência, passatempo ou diversão.
Mas como fazer uma arte que não é mero divertimento? Este questionamento tem cerca de um século de existência e ainda não se chegou onde queria. Tivemos várias experiências de artes engajadas, como a propart soviética, o construtivismo soviético, o teatro brechtiano, o teatro do oprimido, teatro de guerrilha, e outros. Todo movimento estético tem uma proposta de impacto na sociedade - contudo, nem todos inspiram à ação heróica ou revolucionária, a exemplo da arte abstrata que inspira a mera contemplação e abstração sem fundamento e afasta as classes populares do saber artístico.
Como ação heróica e revolucionária, eu quero dizer toda ação que transforme as condições concretas de existência de indivíduos ou comunidades de forma a construir uma sociedade justa, igualitária, pacífica e livre, empoderando indivíduos e comunidades e inspirando valores de paz e justiça. Não chamo simplesmente de ação heróica, pois poderia perder o caráter de transformação social, e ficar relegado a um mero salvacionismo - e também não é simpelsmente ação revolucionária, pois não se trata de combater o macropoder e transformar a estrutura política como fim último, mas sim transformar a vida das pessoas próximas, prescindindo do macropoder.
Como alcançar este tipo de transformação através das artes gráficas, principalmente os quadrinhos? Tradicionalmente, os quadrinhos são produtos mercadológicos inseridos na cultura de massas, e atualmente difundem as duas culturas capitalistas mais poderosas do mundo - EUA e Japão. Sua cultura então é uma cultura das classes de poder aquisitvo elevedo, uma cultura do consumo e uma cultura de massa. Será podssível que, mesmo com essas configurações estruturais, as histórias em quadrinhos inspirem a conduta heróica?
Matt Morris e Gelson Weschenfelder sustentam que sim, e a minha experiência pessoal sugere isso também. COntudo, quero por este discurso em dúvida. Em Teatro do Oprimido e Poéticas Públicas, Augusto Boal traça uma evolução histórica da estrtuura do teatro, desde o teatro acatártico aristotélico, direcionado para a expressão emocional e alívio da tensão, passando pelo teatro dialético brechtiano, de fundamento marxista, voltado para a conscientzação do homem da era científica, até à crítica feita por Boal a esses teatros como teatros do espetáculo, a à sua proposta de um tearto para ação, um teatro como ensaio para a ação revolucionária. Eu me pergunta em qual destas classificações o mangá ou a HQ se enquadrariam. Será que os quadrinhso realmente fornecem ferramentas para a revolução, ou estão relegados a um papel puramente emocional ou de entretenimento. Considerando a semelhança do uso da fantasia nos mangás e nas histórias fantásticas épicas medievais, que transportam o espectador para um outro mundo, com uma estrutura social totalmente diferente e sem menção às formas de opressão atuais, e o comportamento passivo e apático de grande parte dos cidadãos, mais engajados no consumo e na cultura dos ídolos do que na transformação social, estou inclinado a entender que os quadrinhos, por alguma razão que ainda não compreendo, não estão estimulando os jovens ao heroísmo, senão inibindo-os e relegando-os a um papel de observador.
Por outro lado, ser super-herói é um sonho de vida comum entre os fãs de quadrinhos, ainda na infância. Porém, é mais fácil encontrar um fã apaixonado pelo Seiya do que alguém que sustente o sonho de se tornar super-herói na idade adulta. O que acontece nesse meio tempo que acaba com o sonho? Talvez exista uma cultura reacionária, que tem mais poder sobre os adultos, que incentive-os à conformidade e renegue o passado heroicamente inspirado desses indivíduos, que acabam por se submeter em função de necessidades mais básicas, como sustento ou inserção social.
Então, precisa ser criada uma cultura dos quadrinhos forte o suficiente para reagir à conformidade social. Ela precisa mostrar como é possível manter o sonho de ser super-herói, e como concretizá-lo no mundo real. Ela precisa ter um caráter pedagógico de exposição da conduta heróica e de instrumentalização ética, estratégica e comportamental, que incite diretamente à ação, em vez de meramente à fantasia ou à emoção. Ela precisa abordar so temas feliosóficas tão caros às histórias de super-heróis. E, o que parece mais difícil, ela precisa superar o seu caráter classista e de bem de consumo, tornando-se uma arte verdadeiramente engajada.
Precisamos de modelos de conduta, de pessoas que nos inspirem e nos mostrem uma idéia do que é a eudaimonia. Em um mundo secularizado, niilista, envolvido em guerras imperialistas, sem deuses ou santos, surgiu a figura do super-herói como modelo a ser seguido. Eu não acredito que atualmente, em um mundo pisado por Gandhi, Gene Sharp, Paul Watson, Nelson Mandela, Rainha Rania Al-Abdullah, Jane Goodall, Augusto Boal, Paulo Freire ou Franco Basaglia, possamos aidna considerar um mundo sem heróis e exemplos a serem seguidos. Mas eu reconheço que é raro que se tenha informações suficientes sobre a vida e a ação dessas pessoas para se inspirar, e que as histórias em quadrinhso são um meio muito potente de divulgação dessas condutas e valores, de forma bastante humana e sensível, e não meramente através de uma interpretação pelo materialismo histórico.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Por uma nova politização das Ciências da Computação

Desde o início da Teoria Crítica, a comunidade acadêmica toma consciência de que as nossas cosmovisões, os nossos interesses e os nossos empreendimento são enviesados em função do lugar que ocupamos na sociedade, em função de nossa classe social. Uma das críticas das teorias pós-modernas à teoria crítica é que faltou à anterior o reconhecimento de outros aspectos subjetivantes, que também determinam o nosso olhar e nossos interesses: gênero, religião, nacionalidade, tribo urbana e quaisquer outros mecanismos identitários. A moral da história é que todo empreendimento científico e intelectual é enviesado e atende aos interesses de determinada camada social, e a obrigação da comunidade intelectual então seria tomar consciência disso e direcionar seus esforçar para atender aos interesses dos mais necessitados, buscando a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e pacífica.
Essas teorias movimentam um número considerável de discussões sobre formação profissional, currículo, ética e mercado de trabalho - ainda que seja menos discussão do que deveria. Muitos cursos e profissões ainda são alienados quanto à sua própria ética, servindo a interesses não muito refletidos, como aos empreendimentos militares, o agronegócio, às corporações ou à religião, à moral e aos bons costumes. Um desses cursos é a futuro profissão de meu irmão - Ciências da Computação - que serve em grande parte aos interesses das corporações. Contudo, este curso tem um potencial subversivo muito grande, já expresso com a Educação para a Informática Popular, os desenvolvimento de Softwares Livres e OpenSource e até às discussões futuristas sobre Inteligência Artificial e distribuição de tecnologias. Mas ainda falta que os cientistas da computação tomem consciência do seu potencial subversivo, pois se poderia fazer muito mais. As Ciências da Computação ainda estão distantes das políticas públicas, o que é uma pena, pois teriam muito a contribuir e um novo mundo a ganhar.
É o envolvimento com as políticas públicas a nova politização das Ciências da Computação que quero advogar aqui. A articulação com o Estado, o envolvimento em projetos populares e o desenvolvimento de programas que combatam a desigualdade social ainda são poucos. A Informática Médica ainda é tímida. Os cientistas da computação aidna se focam demais no desenvolvimento de entretenimento, em função do mercado, e negligenciam áreas mais subversivas e inexploradas. Imagine o que aconteceria se as universidades do país criassem megaprojetos de desenvolvimento de logística e sistemas de informação para rastrear, identificar, combater e prevenir o tráfico humano ou de animais, ou desenvolver modelos matemáticos que contribuam com os programas de biologia da conservação? A distribuição de água, o saneamento básico, a proteção ambiental, a distribuição de alimentos, a prevenção de crimes, são todos ramos bastante deficitários não por falta de evidências, mas por falta de políticas públcias e sistemas rápidos, baratos e eficientes de combater as mazelas sociais, e as Ciências da Computação têm muito o que contribuir com tudo isso.
Esse tipo de mudança, ainda que me pareçam os ramos do futuro (o mercado logo ficará saturado e programadores de rede e de jogos), custará muito a acontecer. Não proque seja muito difícil intelectual ou tecnologicamente para realizar, mas sim por mera falta de comprometimento social. Claro, problemas sociais complexos são muito desafiadores e é necessário ter uma postura muito transdisciplinar - mas rachar a cabeça tentando resolver problemas difíceis é justamente o papel de acadêmicos e intelectuais. Mas os cursos de Ciência da COmputação, assim como muitos outros, não possuem um incentivo nem à politização nem à transdisciplinaridade, então fica difícil. Tem que aparecer alguum estudante e depois pesquisador mutio politizado desde cedo para forçar mudanças no currículo, pois se os atualmente professores não tiveram nenhum contato com ciências sociais, a sua omissão fará com qeu seus alunos também não tenham, mantendo o círculo vicioso. Por isso, precisamos aidna mais urgentemente de pessoas comprometidas para mudar a formação, trazendo a transdisciplinaridade e a articulação entre diferentes saberes para dentro de sala de aula, e depois para o trabalho.
sábado, 29 de novembro de 2008
Cultura japonesa e salve as baleias
Hoje ocorreu um festival em homenagem à cultura japonesa aqui em minha cidade, com banquinhas de yakissoba, mangás, katanas, adesivos de kanjis e outro ícones da cultura pop japonesa aqui no ocidente que todo mundo quer comprar. Inicialmente, eu não tinha muita clareza da natureza do evento, mas eu estava com uma enorme vontade de ir com uma camiseta escrito "Salvem as Baleias", num tom de crítica ácida, descontraída e debochada a uma das práticas japonesas mais repugnantes na atualidade, certamente a mais visível (ninguém sabe do suicídio dos jovens, da cultura pedófila, da erotização da violência, do culto ao militarismo e ao nacionalismo e da exploração do trabalho estrangeiro). O Japão, a Noruega e a Islândia, são os únicos países do mundo engajados na matança de baleias, embora tenham comprado votos de 34 colônias tardiamente emancipadas, quase equilibrando as decisões na Comissão Baleeira Internacional. Só pra se ter uma noção:
Contra caça: Argentina, Australia, Austria, Béligica, Brasil, Chile, Costa Rica, Croácia, Ciprus, Republica Tcheca, Equador, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Guatemala, Hungria, India, Irlanda, Israel, Itália, Luxemburgo, Mexico, Monaco, Holanda, Nova Zelandia, Panamá, Peru, Portugal, Romenia, San Marino, Republica Eslovenia, África do Sul, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido, Uruguai e Estados UNidos.
A favor da caça: Antigua e Barbuda, Benin, Camboja, Camarões, China, Congo, Costa do Marfim, Republica Dominicana, Eritrea, Gabão, Gambia, Guine-Bissau, Nova Guine, Islandia, Japão, Kiribati, Corea, Laos, Mali, Ilhas Marshal, Mauritania, MOngolia, Marrocos, Nauru, Noruega, Palau, Russia, St Kittis e Nevis, St Lucia, St Vicent e Grenadines, Senagal, Ilhas Salomão, Suriname, Tanzania, Togo e Tuvalu.

Isso é uma cretinice desgraçada por parte do governo japônes, impondo sua economia assassina e sua ideologia tradicionalista de exploração dos mares e acúmulo de riquezas, e isso passa pela cultura japonesa, porque lá eles apóiam isso e compram isso, assim como aqui no Brasil os cidadãos de bem compram armas e apóiam a execução de jovens pobres com histórico de conflito com a lei encarcerados (vulgo, bandidos). E isso tem que ficar claro. Nenhuma cultura é perfeita ou impecável, todas têm práticas morais muito questionáveis, e nós como cosmopolitas e multiculturalistas devemos ter isso bem claro. Devemos aceitar a diversidade e reconhecer a beleza de cada cultura, mas a violência não deve ser relativizada por causa da origem da ação, se é japonesa, brasileira ou boliviana. Eu gosto muito de mangá e de toda a sensibilidade envolvida com essa produção - e o mangá é o mais potente veículo difusor da cultura japonesa. Mas eu não vou aceitar tudo que vem do Japão como lindo, maravilhoso e sábio - se eles matam baleias, eu vou me colocar contra.
Assim, se eu tivesse uma camiseta dessas, eu teria ido muito feliz realizar a inha intervenção silenciosa no evento da homenagem à cultura japonesa. Possivelmente, passaria despercebido, pois nem todos estão antenados quanto a essas questões políticas. Quem ler, vai concordar e vai achar bonitinho. Quem entender, ou vai se conscientizar de que é necessário esse espírito crítico, que nem tudo que vem da cultura que a gente acha mágica é bom per se, ou vai se sentir muito incomodado pelo questionamento à sua cultura. Mas eu ficaria muito feliz de incomodar qualquer tradicionalista cabeça-oca que apoiasse a matança de baleias, e gostaria muito de ver a tentativa fracassada dele de me repreender e me questionar. Se a pessoa é intolerante a qualquer expressão silenciosa de uma posição política, e ainda apóia a matança de baleias, tem mais é que se sentir incomodado, e eu tenho o dever de por isso em evidência.
Só para terem uma idéia da perversidade e falaciosidade da indústria baleeira japonesa, aqui vai uma propaganda feita para o exterior sobre Anti-anti-whaling.
Contra caça: Argentina, Australia, Austria, Béligica, Brasil, Chile, Costa Rica, Croácia, Ciprus, Republica Tcheca, Equador, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Guatemala, Hungria, India, Irlanda, Israel, Itália, Luxemburgo, Mexico, Monaco, Holanda, Nova Zelandia, Panamá, Peru, Portugal, Romenia, San Marino, Republica Eslovenia, África do Sul, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido, Uruguai e Estados UNidos.
A favor da caça: Antigua e Barbuda, Benin, Camboja, Camarões, China, Congo, Costa do Marfim, Republica Dominicana, Eritrea, Gabão, Gambia, Guine-Bissau, Nova Guine, Islandia, Japão, Kiribati, Corea, Laos, Mali, Ilhas Marshal, Mauritania, MOngolia, Marrocos, Nauru, Noruega, Palau, Russia, St Kittis e Nevis, St Lucia, St Vicent e Grenadines, Senagal, Ilhas Salomão, Suriname, Tanzania, Togo e Tuvalu.

Isso é uma cretinice desgraçada por parte do governo japônes, impondo sua economia assassina e sua ideologia tradicionalista de exploração dos mares e acúmulo de riquezas, e isso passa pela cultura japonesa, porque lá eles apóiam isso e compram isso, assim como aqui no Brasil os cidadãos de bem compram armas e apóiam a execução de jovens pobres com histórico de conflito com a lei encarcerados (vulgo, bandidos). E isso tem que ficar claro. Nenhuma cultura é perfeita ou impecável, todas têm práticas morais muito questionáveis, e nós como cosmopolitas e multiculturalistas devemos ter isso bem claro. Devemos aceitar a diversidade e reconhecer a beleza de cada cultura, mas a violência não deve ser relativizada por causa da origem da ação, se é japonesa, brasileira ou boliviana. Eu gosto muito de mangá e de toda a sensibilidade envolvida com essa produção - e o mangá é o mais potente veículo difusor da cultura japonesa. Mas eu não vou aceitar tudo que vem do Japão como lindo, maravilhoso e sábio - se eles matam baleias, eu vou me colocar contra.
Assim, se eu tivesse uma camiseta dessas, eu teria ido muito feliz realizar a inha intervenção silenciosa no evento da homenagem à cultura japonesa. Possivelmente, passaria despercebido, pois nem todos estão antenados quanto a essas questões políticas. Quem ler, vai concordar e vai achar bonitinho. Quem entender, ou vai se conscientizar de que é necessário esse espírito crítico, que nem tudo que vem da cultura que a gente acha mágica é bom per se, ou vai se sentir muito incomodado pelo questionamento à sua cultura. Mas eu ficaria muito feliz de incomodar qualquer tradicionalista cabeça-oca que apoiasse a matança de baleias, e gostaria muito de ver a tentativa fracassada dele de me repreender e me questionar. Se a pessoa é intolerante a qualquer expressão silenciosa de uma posição política, e ainda apóia a matança de baleias, tem mais é que se sentir incomodado, e eu tenho o dever de por isso em evidência.
Só para terem uma idéia da perversidade e falaciosidade da indústria baleeira japonesa, aqui vai uma propaganda feita para o exterior sobre Anti-anti-whaling.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
O pobre choco e o tratamento da vida marinha
Eu deveria estar produzindo meus trabalhos da faculdade, mas algo me mobilizou demais e tenho que escrever a minha indignação. Eu estava alegremente pesquisando fotos sobre uma criatura marinha pela qual tenho muito apreço, o choco (cuttlefish, em inglês), quando me deparei com imagens desagradáveis e uma certa oposição muito visível mas não nomeada nas páginas do Google. Vou resumi-las apresentando as fotos mais representantes deste conflito:


O choco é conhecido como a espécie de invertebrado (veja bem, de invertebrado!) mais inteligente da Terra conhecida. São também conhecidos como os reis da camuflagem, por sua habilidade de ficar praticamente invisíveis. Sociáveis, capazes de formular armadilhas, de se comunicar trocando de cor e de nadar livremente pelos mares, são criaturas magníficas. Obviamente, não são os únicos animais marinhos brilhantes, mas são dos mais, e o mais importante: as pessaos não reconhecem isso. E essa ignorância dá margem para que idiotas pesquem, cortem, processem, empacotem, vendam, comprem e comam chocos, como se fossem batatas, em vez das criaturas brilhantes que são. O desrespeito pela riqueza cognitiva e comportamental da grande maioria dos animais da Terra é uma longa tradição entre os povos humanos, e isso fica ainda mais chocante comparando os dois universos: os dos conservacionistas, estudiosos e preocupados com a vida destes magníficos seres, e o dos capitalistas cretinos e insensíveis.
Esse quadro acaba de me mostrar como é importante informar sobre a riqueza da vida animal, e como um determinado conjunto de informações pode construir uma consciência e uma práxis muito mais harmônicas e respeitosas do que os preconceitos tacanhos dos nossos antepassados.
"We have intelligent species on our planet that we are not even trying to communicate with"
Paul Watson, http://br.youtube.com/watch?v=PnhqmF-RBu4


O choco é conhecido como a espécie de invertebrado (veja bem, de invertebrado!) mais inteligente da Terra conhecida. São também conhecidos como os reis da camuflagem, por sua habilidade de ficar praticamente invisíveis. Sociáveis, capazes de formular armadilhas, de se comunicar trocando de cor e de nadar livremente pelos mares, são criaturas magníficas. Obviamente, não são os únicos animais marinhos brilhantes, mas são dos mais, e o mais importante: as pessaos não reconhecem isso. E essa ignorância dá margem para que idiotas pesquem, cortem, processem, empacotem, vendam, comprem e comam chocos, como se fossem batatas, em vez das criaturas brilhantes que são. O desrespeito pela riqueza cognitiva e comportamental da grande maioria dos animais da Terra é uma longa tradição entre os povos humanos, e isso fica ainda mais chocante comparando os dois universos: os dos conservacionistas, estudiosos e preocupados com a vida destes magníficos seres, e o dos capitalistas cretinos e insensíveis.
Esse quadro acaba de me mostrar como é importante informar sobre a riqueza da vida animal, e como um determinado conjunto de informações pode construir uma consciência e uma práxis muito mais harmônicas e respeitosas do que os preconceitos tacanhos dos nossos antepassados.
"We have intelligent species on our planet that we are not even trying to communicate with"
Paul Watson, http://br.youtube.com/watch?v=PnhqmF-RBu4
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
O progresso é frio como uma navalha
Textinho publicado no jornal do Diretório Acadêmico de Psicologia da UFRGS de outubro/novembro/2008:
O progresso é frio como uma navalha
No dia oito de outubro de 2008, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, a Fundação Osvaldo Cruz e as Faculdades de Farmácia do país inteiro fizeram muita festa, regada a muitas risadas macabras e talvez até drogas que eles mesmos adoram desenvolver. Tudo isso pela aprovação de uma lei. Talvez eu esteja exagerando, e eles não tenham feito tanta festa assim: pra falar a verdade, a lei foi aprovada silenciosamente. E o silêncio maior foi aquele dos mais afetados pela lei: os animais nas universidades.
Esses animais que eu estou falando não são os que vão todos os dias para a sala de aula, e que se reúnem em vários pequenos grupos primatas para exercitar suas habilidades lingüísticas, mas os que não têm a mínima idéia do que raios que estão fazendo naquele gelado laboratório com o crânio aberto e uma sensação estranha produzida por alguma mágica droga sem o seu consentimento. A Lei Arouca (11794/08), que tramitava há dez anos no Senado, regulamenta nacionalmente a experimentação animal nas instituições de pesquisa e ensino, padronizando os comitês de ética e que tipo de experimentos com animais podem ser aprovados ou não. Na prática, isso quer dizer que quem trabalha com experimentação animal ganhou um baita respaldo jurídico, e que os animais criados em biotérios terão o mesmo destino no país inteiro, sem entraves. Tudo isso apenas com a pressão dos representantes da nossa classe de cientistas, sem o mínimo diálogo com a sociedade civil. De fato, apesar do que o Senador Cristovam Buarque respondeu no e-mail que mandei para ele, não houve diálogo com NENHUMA organização de defesa dos direitos dos animais (Veddas, PEA, Gato Negro, Tribuna Animal, GAE, InterNICHE). Foi simplesmente a SBPC sussurrando no ouvido dos doutos senadores. Uma decisão secreta e anti-democrática, o que faz muito sentido em uma nação que proíbe acadêmicos de discutirem sobre legalização da maconha e reprime pelas armas qualquer tipo de movimento social que clama por terra, liberdade ou dignidade. Mas como nós não somos patriotas, e temos um espírito crítico relativamente afiado, o fato de violência e falta de democracia serem fortes tradições em nosso país não justifica lhufas. Não são só adolescentes sentimentais que gostam de cachorrinhos que combatem a experimentação animal, situação que os “cientistas” alegam para dizer que quem tem que decidir sobre experimentação animal tem que ser os que estão informados, ou seja, “cientistas”. Coloco “cientistas” entre aspas porque não admito que a vontade desses idiotas sedentos por patentes farmacêuticas e linhas no currículo lattes e sem a mínima capacidade de reflexão epistemológica ou ética seja colocada como representando a classe da qual fazem parte gênios humanistas como Carl Sagan e biólogos revolucionários e proponentes do Great Ape Project, como Jane Goodall e Richard Dawkins, e muitos outros cientistas honrados que preferiram ir para áreas como agicultura, climatologia, energias limpas, ciências sociais, economia, biologia da conservação e (por que não?) psicologia, para contribuir para o progresso do conhecimento e da sociedade, em vez da torturar inocentes ratinhos e sustentar sujos biotérios. A audácia desses idiotas em se apresentarem como a voz de toda a classe dos cientistas faz com que acadêmicos e profissionais mais preocupados com saúde, educação e não-violência criem instituições que realmente os representam, como Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), Ethical Science and Education Coalition (ESEC), Humane Learning, Humane Society of the United States (HSUS), National Anti-Vivisection Society (NAVS), Novivisezione - No Vivisection, Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM) e, quem diria, Psychologists for the Ethical Treatment of Animals (PsyETA). O nó Ciência e Direitos dos Animais é bastante forte no hemisfério norte, como dá pra perceber. Lá a discussão transcende a ridícula dicotomia proteção animal x progresso das ciências da saúde, pois aparentemente os cientistas do hemisfério norte são mais criativos para imaginar métodos rigorosos de investigação que não explorem animais (os tais métodos alternativos), já que a discussão que importa é: queremos uma Ciência humanitária e não violenta ou não? O preocupante não é a tecnologia e o acúmulo de conhecimento (pelo menos enquanto não formos atacados por uma ditadura religiosa e obscurantista), pois essas coisas vão se desenvolver de qualquer jeito, matando ratinhos ou não. A questão é: que tipo de educação é essa que legitima a violência dentro da instituição máxima do saber? Que tipo de civilização a vanguarda do saber está construindo dessa forma? É isso que queremos que nossos jovens cientistas aprendam?
Agora, com essa nova lei, a ideologia do bem-estarismo e da experimentação animal será ainda mais forte, com todo um respaldo jurídico, acadêmico e midíatico, capando com uma navalha as tentativas legais de se defender a dignidade desses animaizinhos explorados e maltratados e assim vai morrendo até mesmo o espírito crítico e a reflexão filosófica da nossa tão capenga academia. Qualquer vestibulando que espera transgredir as fronteiras do pensamento ao entrar na universidade irá se deparar com professores acomodados cortando suas asas e dizendo que induzir um cão ao desamparo aprendido ou arrancar o coração de uma rã viva para ver a maravilha da noradrenalina agindo é ético porque é respaldado por lei, e porque todo mundo faz. O assassinato de inúmeros seres sencientes mata também a possibilidade de uma afiada formação filosófica para os cientistas. Essa sim é uma dicotomia na qual os dois lados não podem coexistir, e cada cientista vai ter que escolher o seu e decidir que tipo de progresso se quer.
Bruno Graebin de Farias, futuro cientista de verdade
O progresso é frio como uma navalha
No dia oito de outubro de 2008, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, a Fundação Osvaldo Cruz e as Faculdades de Farmácia do país inteiro fizeram muita festa, regada a muitas risadas macabras e talvez até drogas que eles mesmos adoram desenvolver. Tudo isso pela aprovação de uma lei. Talvez eu esteja exagerando, e eles não tenham feito tanta festa assim: pra falar a verdade, a lei foi aprovada silenciosamente. E o silêncio maior foi aquele dos mais afetados pela lei: os animais nas universidades.
Esses animais que eu estou falando não são os que vão todos os dias para a sala de aula, e que se reúnem em vários pequenos grupos primatas para exercitar suas habilidades lingüísticas, mas os que não têm a mínima idéia do que raios que estão fazendo naquele gelado laboratório com o crânio aberto e uma sensação estranha produzida por alguma mágica droga sem o seu consentimento. A Lei Arouca (11794/08), que tramitava há dez anos no Senado, regulamenta nacionalmente a experimentação animal nas instituições de pesquisa e ensino, padronizando os comitês de ética e que tipo de experimentos com animais podem ser aprovados ou não. Na prática, isso quer dizer que quem trabalha com experimentação animal ganhou um baita respaldo jurídico, e que os animais criados em biotérios terão o mesmo destino no país inteiro, sem entraves. Tudo isso apenas com a pressão dos representantes da nossa classe de cientistas, sem o mínimo diálogo com a sociedade civil. De fato, apesar do que o Senador Cristovam Buarque respondeu no e-mail que mandei para ele, não houve diálogo com NENHUMA organização de defesa dos direitos dos animais (Veddas, PEA, Gato Negro, Tribuna Animal, GAE, InterNICHE). Foi simplesmente a SBPC sussurrando no ouvido dos doutos senadores. Uma decisão secreta e anti-democrática, o que faz muito sentido em uma nação que proíbe acadêmicos de discutirem sobre legalização da maconha e reprime pelas armas qualquer tipo de movimento social que clama por terra, liberdade ou dignidade. Mas como nós não somos patriotas, e temos um espírito crítico relativamente afiado, o fato de violência e falta de democracia serem fortes tradições em nosso país não justifica lhufas. Não são só adolescentes sentimentais que gostam de cachorrinhos que combatem a experimentação animal, situação que os “cientistas” alegam para dizer que quem tem que decidir sobre experimentação animal tem que ser os que estão informados, ou seja, “cientistas”. Coloco “cientistas” entre aspas porque não admito que a vontade desses idiotas sedentos por patentes farmacêuticas e linhas no currículo lattes e sem a mínima capacidade de reflexão epistemológica ou ética seja colocada como representando a classe da qual fazem parte gênios humanistas como Carl Sagan e biólogos revolucionários e proponentes do Great Ape Project, como Jane Goodall e Richard Dawkins, e muitos outros cientistas honrados que preferiram ir para áreas como agicultura, climatologia, energias limpas, ciências sociais, economia, biologia da conservação e (por que não?) psicologia, para contribuir para o progresso do conhecimento e da sociedade, em vez da torturar inocentes ratinhos e sustentar sujos biotérios. A audácia desses idiotas em se apresentarem como a voz de toda a classe dos cientistas faz com que acadêmicos e profissionais mais preocupados com saúde, educação e não-violência criem instituições que realmente os representam, como Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), Ethical Science and Education Coalition (ESEC), Humane Learning, Humane Society of the United States (HSUS), National Anti-Vivisection Society (NAVS), Novivisezione - No Vivisection, Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM) e, quem diria, Psychologists for the Ethical Treatment of Animals (PsyETA). O nó Ciência e Direitos dos Animais é bastante forte no hemisfério norte, como dá pra perceber. Lá a discussão transcende a ridícula dicotomia proteção animal x progresso das ciências da saúde, pois aparentemente os cientistas do hemisfério norte são mais criativos para imaginar métodos rigorosos de investigação que não explorem animais (os tais métodos alternativos), já que a discussão que importa é: queremos uma Ciência humanitária e não violenta ou não? O preocupante não é a tecnologia e o acúmulo de conhecimento (pelo menos enquanto não formos atacados por uma ditadura religiosa e obscurantista), pois essas coisas vão se desenvolver de qualquer jeito, matando ratinhos ou não. A questão é: que tipo de educação é essa que legitima a violência dentro da instituição máxima do saber? Que tipo de civilização a vanguarda do saber está construindo dessa forma? É isso que queremos que nossos jovens cientistas aprendam?
Agora, com essa nova lei, a ideologia do bem-estarismo e da experimentação animal será ainda mais forte, com todo um respaldo jurídico, acadêmico e midíatico, capando com uma navalha as tentativas legais de se defender a dignidade desses animaizinhos explorados e maltratados e assim vai morrendo até mesmo o espírito crítico e a reflexão filosófica da nossa tão capenga academia. Qualquer vestibulando que espera transgredir as fronteiras do pensamento ao entrar na universidade irá se deparar com professores acomodados cortando suas asas e dizendo que induzir um cão ao desamparo aprendido ou arrancar o coração de uma rã viva para ver a maravilha da noradrenalina agindo é ético porque é respaldado por lei, e porque todo mundo faz. O assassinato de inúmeros seres sencientes mata também a possibilidade de uma afiada formação filosófica para os cientistas. Essa sim é uma dicotomia na qual os dois lados não podem coexistir, e cada cientista vai ter que escolher o seu e decidir que tipo de progresso se quer.
Bruno Graebin de Farias, futuro cientista de verdade
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
School's Out: autodidatismo e filosofia da educação
Well, we got no choice
All the girls and boys
Makin' all that noise
'Cause they found new toys
Well, we can't salute ya
Can't find a flag
If that don't suit ya
That's a drag
School's out for summer
School's out forever
School's been blown to pieces
No more pencils
No more books
No more teacher's dirty looks
Well, we got no class
And we got no principles
And we got no innocence
We can't even think of a word that rhymes
School's out for summer
School's out forever
School's been blown to pieces
No more pencils
No more books
No more teacher's dirty looks
Out for summer
Until fall
We might not go back at all
School's out forever
School's out for summer
School's out with fever
School's out completely
All the girls and boys
Makin' all that noise
'Cause they found new toys
Well, we can't salute ya
Can't find a flag
If that don't suit ya
That's a drag
School's out for summer
School's out forever
School's been blown to pieces
No more pencils
No more books
No more teacher's dirty looks
Well, we got no class
And we got no principles
And we got no innocence
We can't even think of a word that rhymes
School's out for summer
School's out forever
School's been blown to pieces
No more pencils
No more books
No more teacher's dirty looks
Out for summer
Until fall
We might not go back at all
School's out forever
School's out for summer
School's out with fever
School's out completely
Ultimamente eu ando pensando bastante em educação. Na verdade, eu tive um semestre inteiro de Psicologia Escolar e trabalho há dois anos em uma pesquisa sobre aprendizagem em sala de aula. E agora eu estou de férias, o que me faz pensar o quão importante é a faculdade para o meu aprendizado, e a conclusão que eu cheguei é: muito pouco.
Deixa eu explicar melhor. Não é que eu tenha alguma dificuldade para aprender, ou que os professores sejam extremamente incompetentes, ou que o material oferecido seja fraco. Muito pelo contrário, o material oferecido pela universidade é algo fantástico. É justamente por isso que as aulas contribuem muito pouco. Os livros, polígrafos e a internet oferecem todo o material necessário, e as discussões com os colegas superam muitas das aulas em construção do conhecimento.
Por que isso?
Durante toda a minha vida, e ainda mais acentuadamente na faculdade, sempre apresentei traços de autodidatismo. Estudava matérias por iniciativa própria, de assuntos que me interesassem, e acabva por dominar bem esses assuntos. Ainda mais na faculdade, na qual nós somos praticamente coagidos a sermos autodidatas a fim de darmos conta do conheciemnto necessário para se tornar um bom profissional, o que exige cada vez mais com o aumento da competição. O que significa que cada um direciona o seu estudo como preferir, com seus próprios métodos e no ritmo e intensidade que quiser. Tanto é que a faculdade, muitas vezes, não cobra sequer a presença em aula, incentivando o auto-direcionamento do aprendizado, o que é bem diferente do que acontece na escola. E o conhecimento qeu adquirimos na faculdade é muito superior ao que nos ensinam no colégio.
Como autodidatismo eu não quero dizer que é alguém que não necessita de professores, pois isso faz parecer que o autodidatismo é um dom ou privilégio dos mais brilhantes. Autodidatismo é ser senhor de seu próprio aprendizado, como eu disse, determinando o conteúdo, o método, o horário e o ritmo do seu estudo.
Esse processo se opõe à toda a nossa educação vigente, centrada em torno do professor detentor do saber e do poder político, hierarquizada, com matérias, métodos e ritmos impostos por um currículo determinado para toda a nação, do tipo "one size fits all", com conteúdo alienados entre eles, sem nenhuma integração, e alienados também das realidades de interesses de cada indivíduo, que jamais poderiam ser conciliada com uma educação hierarquizada, generalizada e obrigatória. Essa crítica ao currículo também é feita pelos autores pós-modernos, mas, diferentemente deles, eu não me oponho às disciplinas científicas encaixotadinhas através de um armazenamento sistemático do conhecimento. Isso pra mim tá legal desse jeito, bem organizado e epistemologicamente claro, o meu problema é com a escolha arbitrária dessas disciplinas que é imposta na escola.
O ensino centrado no aluno, de bases construtivistas, com toda a sua mítica de educação progressista também não me parece o ideal. Não é o ideal pois a instituição escola, com toda a sau hierarquia e divisão do tempo e do espaço continua, e essa tentativa de fazer o aluno buscar dentro de si uma resposta para um problema que não foi ele que inventou expõe o aluno e gera constrangimento. Tambéz estimula uma valorização do senso-comum que não considero muito positiva, pois pode tornar o conhecimento inerte e inibir a busca da verdade ou de visões contrárias à sua. Também continua, da mesma forma, tentando fazer todos aprenderem aquelas mesmas coisas, embora com um método diferente, e ainda se torna mais problemático o problema da avaliação, de como se certificar de que o aluno realmente aprendeu algo se ele aprendia o que lhe interessasse dentro de um currículo imposto e sendo forçado a ir a escola.
Outros problemas institucionais da escola, muito bem expostos no Vigiar e Punir, do Michel Foucault, também seriam resolvidos com uma educação autodidática. Cada indivíduo é diferente, tem ritmos biológicos diferentes, de fome, sono, desejo sexual, curiosidade, e impor um mesmo tempo para todos, como "o horário do aprendizado", não é muito produtivo. Muitos alunso não estão dispostos a aprender nesse momento as coisas que lhes ensinam, e preferiam estar fazendo outras coisas. O que leva eles a não aprenderem, ou, ainda pior, nunca pensarem que eles têm vontade de aprender, pois aprendizado se torna iguala ensino escolar. Essa racionalização que entorpece a curiosidade é muito prejudicial, emocionalmente e cognitivamente.
A avaliação também gera muita frustração, detona com a auto-estima dos indivíduos, faz eles odiarem o que a instituição escolar representa, e desperdiça um tempo que poderia estar sendo usado para cada um estudar o que gosta e se aprimorar no que gosta. Ela se mantéem com o discurso ideológico de que é precisa se certificar que o indivíduo está qualificado, ams como Foucault descreveu, ela é na verdade um instrumento de controle que coage o indivíduo a obedecer ao que lhe é impsoto, no caso, o currículo. Numa educação autodidática, o interesse do indivíduo faria com que ele se aprofundasse cada vez mais no assunto, ou em outros, e o fato de ser uma educação auto-determinada, o indivíduo se apropriaria completamente do que ele próprio escolheu aprender.
Ninguém deve desperdiçar o seu potencial fazendo e estudando coisas que não quer, e isso é evitado com uam educação autodidática. Claro, também seria possível explorar essas potencialidades se existissem infinitos escâneres de talentos e interesses e treinadores paropriados à disposição. Mas o autodidatismo é mais prático e evita eventuais problemas de uma instrução autoritária.
Isso não significa também que isso seja uma educação "cada um por si", na qual ninguém teria ajuda para aprender por medo de ter que extrair conhecimento de alguém que sabe mais de alguma coisa. Pelo contrário, como é uma educação determinado pelo próprio interesse do indivíduo, ele pode querer buscar alguém para lhe ensinar alguma técnica ou teoria. Se não pudesse, sequer seria possível se reunir com amigos, pois acabriam surgindo assuntos que interessam e todos acabariam aprendendo alguma coisa nova. Chamarei este aspecto da educação na qual existem mais pessoas evolvidas de ágora, para significar que é um espaço aberto ao aprendizado, à crítica e à discussão na qual cada indivíduo tem a sua própria carga de conhecimento e questionamentos e há uma livre troca destes. Evidentemente que surgirão muitos especialistas em muitos assuntos nos quais se dedicaram, mas eles serão uma autoridade apenas do ponto de vista da sabedoria, e não autoridades políticas. Isso possibilita também que as pessoas se reúnam espontaneamente em volta de uma única pessoa mais sábia e que ela discurse por um longo período, mantendo a liberdade de que o público se manifeste e questione, sem que se crie um sistema hierarquizado de transmissão do conhecimento, pois cada um aproveitará da 'palestra' o que lhe convém.
Importante diferenciar também o autodidatismo da educação em casa (homeschooling), que está muito envolvida com a ideologia dos valores da família e da religião, e inibe muito da interação e do conhecimento de diversos pontos de vista, o que é evitado se a educação parte do interesse do indivíduo.
Mas é muito importante, para o autodidatismo, que as pessoas não sejam jogadas de qualquer jeito ou fiquem confinadas em casa. Deve, na realidade, oferecer um ambiente muito rico e variado e a possibilidade de muita interação social para todos, a fim de que se tenham iguais oportunidades e cada um possa explorar livremente seus interesse e potenciais e se aprofundar no que quiser. Isso também faz com que depois as pessoas se tornem profissionais muito mais qualificados e interessados, habilitados no que eles se dedicam.
Para implantar uma educação assim em toda a soceidade nos depararíamos com alguns problemas práticas, como o oferecimento de um ambiente adequado ao aprendizado para as camadas mais pobres e o que fazer com todos os professores de escola, se a proposta é prescindir da escola. Isso cai em questões de economia, que eu não tenho tanto domínio assim. Mas imagino que seria preciso disponibilizar bibliotecas públcias boas e seguras, ginásios de esporte e academais de artes por toda a cidade, e livros variados e computadores para famílais mais pobres, num primeiro momento. Só qeu a proposta final é que TODOS tenham um ambiente rico e diversificado, e já que temos um Estado, que ele faça isso.
Quanto aos professores, dissolvendo a escola e libertando-os do currículo, seria possível transformá-los em pesquisadores e estudiosos do que eles quiserem, pois eles certamente não tinham um interesse por todo o currículo do MEC e por todos os alunos sem dedicação. Assim eles ganham bolsas de pesquisa e formam grupos de estudos abertos a indivíduos de todas as idades itneressados nas mesmas coisas (o problema do salário é o mais difícil de resolver sempre, tanto é que eu que sou contra a existência de um Estado estou sugerindo uma economia baseada no Estado, de tão difícil que é pensar sobre isso).
Muitos argumentam a favor da escola dizendo que ela é também um espaço de convívio social diversificado, mas na verdade as escolas costumam ser ocupadas por um determinada classe social e permanece a ideologia dominante. Além disso, é um ambiente competitivo, estressor, excludente, cheio de gente fútil e violência entre pares, que pune muitos comportamentos e desvaloriza os talentos das pessoas. Eu fiz muitos amigos maravilhosos na escola, mas também passei por muitos péssimos momentos, e imagino que se não existisse a escola teríamos nos conhecido num grupo de estudos, num show, num parque, pois tmeos interesses em comum e essa cidade é uma ervilha.
Critiquem à vontade, e quem quiser pesquise sobre benefícios do autodidatismo, que tem já achados consideráveis de seus benefícios.
http://en.wikipedia.org/wiki/Unschooling
http://en.wikipedia.org/wiki/Autodidactism
We dont need no education.
We dont need no thought control.
No dark sarcasm in the classroom.
Teacher, leave those kids alone.
Hey, teacher, leave those kids alone!
All in all its just another brick in the wall.
All in all youre just another brick in the wall.
"I have never let my schooling interfere with my education."
Mark Twain
domingo, 9 de dezembro de 2007
10 razões da Psicologia contra a redução da maioridade penal
Conheça as 10 razões da Psicologia contra a redução da maioridade penal:
1. A adolescência é uma das fases do desenvolvimento dos indivíduos e, por ser um período de grandes transformações, deve ser pensada pela perspectiva educativa. O desafio da sociedade é educar seus jovens, permitindo um desenvolvimento adequado tanto do ponto de vista emocional e social quanto físico;
2. É urgente garantir o tempo social de infância e juventude, com escola de qualidade, visando condições aos jovens para o exercício e vivência de cidadania, que permitirão a construção dos papéis sociais para a constituição da própria sociedade;
3. A adolescência é momento de passagem da infância para a vida adulta. A inserção do jovem no mundo adulto prevê, em nossa sociedade, ações que assegurem este ingresso, de modo a oferecer – lhe as condições sociais e legais, bem como as capacidades educacionais e emocionais necessárias. É preciso garantir essas condições para todos os adolescentes;
4. A adolescência é momento importante na construção de um projeto de vida adulta. Toda atuação da sociedade voltada para esta fase deve ser guiada pela perspectiva de orientação. Um projeto de vida não se constrói com segregação e, sim, pela orientação escolar e profissional ao longo da vida no sistema de educação e trabalho;
5. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) propõe responsabilização do adolescente que comete ato infracional com aplicação de medidas socioeducativas. O ECA não propõe impunidade. É adequado, do ponto de vista da Psicologia, uma sociedade buscar corrigir a conduta dos seus cidadãos a partir de uma perspectiva educacional, principalmente em se tratando de adolescentes;
6. O critério de fixação da maioridade penal é social, cultural e político, sendo expressão da forma como uma sociedade lida com os conflitos e questões que caracterizam a juventude; implica a eleição de uma lógica que pode ser repressiva ou educativa. Os psicólogos sabem que a repressão não é uma forma adequada de conduta para a constituição de sujeitos sadios. Reduzir a idade penal reduz a igualdade social e não a violência - ameaça, não previne, e punição não corrige;
7. As decisões da sociedade, em todos os âmbitos, não devem jamais desviar a atenção, daqueles que nela vivem, das causas reais de seus problemas. Uma das causas da violência está na imensa desigualdade social e, conseqüentemente, nas péssimas condições de vida a que estão submetidos alguns cidadãos. O debate sobre a redução da maioridade penal é um recorte dos problemas sociais brasileiros que reduz e simplifica a questão;
8. A violência não é solucionada pela culpabilização e pela punição, antes pela ação nas instâncias psíquicas, sociais, políticas e econômicas que a produzem. Agir punindo e sem se preocupar em revelar os mecanismos produtores e mantenedores de violência tem como um de seus efeitos principais aumentar a violência;
9. Reduzir a maioridade penal é tratar o efeito, não a causa. É encarcerar mais cedo a população pobre jovem, apostando que ela não tem outro destino ou possibilidade;
10. Reduzir a maioridade penal isenta o Estado do compromisso com a construção de políticas educativas e de atenção para com a juventude. Nossa posição é de reforço a políticas públicas que tenham uma adolescência sadia como meta.
www.pol.org
1. A adolescência é uma das fases do desenvolvimento dos indivíduos e, por ser um período de grandes transformações, deve ser pensada pela perspectiva educativa. O desafio da sociedade é educar seus jovens, permitindo um desenvolvimento adequado tanto do ponto de vista emocional e social quanto físico;
2. É urgente garantir o tempo social de infância e juventude, com escola de qualidade, visando condições aos jovens para o exercício e vivência de cidadania, que permitirão a construção dos papéis sociais para a constituição da própria sociedade;
3. A adolescência é momento de passagem da infância para a vida adulta. A inserção do jovem no mundo adulto prevê, em nossa sociedade, ações que assegurem este ingresso, de modo a oferecer – lhe as condições sociais e legais, bem como as capacidades educacionais e emocionais necessárias. É preciso garantir essas condições para todos os adolescentes;
4. A adolescência é momento importante na construção de um projeto de vida adulta. Toda atuação da sociedade voltada para esta fase deve ser guiada pela perspectiva de orientação. Um projeto de vida não se constrói com segregação e, sim, pela orientação escolar e profissional ao longo da vida no sistema de educação e trabalho;
5. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) propõe responsabilização do adolescente que comete ato infracional com aplicação de medidas socioeducativas. O ECA não propõe impunidade. É adequado, do ponto de vista da Psicologia, uma sociedade buscar corrigir a conduta dos seus cidadãos a partir de uma perspectiva educacional, principalmente em se tratando de adolescentes;
6. O critério de fixação da maioridade penal é social, cultural e político, sendo expressão da forma como uma sociedade lida com os conflitos e questões que caracterizam a juventude; implica a eleição de uma lógica que pode ser repressiva ou educativa. Os psicólogos sabem que a repressão não é uma forma adequada de conduta para a constituição de sujeitos sadios. Reduzir a idade penal reduz a igualdade social e não a violência - ameaça, não previne, e punição não corrige;
7. As decisões da sociedade, em todos os âmbitos, não devem jamais desviar a atenção, daqueles que nela vivem, das causas reais de seus problemas. Uma das causas da violência está na imensa desigualdade social e, conseqüentemente, nas péssimas condições de vida a que estão submetidos alguns cidadãos. O debate sobre a redução da maioridade penal é um recorte dos problemas sociais brasileiros que reduz e simplifica a questão;
8. A violência não é solucionada pela culpabilização e pela punição, antes pela ação nas instâncias psíquicas, sociais, políticas e econômicas que a produzem. Agir punindo e sem se preocupar em revelar os mecanismos produtores e mantenedores de violência tem como um de seus efeitos principais aumentar a violência;
9. Reduzir a maioridade penal é tratar o efeito, não a causa. É encarcerar mais cedo a população pobre jovem, apostando que ela não tem outro destino ou possibilidade;
10. Reduzir a maioridade penal isenta o Estado do compromisso com a construção de políticas educativas e de atenção para com a juventude. Nossa posição é de reforço a políticas públicas que tenham uma adolescência sadia como meta.
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