quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Por uma nova politização das Ciências da Computação


Desde o início da Teoria Crítica, a comunidade acadêmica toma consciência de que as nossas cosmovisões, os nossos interesses e os nossos empreendimento são enviesados em função do lugar que ocupamos na sociedade, em função de nossa classe social. Uma das críticas das teorias pós-modernas à teoria crítica é que faltou à anterior o reconhecimento de outros aspectos subjetivantes, que também determinam o nosso olhar e nossos interesses: gênero, religião, nacionalidade, tribo urbana e quaisquer outros mecanismos identitários. A moral da história é que todo empreendimento científico e intelectual é enviesado e atende aos interesses de determinada camada social, e a obrigação da comunidade intelectual então seria tomar consciência disso e direcionar seus esforçar para atender aos interesses dos mais necessitados, buscando a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e pacífica.
Essas teorias movimentam um número considerável de discussões sobre formação profissional, currículo, ética e mercado de trabalho - ainda que seja menos discussão do que deveria. Muitos cursos e profissões ainda são alienados quanto à sua própria ética, servindo a interesses não muito refletidos, como aos empreendimentos militares, o agronegócio, às corporações ou à religião, à moral e aos bons costumes. Um desses cursos é a futuro profissão de meu irmão - Ciências da Computação - que serve em grande parte aos interesses das corporações. Contudo, este curso tem um potencial subversivo muito grande, já expresso com a Educação para a Informática Popular, os desenvolvimento de Softwares Livres e OpenSource e até às discussões futuristas sobre Inteligência Artificial e distribuição de tecnologias. Mas ainda falta que os cientistas da computação tomem consciência do seu potencial subversivo, pois se poderia fazer muito mais. As Ciências da Computação ainda estão distantes das políticas públicas, o que é uma pena, pois teriam muito a contribuir e um novo mundo a ganhar.
É o envolvimento com as políticas públicas a nova politização das Ciências da Computação que quero advogar aqui. A articulação com o Estado, o envolvimento em projetos populares e o desenvolvimento de programas que combatam a desigualdade social ainda são poucos. A Informática Médica ainda é tímida. Os cientistas da computação aidna se focam demais no desenvolvimento de entretenimento, em função do mercado, e negligenciam áreas mais subversivas e inexploradas. Imagine o que aconteceria se as universidades do país criassem megaprojetos de desenvolvimento de logística e sistemas de informação para rastrear, identificar, combater e prevenir o tráfico humano ou de animais, ou desenvolver modelos matemáticos que contribuam com os programas de biologia da conservação? A distribuição de água, o saneamento básico, a proteção ambiental, a distribuição de alimentos, a prevenção de crimes, são todos ramos bastante deficitários não por falta de evidências, mas por falta de políticas públcias e sistemas rápidos, baratos e eficientes de combater as mazelas sociais, e as Ciências da Computação têm muito o que contribuir com tudo isso.
Esse tipo de mudança, ainda que me pareçam os ramos do futuro (o mercado logo ficará saturado e programadores de rede e de jogos), custará muito a acontecer. Não proque seja muito difícil intelectual ou tecnologicamente para realizar, mas sim por mera falta de comprometimento social. Claro, problemas sociais complexos são muito desafiadores e é necessário ter uma postura muito transdisciplinar - mas rachar a cabeça tentando resolver problemas difíceis é justamente o papel de acadêmicos e intelectuais. Mas os cursos de Ciência da COmputação, assim como muitos outros, não possuem um incentivo nem à politização nem à transdisciplinaridade, então fica difícil. Tem que aparecer alguum estudante e depois pesquisador mutio politizado desde cedo para forçar mudanças no currículo, pois se os atualmente professores não tiveram nenhum contato com ciências sociais, a sua omissão fará com qeu seus alunos também não tenham, mantendo o círculo vicioso. Por isso, precisamos aidna mais urgentemente de pessoas comprometidas para mudar a formação, trazendo a transdisciplinaridade e a articulação entre diferentes saberes para dentro de sala de aula, e depois para o trabalho.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O grande erro do movimento ambientalista

Todo jovem ambicioso e sonhador quer enfrentar o mal. Ao longo dos anos que se passam, as pessoas seguem um dos dois caminhos: ou se acomodam e preferem cuidar so do malzinho interior, ou se tornam ainda mais sofisticados e afiados em seu arsenal conceitual e seus objetivos, desenvolvendo então meios de combater o mal. Adquirimos a noção de que a concepção que se tem de 'mal' é exageradamente simplista e maniqueísta, e mutias vezes encarnada em alguma pessoa, ou então cai para o outro extremo, estupidamente abstrata. Mas o mal se configura nas condições concretas da existência dos indivíduos, e vai se alastrando até onde suas conseqüência podem alcançar. Este mal pode aparecer de diversas formas: exclusão do mercado de trabalho, violência doméstica, exploração ambiental, falta de assistência às necessidades básicas, sistema legal injusto, xenofobia, corrida armamentista e hostilidade e opressão de todas as formas.
O crime normalmente é retratado como uma das expressões do mal, das que mais recebe a atenção das pessoas. Contra este, as sociedades modernas utilizam de uma gama de mecanismos legais e de aplicação da lei, como armas, policias, promotores e juízes. Mas nem todos os crimes são abordados pela mão forte do Estado - talvez porque o Estado seja ineficiente em sua logística, ou talvez esteja focado demais em punir crimes supérfluos como o comércio de drogas recreativas, ou talvez seja simplesmente impossível que o Estado esteja em todos os lugares.
Um desses crimes que o Estado não está dando muita conta no nosso país, e que com certeza deveria, é a extração ilegal de madeira das belas e essenciais florestas. Como uma amiga perspicazmente apontou, é tão difícil combater a indústria madeireira, que normalmente vão uns poucos ambientalistas tentar proteger algumas árvores lá nos cafundó de um matagal sem a mínima perspectiva de uma interveção do Estado, seja por saúde, educação, direitos trabalhsitas ou proteção ambiental, que no final acabam sendo assassinados pela truculência do operários à margem da lei portadoes de motosserras.

Visto este grave problema enfrentado pela falta de qualquer legalidade ou serviços de assistência em um terreno marginal como esse, acredito qeu o movimento ambientalista precisa traçar novas estratégias, mais eficientes para a nova configuração do mal que se apresenta, que é diferente da ameaça ambiental dos anos 70, capaz de se combater com uma câmera de vídeo e um protesto pacífico com cartazes e abraços às arvores. Seguindo os princípios da Política Prefigurativa, de que os valores dos nossos meios devem ser coerentes com os valores da sociedade que queremos construir, a abordagem não-violenta deve continuar. Para isso, precisamos de planejamento, pois não-violência trata-se usar a cabeça, e traçar estratégias eficientes para ter uma sociedade bonita, justa e saudável.
Visto tudo isso, a abordagem mais poderosa e far-seeing concebível é a intervenção na própria economia, inserindo esses trabalhadores em uma rede melhor de serviços - porque é óbvio que eles trabalham destruindo florestas porque é a única perspectiva deles, se pudessem fazer algo mais legal e rentável, fariam.
Mas é possível pensar em aplicar a lei bloqueando fisicamente a ação das madeireiras - mas dessa vez com segurança. O maior erro do movimento ambientalista foi nunca ter utilizado veículos blindados. Imagina o Greenpeace, com dois Panzerkampfwagen velhos doados pelo Exército, sem canhão e pintados de arco-íris e outras cores da paz, bloqueando as motosserras? Eles podiam aproveitar também e ter um caminhão de bombeiros blindado e colorido que tenha uma mangueira de água pra danificar a aparelhagem inimiga e um estoque gigante de seed bombs, para já utilizá-las para reflorestar a região atacada. Esses veículos poderiam, ainda por cima, ser ecologicamente corretos. E a ausência de armas impediria qualquer escalagem da violência, que seria péssima para a indústria e só atrairia a atenção internacional.
Para derrotar o mal, é preciso ser criativo. Precisamos ser enérgicos, cativantes e bem-humorados. Fica a dica.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O tempo do sujeito e o tempo da história

Tenho pensado muito sobre o futuro. Na verdade, eu passo todo o tempo em que minhas mãos estão amarradas ou minhas pernas cansadas pensando sobre o futuro, tamanha a importância que dou a esta atividade. É importante esse exercécio de prever o futuro, de como será o mundo daqui a 10, 20, 50 anos, e qual o nosso papel nisso tudo. E é nisso que eu penso - de que forma eu estarei contribuindo para a cosntrução de um futuro melhor, resolvendo os grandes problemas existentes e expressando as forças da História em favor de uma sociedade justa, pacífica e sustentável.
Esse exerc´cio de previsão do futuro é muito produtivo, pois, além de brincar com a nossa prazorsa imaginação, também funciona para identificar grandes problemas da humanidade e o que deve ser feito - mais precisamente o que devemos fazer, o que nos preenche de responsabilidade e sentido para a vida. Surpreendentemente para mim, a maioria das pessoas não se ocupa e mesmo não gosta e não consegue pensar sobre o futuro, nem mesmo o futuro próximo - o que cursar, onde estagiar, o que fazer depois da formatura, casar ou comprar bicicleta - e isso me parece preocupante. Mas vou deixar a preocupação de lado. Aqui pretendo teorizar sobre o porquê dessa diferença entre as pessoas.
Se as pessoas não conseguem pensar o que farão no futuro, não pensam também o que as suas ações atuais estão causando no futuro para a sociedade como um todo - ou seja, não se identificam como os atores da História. Mas, todos sabem que a História segue o seu fluxo. O que me parece é que o fluxo temporal da História é diferente do fluxo temporal dos sujeitos. Para uma pessoa, um ano é um tempo de trabalho, estudo, e lazer, com váriso filmes assitidos e muitas festas aproveitadas. Para a História, em um ano governos mudam, guerras política acontecem, conflitos armados se iniciam e acordos comerciais que exploram a população local são postos em ação. Para as pessoas parece que a História se movimenta sem elas, através de algum motor desconhecido e superpoderoso.
O que eu quero é mudar essa relação. As pessoas tem que se responsabilizarem pela História, e entender que estão construindo a sociedade do futuro, e é bom pensar sobre isso e pôr a mão na massa, senão ela será construído por qualquer idiota enquanto elas estão curtindo a sua festa semanal ou assistindo a novela diária. Eu estarei vivo e economicamente ativo em 2050, quando o estoque de peixes no oceano entrar em colapso, a população humana for de 9 bilhões, a região amazônica se tornar savana e a temperatura média da terra terá crescido os tais 5ºC, e a consciência disso me obriga a agir agora para fazer um mundo melhor do que o que acabei de prever. Então eu preciso fazer mais do que ir a festas, ver filems cult, obter meu mestrado, arranjar uma linha de pesquisa em qualquer coisa e apresentar trabalhinhos em congressos - preciso agir, da forma mais megalomaníaca possível. Não é todo mundo qeu pensa sobre o futuro, então quem pensa vai ter que fazer tudo mesmo. Chega da aparente modéstia do fluxo temporal do sujeito, eu quero é concretizar grandiosas necessidades históricas. Quero que ainda existam ursos polares no Ártico em 2050, e me esforçarei para isso, de uma forma ou de outra.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

04/02/2009
Governos desconhecem estado de saúde mental de presidiários
Pesquisador alemão investigou dados de 24 países europeus e, embora nenhum deles dispusesse de dados confiáveis sobre a saúde mental dos detentos em nível nacional, identificou que há superlotação e altas taxas de suicídio, que chegam a ser dezenas de vezes mais altas que a média na população em geral.

Dublin (Irlanda) – Em todo mundo, mais de 9,25 milhões de pessoas estão, atualmente, em alguma instituição penal – e tudo indica que este número está crescendo rapidamente: somente nos últimos 18 meses, houve um acréscimo de 250 mil pessoas encarceradas. Uma grave questão pouco debatida, nesse contexto, é a saúde mental dos detentos – tanto dos que entram, quanto dos que saem. Além dos problemas existentes nas próprias estruturas de atendimento psiquiátrico a esse grupo de pacientes, não há registro de que algum país do mundo – desenvolvido ou não – disponha sequer de dados confiáveis, em nível nacional, sobre o estado de saúde mental dos presos ou sobre o cuidado prestado àqueles com algum tipo de transtorno. Isto é o que mostra estudo alemão sobre a organização e o atendimento psiquiátrico do sistema prisional europeu com base em resultados de outros estudos, dados pontuais coletados e nas observações de ao menos um especialista de cada país analisado.

Na opinião do autor do estudo, Hans Joachim Salize, do instituto central de saúde mental, em Mannheim (Alemanha), o principal resultado do estudo é “desanimador”. “Nós identificamos que os governos europeus simplesmente não sabem o que ocorre em seus sistemas prisionais no que diz respeito à saúde mental dos reclusos, não há qualquer relatório periódico sobre o assunto”, afirmou o pesquisador em entrevista à Agência Notisa, durante o 17º Congresso Europeu de Psiquiatria, realizado semana passada em Lisboa (Portugal), no qual o estudo foi apresentado.

Segundo Salize, ao menos a coleta padronizada de dados confiáveis sobre o assunto deveria ser feita e não demandaria esforços extraordinários. “Essa compilação de informações pode ser considerada relativamente fácil. Entretanto, deve-se pensar na possibilidade de que os governos nacionais não queiram conhecer o estado de saúde mental dos presos. Se dados oficiais provarem que os padrões são ruins, haverá mais pressão sobre eles para que se faça algo. Se ninguém se importa, se ninguém sabe, nada precisa ser feito. Porém, se você tiver um relatório mostrando que só há alguns poucos psicólogos [atuando nas prisões], aí talvez haja pressão para que algo seja feito. Ao menos relatórios regulares sobre a atual situação devem ser organizados”, defendeu.

Superlotação e suicídio

O descaso com a questão ganha ainda mais relevância à luz dos dados coletados pelo estudo. Salize explicou que, dada a falta ou inconsistência de dados, a freqüência de suicídios cometidos em prisões registrada nos países analisados é o único indicador – “indireto e insuficiente” – que permite deduzir o ônus dos transtornos mentais nos sistemas carcerários europeus. E os números são “alarmantes”.

O especialista analisou o número de suicídios cometidos por cada mil presidiários ao longo de um ano, com base nos dados mais recentes identificados disponíveis para cada país. Embora haja países com taxas muito baixas, como Chipre (nenhum caso em 2003), mais da metade dos países tem taxas de suicídio acima de 1 por cada mil detentos. Na Islândia, a taxa chega a surpreendentes 8,47 suicídios por cada mil detentos, em 2005.

Para se ter noção da gravidade dos dados, segundo estudo brasileiro publicado na Revista de Brasileira de Psiquiatria por Mello-Santos e colaboradores, em 2005, a taxa de suicídio no Brasil fica entre 0,03 e 0,04 por mil habitantes. Na Europa, em países com os mais altos índices de suicídio, o valor pode superar a 0,4/1000 habitantes. Em geral, este tipo de taxa sequer é calculado por mil indivíduos, como no caso dos presidiários, mas por cada 100 mil.

E não é só. Engana-se, por exemplo, quem pensa que a superlotação em presídios seja uma exclusividade do Brasil e de outros países em desenvolvimento – embora os níveis não possam ser, necessariamente, comparáveis. Dos 24 países analisados, metade apresentava uma ocupação do sistema carcerário acima da capacidade. São eles (em ordem alfabética): Áustria (103%), Bélgica (112%), Chipre (178%), República Tcheca (101%), Finlândia (115%), Grécia (198%), Hungria (140%), Itália (139%), Holanda (105%), Polônia (116%), Portugal (106%) e Inglaterra e País de Gales (115%). “E isso é, obviamente, um fator de risco para a saúde mental dos presos. Tudo indica que a superlotação pode causar depressão, ansiedade e propiciar o abuso de substâncias”, observou Salizer.

Situação incompreensível

Na opinião do pesquisador, não é compreensível que autoridades da área de saúde e jurídicas ainda não tenham implementado relatórios anuais sobre a qualidade da atenção à saúde mental em prisões e sobre a prevalência de transtornos mentais entre os presos. “Há carência de dados sobre a triagem na admissão dos presos e mesmo ao final da sentença, o que é mais importante em termos reincidência dos crimes. Nós sabemos através de alguns poucos estudos, que geralmente cobrem pequenas amostras, que a prevalência de transtornos mentais entre prisioneiros é muito mais alta do que a vista na população em geral. Porém, mesmo algumas informações que poderiam ser facilmente acessadas, como a prescrição de drogas psicofarmacológicas em prisões, não são coletadas em nível nacional e atualizadas anualmente. Simplesmente não se sabe”, lamentou.

O pesquisador destacou desconhecer programas, em qualquer país, que estudem e avaliem a saúde mental dos presos e que produzam, regularmente, relatórios com dados confiáveis em nível nacional. “Há muitos esforços regionais e locais. Estudos, programas sobre abuso de drogas e outras questões. Porém, em geral, são pouco divulgados e não se tem acesso aos resultados ou à experiência desenvolvida. Não há dados mais globais, através dos quais seja possível avaliar, por exemplo, as estratégias que são eficazes e que deveriam adotadas nacionalmente. Eu simplesmente não posso citar um único país em que as coisas estejam bem nesse sentido, embora haja muitas iniciativas localizadas e pontuais”.

De acordo com Salize, o primeiro passo para enfrentar a questão é estar cientes da existência desse paciente psiquiátrico, negligenciado e marginalizado. “Além disso, devem ser implementados em todos os países ao menos aqueles indicadores mais básicos sobre o estado de saúde mental dos presos e sobre a qualidade da atenção à saúde, nesse contexto”, defendeu.

Para o pesquisador, “obviamente”, todos se beneficiariam de um melhor atendimento à saúde mental nas prisões. “As pessoas com algum tipo de transtorno que estão em prisões receberiam o tratamento adequado, o que provavelmente diminuiria os riscos de reincidência desse indivíduo após sua libertação. Logo, a sociedade como um todo também se beneficiaria. É óbvio que isso representa um custo para o sistema, mas este investimento teria efeitos em outras áreas da sociedade. Esta é uma discussão comum quando algo deve ser melhorado e mais dinheiro ser investido. Os resultados por vezes têm efeitos difusos, e o investimento não é feito, pois não produz um efeito imediato e visível”, concluiu.

Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)