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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Deus, o Universo e a Doce Ironia





Você já teve aquela sensação de que, as coisas, os eventos da vida, se arranjam de alguma forma que parecem se adequar perfeitamente à você e à narrativa de sua própria história, para o bem ou para o mal, de um jeito que parece que forças cósmicas maiores sabem o que você quer e falam sobre isso? Imagino que sim, pois por todo o globo as pessoas têm sentimentos religiosos o a sensação de um poder maior. Teólogos por toda a História cogitaram a existência de Deus, e filósofos existencialistas pelo século XX cogitaram a falta de sentido inerente e o Absurdo que a vida pode parecer.
Um dos insights mais interessantes dos existencialistas foi postular a ausência de um sentido para a vida imposto externamente, por Deus ou Monstro de Espaguete Voador, e que na verdade o sentido da vida é uma criação humana e individual. No entanto, o Universo continua operando de forma misteriosa e, às vezes, irônica. Neste ensaio, quero expor a negligência de todos os filósofos, teólogos, intelectuais e cientistas quanto ao aspecto irônico do funcionamento do Universo. E digo mais, este é o aspecto fundamental.
Outros pensaram já na onisciência, na benevolência, na ilusão diabólica ou no Absurdo como aspectos essenciais da realidade. Mas como Deus não é bom, porque permite a maldade no mundo, e isto não é uma ilusão cartesiana, pois ele se revela concreto toda vez que tentamos conhecê-lo, estas não são propriedade essenciais do Universo, Já a ironia é. As coisas sempre terminam de um jeito irônico.
Existem duas hipóteses principais para explicar a ironia: uma como propriedade essencial e inerente ao Universo, e outra como propriedade essencial mas construída, como um sentido humano e cultural, sobre o que acontece. Mas estas se perdem em especulações metafísicas. O que temos de dado empírico é que a ironia acontece, e é o mecanismo regulador do Universo e da vida humana.
Agora, temos também outra grande discussão sobre a natureza da ironia, se é doce ou amarga. Esta discussão é semelhante à discussão sobre se a Natureza é boa ou má, e que na verdade, não é muito produtiva. Isto porque, na verdade, trata-se apenas de um julgamento subjetivo, que depende da forma com se aborda a Ironia. Explico: se o que rege o mundo é a Amarga Ironia, seus efeitos trarão sentimento de confusão e de algo foi armado cosmicamente, e alguém sairá atordoado com isso. Mas, se o que existe é a Doce Ironia, seus efeitos trarão sentimento de confusão e de algo foi armado cosmicamente, e alguém sairá atordoado com isso. Exatamente a mesma coisa. Porque se trata apenas de uma diferença na abordagem. Isto porque, enquanto o título de Amarga Ironia é real, o de Doce Ironia é sarcástico. Isso implica que, para alcançar o conhecimento sobre o funcionamento da Doce Ironia, é necessário utilizar, como ferramenta epistemológica, outra forma de linguagem retórica, irmã da ironia: o sarcasmo.
Conclusão: Deus não existe, o Universo funciona de forma irônica, e só se compreende isso pelo sarcasmo. Espero que, com tudo explicadinho, tenha entendido a lição e parado de se perguntar sobre Deus ou o sentido da vida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O grande erro do movimento ambientalista

Todo jovem ambicioso e sonhador quer enfrentar o mal. Ao longo dos anos que se passam, as pessoas seguem um dos dois caminhos: ou se acomodam e preferem cuidar so do malzinho interior, ou se tornam ainda mais sofisticados e afiados em seu arsenal conceitual e seus objetivos, desenvolvendo então meios de combater o mal. Adquirimos a noção de que a concepção que se tem de 'mal' é exageradamente simplista e maniqueísta, e mutias vezes encarnada em alguma pessoa, ou então cai para o outro extremo, estupidamente abstrata. Mas o mal se configura nas condições concretas da existência dos indivíduos, e vai se alastrando até onde suas conseqüência podem alcançar. Este mal pode aparecer de diversas formas: exclusão do mercado de trabalho, violência doméstica, exploração ambiental, falta de assistência às necessidades básicas, sistema legal injusto, xenofobia, corrida armamentista e hostilidade e opressão de todas as formas.
O crime normalmente é retratado como uma das expressões do mal, das que mais recebe a atenção das pessoas. Contra este, as sociedades modernas utilizam de uma gama de mecanismos legais e de aplicação da lei, como armas, policias, promotores e juízes. Mas nem todos os crimes são abordados pela mão forte do Estado - talvez porque o Estado seja ineficiente em sua logística, ou talvez esteja focado demais em punir crimes supérfluos como o comércio de drogas recreativas, ou talvez seja simplesmente impossível que o Estado esteja em todos os lugares.
Um desses crimes que o Estado não está dando muita conta no nosso país, e que com certeza deveria, é a extração ilegal de madeira das belas e essenciais florestas. Como uma amiga perspicazmente apontou, é tão difícil combater a indústria madeireira, que normalmente vão uns poucos ambientalistas tentar proteger algumas árvores lá nos cafundó de um matagal sem a mínima perspectiva de uma interveção do Estado, seja por saúde, educação, direitos trabalhsitas ou proteção ambiental, que no final acabam sendo assassinados pela truculência do operários à margem da lei portadoes de motosserras.

Visto este grave problema enfrentado pela falta de qualquer legalidade ou serviços de assistência em um terreno marginal como esse, acredito qeu o movimento ambientalista precisa traçar novas estratégias, mais eficientes para a nova configuração do mal que se apresenta, que é diferente da ameaça ambiental dos anos 70, capaz de se combater com uma câmera de vídeo e um protesto pacífico com cartazes e abraços às arvores. Seguindo os princípios da Política Prefigurativa, de que os valores dos nossos meios devem ser coerentes com os valores da sociedade que queremos construir, a abordagem não-violenta deve continuar. Para isso, precisamos de planejamento, pois não-violência trata-se usar a cabeça, e traçar estratégias eficientes para ter uma sociedade bonita, justa e saudável.
Visto tudo isso, a abordagem mais poderosa e far-seeing concebível é a intervenção na própria economia, inserindo esses trabalhadores em uma rede melhor de serviços - porque é óbvio que eles trabalham destruindo florestas porque é a única perspectiva deles, se pudessem fazer algo mais legal e rentável, fariam.
Mas é possível pensar em aplicar a lei bloqueando fisicamente a ação das madeireiras - mas dessa vez com segurança. O maior erro do movimento ambientalista foi nunca ter utilizado veículos blindados. Imagina o Greenpeace, com dois Panzerkampfwagen velhos doados pelo Exército, sem canhão e pintados de arco-íris e outras cores da paz, bloqueando as motosserras? Eles podiam aproveitar também e ter um caminhão de bombeiros blindado e colorido que tenha uma mangueira de água pra danificar a aparelhagem inimiga e um estoque gigante de seed bombs, para já utilizá-las para reflorestar a região atacada. Esses veículos poderiam, ainda por cima, ser ecologicamente corretos. E a ausência de armas impediria qualquer escalagem da violência, que seria péssima para a indústria e só atrairia a atenção internacional.
Para derrotar o mal, é preciso ser criativo. Precisamos ser enérgicos, cativantes e bem-humorados. Fica a dica.

sábado, 29 de novembro de 2008

O Direito Penal Divino dos Reis


O Direito Divino dos Reis foi uma longa tradição durante o complexo e diversificado período caracterizado como Idade Média na Europa, que consistia na atribuição dos poderes de governar soberanamente, ou seja, que a vontade do rei era a lei, que era concedido pelos membros do clero. Dessa forma, uma das classes sociais mais poderosas legitima outra das classes sociais mais poderosas no seu direito de governar. Por que? Porque a nobreza tem terras, e todo mundo quer terras, mesmo que a burguesia não dê tanto valor a elas.
Os burgueses e os proletários criticam a monarquia absolutista, acusando-a de injusta e arbitrária. No entanto, é um dos sistemas políticos mais seguros de todos, tanto é que durou muitos séculos. É o único sistema no qual todos têm clareza de que os governantes são os proprietários de terra, e as mesmas pessoas que têm todo o poder. Isso facilita muito a escolha dos alvos para uma possível revolução ou golpe de estado, principalmente dentro da própria família real. Esse clima de instabilidade permite aos plebeus fazerem o que quiserem, ou seja, traz liberdade.
Além disso, as políticas são continuadas. Enquanto nas democracias de governo partidário provisório, as políticas públicas são meladas de uma eleição para outra, como a construção de estradas ou pontes, e são feitas somente obras menores, nas monarquias absolutistas as políticas são grandiosas e continuadas. Construção de estátuas em homenagem ao rei ou príncipe, guerras que duram mais de trinta anos e ações inquisitórias que duram um século inteiro de perseguições declaradas. O rei é um visionário, ele continua o que ele quer.
Mas o principal benefício da monarquia absolutista é para o direito penal. Ou deveria ser, mais especificamente o direito penal divino dos reis. Isso significa a legitimidade do rei, enquanto ser divino e iluminado, de decidir e efetivar a pena de cada indivíduo, usando de todos os recursos políticos, naturais e sobrenaturais para isso.
Assim, o rei, enquanto soberano divino, controla tudo sobre o seu Reino. As vendas, os servos, as condutas, as roupas, as comidas, as estradas, os soldados, os costumes, as penas, os ventos, as chuvas, os trovões, o dia, a noite, o sol e a lua. Tudo está sob o controle do rei, representação de Deus na Terra. Assim, todos devem obediência ao rei e gratidão por ele ter lhes concedido o próprio direito à vida, e o direito de habitar o seu Reino e contemplar a sua Natureza e aproveitar o seu sol e suas chuvas. Se alguém desagradar ao rei, a quaisquer de suas crenças e desejos, será punido com alguma catástrofe natural diretamente pelo rei, como um relâmpago ou a devastação de sua lavoura.
Submeter a Natureza à vontade do rei, e permitir que ela seja usada como instrumento de punição para aqueles hereges mesquinhso que ousarem destratar da autoridade magnânima do rei é a melhor forma de manter uma sociedade controlada, coesa e integrada. Tudo deve se submeter e nada pode contestar a vontade soberana do que controla a Natureza - assim, nada lhe escapará, ou seja, não haverá crime, heresia ou má conduta. Todos serão felizes e terão recursos naturais em abundância, pela simples condição de obedecerem ao rei. É a força conjunta da nobreza, da Natureza e de Deus que permite a paz e a harmoia nos povoados do Reino.
Assim, proponho a monarquia absolutista, com o Direito Penal Divino dos Reis, como alternativa às leis instáveis, anônimas e negligentes do Estado Moderno, que não é capaz de satisfazer nem regular as vidas de seus próprios cidadãos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Modo de produção natalino




A banda Garotos Podres! acusa a figura do Papai Noel de ser um filho da puta, porco capitalista, que rejeita os miseráveis - algo que muitas pessoas, observando o consumismo da época de Natal e as propagadas da Coca-Cola, também pensaram. Alguns poucos argumentam que na verdade ele é socialista, pois distribui os presentes sem custo algum, e não lucra nada com isso, e algumas poucas crianças acreditam que é caridade. No entanto, Papai Noel não tem relação nenhuma com qualquer um desses modos de produção muito teorizados no confuso século XX, muito menos com virtudes cristãs que jamais estariam presentes em um habitante das gélidas e impiedosas terras do Pólo Norte. Papai Noel é o semi-deus governador de seu próprio modo de produção, e seu governo e poder político-econômico se estendem para além dos limites do Estado Nacional do Pólo Norte. Este é o modo de produção natalino.
A força de trabalho do modo de produção natalino é formada pelo sub-proletariado da raça duende, uma vasta população que ficara isolada nas terras do Pólo Norte, e teve todos os seus meios de produção e até a própria educação tradicional expropriados por um dissidente do capitalismo carismático, autoritário e patriarcal, interessado em violar a soberania e as fronteiras dos Estados Nacionais e eliminar a possibilidade de competição ou crise às quais as empresas comuns, mesmo as mais poderosas, devem se submeter. Papai Noel oferece a sua imagem para as forças do capitalismo, como uma distração para as suas atividades predatórias mascaradas de benefício para as grandes empresas, pedindo à benevolência das empresas a matéria-prima, inclusive lixo e produtos pré-prontos, que for excedente, estabilizando assim os preços para os empreendedores capitalistas. Os capitalistas sabem do benefício econômico que essas doações trazem para seus bolsos, e ainda recebem muito crédito da população consumidora através da atenção dada pela mídia a esses eventos de caridade. O Papai Noel também fica bem representado, e consegue toda a sua matéria-prima sem gastar nada da força de trabalho ou de recursos, pois estes inexistem no Pólo Norte. Dessa forma, o Papai Noel é o único no Pólo Norte a ter acesso à matéria-prima, fazendo os duendes se submeterem a qualquer regime de trabalho no complexo industrial, na esperança de subsistência.
Papai Noel usufrui do poder da ideologia para manter os regimes de trabalho desumanos dos duendes durante o ano inteiro, apresentando os esforços deles como altamente virtuosos, um exercício de caridade extremamente essencial para trazer a felicidade às criancinhas humanas de todo o globo. Essa estratégia está sendo utilizada, de maneira bastante rudimentar, pelo sistema capitalista no século XXI. A falta de meios de produção, de recursos, de força física, de acesso à educação, de consciência de classe, e a ideologia quase-religiosa do Natal, mantém os duendes em um regime opressivo e sem chances de empoderamento ou revolução.
Na ideologia do Natal, todos os envolvidos no modo de produção natalino têm uma missão maior: fazer os presentes para a felicidade das criancinhas no mundo inteiro. Essa missão é liderada pelo semi-deus Papai Noel, figura paternal e profética com poderes mágicos e um grande coração, ao qual os duendes devem grande obediência. As propagandas sobre as grandes viagens do Papai Noel ao final do ano sempre relativizam o trabalho explorado dos duendes, que permanecem em segundo plano - embora eles sequer saibam disso. A vida típica de um membro da corte nomeado pelo clero, com muitos caprichos satisfeitos e comidas fartas, também é ocultada da população duende, que aceita a aparência do Papai Noel como natural à sua personalidade.
Dessa forma, o sistema capitalista fica estável, Papai Noel não gasta com matéria-prima, a força de trabalho é explorada ao máximo e todos acreditam que a atitude de Papai Noel é a salvação divina. Mas as travessuras do bom velhinho não páram por aí. Durante seu pequeno período de trabalho anual - a entrega de presentes - a suposta divindade aproveita a excitação e distração da época para exercer seu poder acima da lei: transição entre as fornteiras dos Estados sem perrmissão, invasão de propriedades particulares, saque de provisões alimentares das casas (biscoitos, etc) e até perturbação do horário de silêncio. Papai Noel exige as homenagens das árvores de Natal e outros luxos e aproveita para dar a sua lição de moral etnocêntrica às crianças das culturas mais variadas, incentivando-as a se submeter à educação autoritária e permanecer individualista em uma sociedade altamente competitiva. Como ele distribui os presentes gratuitamente, as famílias e Estados Nacionais são permissivos para com ele.
Por estes motivos, é sociologicamente impreciso caracterizar o Papai Noel como um representante do capitalismo, pois, em sua economia: o trabalho não é livre, o trabalho é valorizado em seu esforço e tem o reconhecimento da relação entre o produtor e o produto, não existe lucro nem trocas comerciais, o poder de consumo é desnecessário bem como a produção subsistente e a extração de matéria-prima. Não existe competição, nem educação das massas e nem submissão à lei de outros países, pois a figura da divindade é muito carismática e inibe o espírito crítico de todos os membros das nações, pois todos conhecem crianças, que são os seus súditos e alter-consumidores mais essenciais para todo o funcionamento de sua economia e, conseqüentemente, seu poder.




Abaixo à opressão natalina, apague as luzes de sua vizinhança!

Modo de produção natalino

A banda Garotos Podres! acusa a figura do Papai Noel de ser um filho da puta, porco capitalista, que rejeita os miseráveis, algo que muitas pessoas, observando no consumismo da época de Natal e as propagadas da Coca-Cola, também pensaram. Alguns poucos argumentam que na verdade ele é socialista, pois distribui os presentes sem custo algum, e não lucra nada com isso, e algumas poucas crianças acreditam que é caridade. No entanto, Papai Noel não tem relação nenhuma com qualquer um desses modos de produção muito teorizados no confuso século XX, muito menos com virtudes cristãs que jamais estariam presentes em um habitante das gélidas e impiedosas terras do Pólo Norte. Papai Noel é o semi-deus governador de seu próprio modo de produção, e seu governoe poder político-econômico se estendem para além dos limites do Estado Nacional do Pólo Norte. Este é o modo de produção natalino.