
A banda Garotos Podres! acusa a figura do Papai Noel de ser um filho da puta, porco capitalista, que rejeita os miseráveis - algo que muitas pessoas, observando o consumismo da época de Natal e as propagadas da Coca-Cola, também pensaram. Alguns poucos argumentam que na verdade ele é socialista, pois distribui os presentes sem custo algum, e não lucra nada com isso, e algumas poucas crianças acreditam que é caridade. No entanto, Papai Noel não tem relação nenhuma com qualquer um desses modos de produção muito teorizados no confuso século XX, muito menos com virtudes cristãs que jamais estariam presentes em um habitante das gélidas e impiedosas terras do Pólo Norte. Papai Noel é o semi-deus governador de seu próprio modo de produção, e seu governo e poder político-econômico se estendem para além dos limites do Estado Nacional do Pólo Norte. Este é o modo de produção natalino.
A força de trabalho do modo de produção natalino é formada pelo sub-proletariado da raça duende, uma vasta população que ficara isolada nas terras do Pólo Norte, e teve todos os seus meios de produção e até a própria educação tradicional expropriados por um dissidente do capitalismo carismático, autoritário e patriarcal, interessado em violar a soberania e as fronteiras dos Estados Nacionais e eliminar a possibilidade de competição ou crise às quais as empresas comuns, mesmo as mais poderosas, devem se submeter. Papai Noel oferece a sua imagem para as forças do capitalismo, como uma distração para as suas atividades predatórias mascaradas de benefício para as grandes empresas, pedindo à benevolência das empresas a matéria-prima, inclusive lixo e produtos pré-prontos, que for excedente, estabilizando assim os preços para os empreendedores capitalistas. Os capitalistas sabem do benefício econômico que essas doações trazem para seus bolsos, e ainda recebem muito crédito da população consumidora através da atenção dada pela mídia a esses eventos de caridade. O Papai Noel também fica bem representado, e consegue toda a sua matéria-prima sem gastar nada da força de trabalho ou de recursos, pois estes inexistem no Pólo Norte. Dessa forma, o Papai Noel é o único no Pólo Norte a ter acesso à matéria-prima, fazendo os duendes se submeterem a qualquer regime de trabalho no complexo industrial, na esperança de subsistência.
Papai Noel usufrui do poder da ideologia para manter os regimes de trabalho desumanos dos duendes durante o ano inteiro, apresentando os esforços deles como altamente virtuosos, um exercício de caridade extremamente essencial para trazer a felicidade às criancinhas humanas de todo o globo. Essa estratégia está sendo utilizada, de maneira bastante rudimentar, pelo sistema capitalista no século XXI. A falta de meios de produção, de recursos, de força física, de acesso à educação, de consciência de classe, e a ideologia quase-religiosa do Natal, mantém os duendes em um regime opressivo e sem chances de empoderamento ou revolução.
Na ideologia do Natal, todos os envolvidos no modo de produção natalino têm uma missão maior: fazer os presentes para a felicidade das criancinhas no mundo inteiro. Essa missão é liderada pelo semi-deus Papai Noel, figura paternal e profética com poderes mágicos e um grande coração, ao qual os duendes devem grande obediência. As propagandas sobre as grandes viagens do Papai Noel ao final do ano sempre relativizam o trabalho explorado dos duendes, que permanecem em segundo plano - embora eles sequer saibam disso. A vida típica de um membro da corte nomeado pelo clero, com muitos caprichos satisfeitos e comidas fartas, também é ocultada da população duende, que aceita a aparência do Papai Noel como natural à sua personalidade.

Dessa forma, o sistema capitalista fica estável, Papai Noel não gasta com matéria-prima, a força de trabalho é explorada ao máximo e todos acreditam que a atitude de Papai Noel é a salvação divina. Mas as travessuras do bom velhinho não páram por aí. Durante seu pequeno período de trabalho anual - a entrega de presentes - a suposta divindade aproveita a excitação e distração da época para exercer seu poder acima da lei: transição entre as fornteiras dos Estados sem perrmissão, invasão de propriedades particulares, saque de provisões alimentares das casas (biscoitos, etc) e até perturbação do horário de silêncio. Papai Noel exige as homenagens das árvores de Natal e outros luxos e aproveita para dar a sua lição de moral etnocêntrica às crianças das culturas mais variadas, incentivando-as a se submeter à educação autoritária e permanecer individualista em uma sociedade altamente competitiva. Como ele distribui os presentes gratuitamente, as famílias e Estados Nacionais são permissivos para com ele.
Por estes motivos, é sociologicamente impreciso caracterizar o Papai Noel como um representante do capitalismo, pois, em sua economia: o trabalho não é livre, o trabalho é valorizado em seu esforço e tem o reconhecimento da relação entre o produtor e o produto, não existe lucro nem trocas comerciais, o poder de consumo é desnecessário bem como a produção subsistente e a extração de matéria-prima. Não existe competição, nem educação das massas e nem submissão à lei de outros países, pois a figura da divindade é muito carismática e inibe o espírito crítico de todos os membros das nações, pois todos conhecem crianças, que são os seus súditos e alter-consumidores mais essenciais para todo o funcionamento de sua economia e, conseqüentemente, seu poder.

Abaixo à opressão natalina, apague as luzes de sua vizinhança!
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