Textinho publicado no jornal do Diretório Acadêmico de Psicologia da UFRGS de outubro/novembro/2008:
O progresso é frio como uma navalha
No dia oito de outubro de 2008, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, a Fundação Osvaldo Cruz e as Faculdades de Farmácia do país inteiro fizeram muita festa, regada a muitas risadas macabras e talvez até drogas que eles mesmos adoram desenvolver. Tudo isso pela aprovação de uma lei. Talvez eu esteja exagerando, e eles não tenham feito tanta festa assim: pra falar a verdade, a lei foi aprovada silenciosamente. E o silêncio maior foi aquele dos mais afetados pela lei: os animais nas universidades.
Esses animais que eu estou falando não são os que vão todos os dias para a sala de aula, e que se reúnem em vários pequenos grupos primatas para exercitar suas habilidades lingüísticas, mas os que não têm a mínima idéia do que raios que estão fazendo naquele gelado laboratório com o crânio aberto e uma sensação estranha produzida por alguma mágica droga sem o seu consentimento. A Lei Arouca (11794/08), que tramitava há dez anos no Senado, regulamenta nacionalmente a experimentação animal nas instituições de pesquisa e ensino, padronizando os comitês de ética e que tipo de experimentos com animais podem ser aprovados ou não. Na prática, isso quer dizer que quem trabalha com experimentação animal ganhou um baita respaldo jurídico, e que os animais criados em biotérios terão o mesmo destino no país inteiro, sem entraves. Tudo isso apenas com a pressão dos representantes da nossa classe de cientistas, sem o mínimo diálogo com a sociedade civil. De fato, apesar do que o Senador Cristovam Buarque respondeu no e-mail que mandei para ele, não houve diálogo com NENHUMA organização de defesa dos direitos dos animais (Veddas, PEA, Gato Negro, Tribuna Animal, GAE, InterNICHE). Foi simplesmente a SBPC sussurrando no ouvido dos doutos senadores. Uma decisão secreta e anti-democrática, o que faz muito sentido em uma nação que proíbe acadêmicos de discutirem sobre legalização da maconha e reprime pelas armas qualquer tipo de movimento social que clama por terra, liberdade ou dignidade. Mas como nós não somos patriotas, e temos um espírito crítico relativamente afiado, o fato de violência e falta de democracia serem fortes tradições em nosso país não justifica lhufas. Não são só adolescentes sentimentais que gostam de cachorrinhos que combatem a experimentação animal, situação que os “cientistas” alegam para dizer que quem tem que decidir sobre experimentação animal tem que ser os que estão informados, ou seja, “cientistas”. Coloco “cientistas” entre aspas porque não admito que a vontade desses idiotas sedentos por patentes farmacêuticas e linhas no currículo lattes e sem a mínima capacidade de reflexão epistemológica ou ética seja colocada como representando a classe da qual fazem parte gênios humanistas como Carl Sagan e biólogos revolucionários e proponentes do Great Ape Project, como Jane Goodall e Richard Dawkins, e muitos outros cientistas honrados que preferiram ir para áreas como agicultura, climatologia, energias limpas, ciências sociais, economia, biologia da conservação e (por que não?) psicologia, para contribuir para o progresso do conhecimento e da sociedade, em vez da torturar inocentes ratinhos e sustentar sujos biotérios. A audácia desses idiotas em se apresentarem como a voz de toda a classe dos cientistas faz com que acadêmicos e profissionais mais preocupados com saúde, educação e não-violência criem instituições que realmente os representam, como Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), Ethical Science and Education Coalition (ESEC), Humane Learning, Humane Society of the United States (HSUS), National Anti-Vivisection Society (NAVS), Novivisezione - No Vivisection, Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM) e, quem diria, Psychologists for the Ethical Treatment of Animals (PsyETA). O nó Ciência e Direitos dos Animais é bastante forte no hemisfério norte, como dá pra perceber. Lá a discussão transcende a ridícula dicotomia proteção animal x progresso das ciências da saúde, pois aparentemente os cientistas do hemisfério norte são mais criativos para imaginar métodos rigorosos de investigação que não explorem animais (os tais métodos alternativos), já que a discussão que importa é: queremos uma Ciência humanitária e não violenta ou não? O preocupante não é a tecnologia e o acúmulo de conhecimento (pelo menos enquanto não formos atacados por uma ditadura religiosa e obscurantista), pois essas coisas vão se desenvolver de qualquer jeito, matando ratinhos ou não. A questão é: que tipo de educação é essa que legitima a violência dentro da instituição máxima do saber? Que tipo de civilização a vanguarda do saber está construindo dessa forma? É isso que queremos que nossos jovens cientistas aprendam?
Agora, com essa nova lei, a ideologia do bem-estarismo e da experimentação animal será ainda mais forte, com todo um respaldo jurídico, acadêmico e midíatico, capando com uma navalha as tentativas legais de se defender a dignidade desses animaizinhos explorados e maltratados e assim vai morrendo até mesmo o espírito crítico e a reflexão filosófica da nossa tão capenga academia. Qualquer vestibulando que espera transgredir as fronteiras do pensamento ao entrar na universidade irá se deparar com professores acomodados cortando suas asas e dizendo que induzir um cão ao desamparo aprendido ou arrancar o coração de uma rã viva para ver a maravilha da noradrenalina agindo é ético porque é respaldado por lei, e porque todo mundo faz. O assassinato de inúmeros seres sencientes mata também a possibilidade de uma afiada formação filosófica para os cientistas. Essa sim é uma dicotomia na qual os dois lados não podem coexistir, e cada cientista vai ter que escolher o seu e decidir que tipo de progresso se quer.
Bruno Graebin de Farias, futuro cientista de verdade
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
sábado, 4 de outubro de 2008
Aguardar resposta e sustentação
Estive aqui em deparando com exercícios de introspecção nos quais fiquei rememorando minhas práticas de psicoterapia (ah, tão novinho!) e atitudes nas relações interpessoais em geral, e surgiu-me então uma simplória classificação sobre dois modos de se comportar durante e após proferir um enunciado, seja verbal ou não: aguardar resposta ou sustentar o enunciado. Estes dois modos de se comportar então teriam conseqüências muito diferentes, fazendo-se necessário pensar a ética de cada um.
Admito, como posição ética, que devemos sempre ter sensibilidade para perceber as respostas de outros indivíduos diante de nossos discursos e atuações, e que para a construção d euma sociedade democrática devemos sempre dar o direito à voz ao outro. Porém, o aguardo de resposta que classifico aqui se refere a assumir uma posição neutra após o enunciado, aguardando a colocação, aprovação ou recusa do outro indivíduo. Isso protege psiquicamente o autor do enunciado de sofrer qualquer ataque, pois retornando à posição neutra ele se desapega de seu enunciado, que fica à mercê da colocação do outro. Fazer isso é um bom preparo de solo para estabelecer um vínculo, evitar conflitos e conduzir negociações importantes e delicadas, o que é muito usado na prática clínica em psicologia.
Só que nem sempre é a melhor posição a assumir: hoje atendi meu primeiro caso de alcoolismo, de uma mãe que veio obrigado para o atendimento pois senão perderia a guarda dos filhos (está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que eles têm direito a viver em um ambiente livre de ameaças e práticas parentais inadequadas, e alcoolismo é uma delas). A moça chegou na consulta de forma compulsória e sem receber nenhum documento formal que pudesse ler para estar informada, o que fez com que chegasse confusa, sem querer muito papo e em tom desafiador com 'o doutor'. Esse contexto ainda catalisado pelo humor e comportamento de uma alcoolista, dentro os quais está a oposição e a negação do problema. No final das contas, o atendimento saiu ótimo, pois eu sou super congruente com a minha humanidade e me disponho à escutar, assim desenvolvemos um bom vínculo. Mas na hora de comunicar para ela o motivo de sua vinda à consulta, assumi a mesma posição de 'aguardar resposta', o que fez ela me desafiar e me achar um babaca. Nesse momento eu devia ter sustentado minha posição, de forma firme e clara, pois afinal das contas eu estava certo e tinha evidências disso.
Sustentar envolve a percepção do feedback também, mas não numa posição neutra. É preciso se descentrar e tomar partido. Devemos estar congruentes com a enunciação, seguros da nossa posição em função dos conhecimentos consolidados. Ela é mais arriscada em termos de sentimento do outro em relação ao autor da enunciação, mas é boa se o interesse é desequilibrar a relação ou fazer a sua posição ser vista. Sustentar, significa mostrar que não vamos abrir mão de nada, diferentemente da submissão de aguardar resposta, que busca ouvir a demanda do outro e modificar-se em relação à ela.
Nenhuma das duas é mais certa: são estratégias, que dependem do contexto e da aplicação para serem bem-suceiddas ou não. Sendo estratégias, portanto, é recomendável não se viciar sempre na mesma, mas agir de forma inteligente e variada.
Admito, como posição ética, que devemos sempre ter sensibilidade para perceber as respostas de outros indivíduos diante de nossos discursos e atuações, e que para a construção d euma sociedade democrática devemos sempre dar o direito à voz ao outro. Porém, o aguardo de resposta que classifico aqui se refere a assumir uma posição neutra após o enunciado, aguardando a colocação, aprovação ou recusa do outro indivíduo. Isso protege psiquicamente o autor do enunciado de sofrer qualquer ataque, pois retornando à posição neutra ele se desapega de seu enunciado, que fica à mercê da colocação do outro. Fazer isso é um bom preparo de solo para estabelecer um vínculo, evitar conflitos e conduzir negociações importantes e delicadas, o que é muito usado na prática clínica em psicologia.
Só que nem sempre é a melhor posição a assumir: hoje atendi meu primeiro caso de alcoolismo, de uma mãe que veio obrigado para o atendimento pois senão perderia a guarda dos filhos (está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que eles têm direito a viver em um ambiente livre de ameaças e práticas parentais inadequadas, e alcoolismo é uma delas). A moça chegou na consulta de forma compulsória e sem receber nenhum documento formal que pudesse ler para estar informada, o que fez com que chegasse confusa, sem querer muito papo e em tom desafiador com 'o doutor'. Esse contexto ainda catalisado pelo humor e comportamento de uma alcoolista, dentro os quais está a oposição e a negação do problema. No final das contas, o atendimento saiu ótimo, pois eu sou super congruente com a minha humanidade e me disponho à escutar, assim desenvolvemos um bom vínculo. Mas na hora de comunicar para ela o motivo de sua vinda à consulta, assumi a mesma posição de 'aguardar resposta', o que fez ela me desafiar e me achar um babaca. Nesse momento eu devia ter sustentado minha posição, de forma firme e clara, pois afinal das contas eu estava certo e tinha evidências disso.
Sustentar envolve a percepção do feedback também, mas não numa posição neutra. É preciso se descentrar e tomar partido. Devemos estar congruentes com a enunciação, seguros da nossa posição em função dos conhecimentos consolidados. Ela é mais arriscada em termos de sentimento do outro em relação ao autor da enunciação, mas é boa se o interesse é desequilibrar a relação ou fazer a sua posição ser vista. Sustentar, significa mostrar que não vamos abrir mão de nada, diferentemente da submissão de aguardar resposta, que busca ouvir a demanda do outro e modificar-se em relação à ela.
Nenhuma das duas é mais certa: são estratégias, que dependem do contexto e da aplicação para serem bem-suceiddas ou não. Sendo estratégias, portanto, é recomendável não se viciar sempre na mesma, mas agir de forma inteligente e variada.
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