sábado, 4 de outubro de 2008

Aguardar resposta e sustentação

Estive aqui em deparando com exercícios de introspecção nos quais fiquei rememorando minhas práticas de psicoterapia (ah, tão novinho!) e atitudes nas relações interpessoais em geral, e surgiu-me então uma simplória classificação sobre dois modos de se comportar durante e após proferir um enunciado, seja verbal ou não: aguardar resposta ou sustentar o enunciado. Estes dois modos de se comportar então teriam conseqüências muito diferentes, fazendo-se necessário pensar a ética de cada um.
Admito, como posição ética, que devemos sempre ter sensibilidade para perceber as respostas de outros indivíduos diante de nossos discursos e atuações, e que para a construção d euma sociedade democrática devemos sempre dar o direito à voz ao outro. Porém, o aguardo de resposta que classifico aqui se refere a assumir uma posição neutra após o enunciado, aguardando a colocação, aprovação ou recusa do outro indivíduo. Isso protege psiquicamente o autor do enunciado de sofrer qualquer ataque, pois retornando à posição neutra ele se desapega de seu enunciado, que fica à mercê da colocação do outro. Fazer isso é um bom preparo de solo para estabelecer um vínculo, evitar conflitos e conduzir negociações importantes e delicadas, o que é muito usado na prática clínica em psicologia.
Só que nem sempre é a melhor posição a assumir: hoje atendi meu primeiro caso de alcoolismo, de uma mãe que veio obrigado para o atendimento pois senão perderia a guarda dos filhos (está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que eles têm direito a viver em um ambiente livre de ameaças e práticas parentais inadequadas, e alcoolismo é uma delas). A moça chegou na consulta de forma compulsória e sem receber nenhum documento formal que pudesse ler para estar informada, o que fez com que chegasse confusa, sem querer muito papo e em tom desafiador com 'o doutor'. Esse contexto ainda catalisado pelo humor e comportamento de uma alcoolista, dentro os quais está a oposição e a negação do problema. No final das contas, o atendimento saiu ótimo, pois eu sou super congruente com a minha humanidade e me disponho à escutar, assim desenvolvemos um bom vínculo. Mas na hora de comunicar para ela o motivo de sua vinda à consulta, assumi a mesma posição de 'aguardar resposta', o que fez ela me desafiar e me achar um babaca. Nesse momento eu devia ter sustentado minha posição, de forma firme e clara, pois afinal das contas eu estava certo e tinha evidências disso.
Sustentar envolve a percepção do feedback também, mas não numa posição neutra. É preciso se descentrar e tomar partido. Devemos estar congruentes com a enunciação, seguros da nossa posição em função dos conhecimentos consolidados. Ela é mais arriscada em termos de sentimento do outro em relação ao autor da enunciação, mas é boa se o interesse é desequilibrar a relação ou fazer a sua posição ser vista. Sustentar, significa mostrar que não vamos abrir mão de nada, diferentemente da submissão de aguardar resposta, que busca ouvir a demanda do outro e modificar-se em relação à ela.
Nenhuma das duas é mais certa: são estratégias, que dependem do contexto e da aplicação para serem bem-suceiddas ou não. Sendo estratégias, portanto, é recomendável não se viciar sempre na mesma, mas agir de forma inteligente e variada.

Um comentário:

  1. Nessas horas entra em jogo a tua responsabilidade, que vai te ajudar a decidir por qual opção seguir.

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