Mês passado participei de um evento muito bacana que foi a I Semana de História e Meio Ambiente e I Mostra de Documentários Ambientais, promovido pelo movimento estudantil da PUC-RS. É muito feliz ver o pessoal da História rompendo as barreiras tradicionais da disciplina e se apropriando dos problemas ambientais, cosntruindo aquela palavrinha mágica da transdisciplinaridade, embora não tenham usado esse termo nenhuma vez. Mas foi isso o que aconteceu: biólogos, historiadores, cientistas sociais, jornalistas, geógrafos, professores universitários dessas áreas, a turma do técnico em monitoramento e controle ambiental e dois estudantes de psicologia perdidos, mas muito interessados, participantes e críticos.
A temática central era sobre o meio ambiente no Rio Grande do Sul, sobre os riscos e negligências do bioma pampa, a ameaça das grandes empresas da celulose, Aracruz e Stora Enso, a perda da biodiversidade e um estudo e homenagem a um dos maiores ícones do ambientalismo no Rio Grande do Sul, José Antônio Lutzenberger. Foram exibidos dois documentários sobre a vida dele, 'Lutzenberger:For Ever Gaia' e 'O Legado Lutzenberger', e teve uma mesa-redonda com outros dois ícones do movimento ambientalista, Augusto Carneiro e Flávio Lewgoy. Com todo esse panorama, deu pra ter um quadro geral dos pressupostos epistemológicos do movimento ambientalista gaúcho e das idéias do Lutz, como é chamado. Adoro demais ouvir teorias e palavras de sabedoria de pioneiros e veteranos, e suas histórias de vitória e militância, e mudança de paradigma. Porém, não pude deixar de notar que todos os ambientalistas que falaram e a grande massa que estava presente pareciam se enquadrar em um ambientalismo softcore, com um discurso sem práxis e sem uma crítica propositiva de mudanças estruturais nos modelos econômicos. Por isso, softcore.
Cheguei atrasado e perdi o começo do primeiro filme, então peguei a partir da crítica que Lutz tece sobre a destruição ambiental causada pela moderna tecnologia industrial. Levanta os clássicos problemas de exploração dos recursos naturais, poluição, devastação e produção de lixo produzidos pela indústria e por todo o sistema capitalista desde a Revolução Industrial. No entanto, ele erra ao considerar a destruição ambiental atual como inerente à natureza da tecnologia. Isso porque esse enunciado pressupõe que tecnologia significa qualquer equipamento complexo produzido em uma indústria por uma linha de produção em série e que consuma alguma das fontes energéticas desenvolvidas a partir da Revolução Industrial, desconsiderando que vasos, talheres, tapetes, roupas, iglus, arados, enxadas, fornos e muitos outros instrumentos bem mais simples em termos de composição e de produção sejam também tecnologia. Segundo a Wikipédia:
" Tecnologia (do grego τεχνη — "ofício" e λογια — "estudo") é um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas, processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento."
Ou seja, a aplicação sistematizada dos ossos conhecimetnos e o uso de instrumentos é tecnologia. Isso é inerente e necessário à vida do Homo Sapiens e de outras espécies também. Não que isso seja bom ou ruim em si mesmo, e sim que é algo qeu acontece, e até hoje nunca vi ninguém defender que esqueçamos todos os nossos conhecimentos para tentarmos viver a vida como ignorantes absolutos. A tradição energética e de consumo da Revolução Industrial realmente ferrou com o nosso querido planetinha, que se torna cada vez mais pobre em recursos naturais, mas a solução não é abandonar a tecnologia, mas sim tranformá-la. Se o problema são os combustíveis fósseis e a poluição, precisamos de tecnologias energéticas e de produção limpas. Não se trata de reformar, com motores mais eficientes e econômicos ou estipulando taxas limites de poluição para as empresas, mas sim de instalar carros a hidrogênio e enegia elétrica derivada de baterias solares, e métodos de reaproveitamentos de produtos químicos dentro das próprias empresas. Temos o dever ético de sustentar toda a população do globo e de poupar os nossos ecossitemas, em uma missão cornucopiana que só será possível com as promissoras eco-techs.
Os ambientalistas clássicos falam na importância da mudança de consciência, mas ao meu ver a chave para salvar o globo está na modificação estrutural do sistema econômico. Consciência é super legal, mas ela não necessariamente leva a uma práxis. Essa é uma tese clássica da escola marxista, de que a tomada da consciência de classe levará necessariamente à luta contra o sistema econômico, sendo então tarefa dos intelectuais levar essa consciência de classe para os até então alienados. Não gosto dessa atitude missionária, duvido de que a consciência de classse sempre correponde aos interesses dos indivíduos desses grupos e considero as massas bastante prescindíveis nas decisões políticas (ninguém é absolutamente esclarecido, e esperar que todos sejam para então fazer alguma coisa é querer demais, além de achar que quem está ensinando a ter consciência já está prévia e absolutamente certo). Além de que a importância dessa consciência de classe está em combater valores metafísicos, como O Capitalismo ou A Exploração da Terra, e novas idéias como O Socialismo ou Gaia vão diretamente destruir todas as manifestações concretas dessas antigas cosmovisões. Considero a produção de culturas mais humanitátios um passo importantíssimo para uma mudança estrutural, mas me parece que o mais importante é a mudança em si de cada manifestação concreta dessas ideologias, sendo nomeadas e repensadas, como a substituição pelo combustível do hidrogênio, a Reforma Agrária, o biogás, a reciclagem do lixo eletrônico, o mercado agrícola local, metrôs movidos a energia elétrica, energia solar caseira ou o transporte a pé. O Marx disse que as forças produtivas é que criam a cultura, e não o contrário, e é desse conhecimento que a gente tem que se apropriar para agir mais diretamente.
A crítica à insustentabilidade envolve também uma crítica ao capitalismo, e isso o Lutz apontou de forma magnífica: o mercado é cego às necessidades humanas. A mão invisível que rege o mundo esmaga os humanos que considerar inúteis, que não tiverem como contribuir monetariamente com o sistema ou que se coloquem no caminho dos recursos qeu a mãe desejar pegar: velhos, índios, pobres, povos excluídos do mercado que detém recursos naturais em seu território... Novas necessidades humanas são impostas em função dos produtos oferecidos e necessidades básicas são negligenciadas por não serem lucrativas. Uma fábrica polui o rio que alimenta determinada vila e, sem ter o que comer e sem a mínima noção de seus direitos constitucionais, a vila se submete a trabalhar na parte mais arriscada, imbecil e alienante da linha de produção por um valor salarial ínfimo, para então comprar a água que conseguiria de graça e mais limpinha. A consciência têm dois papéis fundamentais aí: da parte da vila, de conhecer seus direitos e como se organizar politicamente, o que só é possível com determinadas formas de acesso à educação; da parte dos cidadãos externos à isso, conhecer a origem dos produtos que são vendidos em sua cidade e não consumir dos mesmos, a fim de que essa máquina quebre e a fábrica seja forçada a sair de lá. Para proteger essa vila, penso em duas opções: Estado de Bem-Estar Social e Previdência Social ou Auto-gestão. Novas sugestões são muito bem-vindas, mas pretendo deixar essa discussão para mais tarde.
Esse exemplo da vila retrata bem uma das grandes polêmicas silenciosas da atualidade que é sobre a quem pertence a terra (ou Terra?). Pertence ao Estado, ao povo que ali está, a cada indivíduo em particular, a quem chegar primeiro? Como distribuir e como atribuir valor a cada pedaço de terra? Por extensão, localização geográfica, riqueza do dono anterior, produtividade, biodiversidade, oferta e procura? Enquanto não se refletir e não se entrar em consenso sobre isso, a Reforma Agrária não será possível e os direitos das populações de fora do mercado permanecerão constantemente violados, e o mercado se apropriará dos pedaços de terra e vai fazer isso que a gente vê acontecendo. A população urbana já nem sabe mais o que é terra, e a população rural só sonha com isso. As entradas são proibidas, é tudo muito longe, o dono é desconhecido. A ONU não dá palpite e as universidades fecham os olhos, e nem o opressor nem o oprimido cogitam a hipótese da democracia e da equalidade.
Segundo tradições indígenas que o Lutz admira bastante, não são os humanos que detém a terra, mas ela que detém os humanos. Com isso eles convocam a pessoa a um apego à terra e à responsabilidade de preservá-la e cultivar sentimentos normalmente direcionados apenas a humanos(e olhe lá!), como respeito e devoção. Tenho minhas dúvidas de que essa idéia seja apenas discurso e não práxis, pois povos tribais também fazem guerra e destroem a Natureza, como disse o Jared Diamond. Mas se essas culturas pagãs, de devoção à Natureza, também envolvem práticas sustentáveis, certamente são idéias que precisamos incorporar. Tenho certas ressalvas quanto à visões místicas, ainda mais quando se existe a promessa de que são a única salvação, e considero perfeitamente possível atribuir valores mais positivos à Natureza a partir de uma visão secular, mas nada contra as pessoas considerarem a Terra uma divindade, o importante é que não se trate os nossos recursos naturais como dispensáveis ou passíveis de exploração. O Lutz sintetiza essa ética ao dizer "nós não herdamos a terra de nossos pais, nós a pegamos emprestado de nossos filhos e netos". É uma subversão do nosso conceito de propriedade.
Alguns ambientalistas não chegam a defender um valor transcendente para a Natureza, mas apontam a experiência estética como a chave para o despertar da consciência e proteção ambiental. Sou cético enquanto a isso, pois me parece muito fácil que as pessoas aproveitem as delícias da Natureza, achem o mar superagradável e as borboletinahs voando a coisa mais lindinhas, mas continuem alienadas dos processos de produção e consumo, e assim as pessaos vão pra praia e compram suas garrafinhas de Coca-Cola para apreciar a vista e o vento. Confio muito mais na divulgação da ciência como forma de conscientização, pois as pessoas querem e precisam de informação sobre como é o mundo, como descobrir, o que fazer e como fazer. A divulgação científica intrumentaliza teoricamente as pessoas, os torna mais céticas e investigadoras, e amplia os horizontes do conhecimento, da procupação e do poder da pessoa. Precisamos saber o que fazer, como intervir e como desenvolver tecnologias, para que faça sentido nos preocuparmos com a destruição ambiental - ou não passaria de uma falta de esperança sobre uma catástrofe iminente. Para isso, precisamos popularizar a ciência, principalmente as ciências ambientais - de fato, a grande maioria dos livreos de divulgação científica é sobre evolução ou neurociências, que, por mais que sejam interessantes e importantíssimos para a educação científica e desenvolvimento da ciência, não me parecem tão urgentes quanto as ciências da terra.
É importante reconhecer esse papel da ciência. Sem esse conhecimento, nem saberíamos a amplitude dos problemas ambientais, nem de onde vem, e nem teríamos feito nada a respeito. Alguns grupos fazem passeatas, mas outros estão pesquisando e desenvolvendo eco-techs. O lutzenberger aponta que ciência e tecnologia são a principal fonte de poder no mundo moderno, e a maior parte da população é iletrada em ciência e tecnologia. Ou seja, vivem em um mundo cheio de equipamentos dos quais usufruem, mas que não sabem como criá-los, nem de onde vem, nem quem está ganhando com isso e pra quê, e assim consomem mais e mais simplesmente porque está no mercado.
O Lutzenberger trabalhava com educação ambiental através de seu sítio, o Rincão Gaia, que é um lugar bem bonito, tranqüilo e com bichinhos. No evento, compareceu um trabalhador e representante do Rincão Gaia, e fizemos perguntas para ele. Eu queria saber se existia pesquisa e publicações sobre o modo de produção agrícola promovido no Rincão Gaia, e ele deu a antender que não. Mas foi decepcionante ele dizer que eles criam e abatem aimais lá, porque o Lutz dizia que não tinha problemas se a criação fosse sustentável e o abate, indolor. Nunca vi nenhum estudo bem feito mostrando como se faz uma criação de animais para consumo de forma sustentável. Pior ainda, nunca vi nenhuma justificativa ética que preste que aponte para um assassinato não-consensual humanitário, como muitos defensores do bem-estar animal propagandeam. Aparentemente, a filosofia desses ambientalistas defende a preservação dos números que eprmitem o equilíbrio do ecossistema, e não necessariamente com os sujeitos coexistentes nesse ecossistema.
Esses que eu chamei de ambientalistas softcore não sustentavam nenhuma crítica ao sistema pecuário - pelo contrário, a defendiam como uma opção ao plantio de pinus e eucaliptos, e finalizavam com a piadinha esdrúxula de que gostam de uma picanha. Nenhuma criação massiva de gado pode ser sustentável, pois envolve desmatamento, consumo exagerado de recursos e poluição dos rios e da atmosfera, além de gastos com transporte e refrigeração. Enquanto esses ambientalistas não atacarem a própria estrutura da pecuária, o aquecimento global continuará aumentando. A mudança deve ser na estrutura econômica, não simplesmente na consciência.
*Levei muito tempo escrevendo esse post, entõa talvez esteja meio solto, assim...
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
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