sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O progresso é frio como uma navalha

Textinho publicado no jornal do Diretório Acadêmico de Psicologia da UFRGS de outubro/novembro/2008:


O progresso é frio como uma navalha

No dia oito de outubro de 2008, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, a Fundação Osvaldo Cruz e as Faculdades de Farmácia do país inteiro fizeram muita festa, regada a muitas risadas macabras e talvez até drogas que eles mesmos adoram desenvolver. Tudo isso pela aprovação de uma lei. Talvez eu esteja exagerando, e eles não tenham feito tanta festa assim: pra falar a verdade, a lei foi aprovada silenciosamente. E o silêncio maior foi aquele dos mais afetados pela lei: os animais nas universidades.
Esses animais que eu estou falando não são os que vão todos os dias para a sala de aula, e que se reúnem em vários pequenos grupos primatas para exercitar suas habilidades lingüísticas, mas os que não têm a mínima idéia do que raios que estão fazendo naquele gelado laboratório com o crânio aberto e uma sensação estranha produzida por alguma mágica droga sem o seu consentimento. A Lei Arouca (11794/08), que tramitava há dez anos no Senado, regulamenta nacionalmente a experimentação animal nas instituições de pesquisa e ensino, padronizando os comitês de ética e que tipo de experimentos com animais podem ser aprovados ou não. Na prática, isso quer dizer que quem trabalha com experimentação animal ganhou um baita respaldo jurídico, e que os animais criados em biotérios terão o mesmo destino no país inteiro, sem entraves. Tudo isso apenas com a pressão dos representantes da nossa classe de cientistas, sem o mínimo diálogo com a sociedade civil. De fato, apesar do que o Senador Cristovam Buarque respondeu no e-mail que mandei para ele, não houve diálogo com NENHUMA organização de defesa dos direitos dos animais (Veddas, PEA, Gato Negro, Tribuna Animal, GAE, InterNICHE). Foi simplesmente a SBPC sussurrando no ouvido dos doutos senadores. Uma decisão secreta e anti-democrática, o que faz muito sentido em uma nação que proíbe acadêmicos de discutirem sobre legalização da maconha e reprime pelas armas qualquer tipo de movimento social que clama por terra, liberdade ou dignidade. Mas como nós não somos patriotas, e temos um espírito crítico relativamente afiado, o fato de violência e falta de democracia serem fortes tradições em nosso país não justifica lhufas. Não são só adolescentes sentimentais que gostam de cachorrinhos que combatem a experimentação animal, situação que os “cientistas” alegam para dizer que quem tem que decidir sobre experimentação animal tem que ser os que estão informados, ou seja, “cientistas”. Coloco “cientistas” entre aspas porque não admito que a vontade desses idiotas sedentos por patentes farmacêuticas e linhas no currículo lattes e sem a mínima capacidade de reflexão epistemológica ou ética seja colocada como representando a classe da qual fazem parte gênios humanistas como Carl Sagan e biólogos revolucionários e proponentes do Great Ape Project, como Jane Goodall e Richard Dawkins, e muitos outros cientistas honrados que preferiram ir para áreas como agicultura, climatologia, energias limpas, ciências sociais, economia, biologia da conservação e (por que não?) psicologia, para contribuir para o progresso do conhecimento e da sociedade, em vez da torturar inocentes ratinhos e sustentar sujos biotérios. A audácia desses idiotas em se apresentarem como a voz de toda a classe dos cientistas faz com que acadêmicos e profissionais mais preocupados com saúde, educação e não-violência criem instituições que realmente os representam, como Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), Ethical Science and Education Coalition (ESEC), Humane Learning, Humane Society of the United States (HSUS), National Anti-Vivisection Society (NAVS), Novivisezione - No Vivisection, Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM) e, quem diria, Psychologists for the Ethical Treatment of Animals (PsyETA). O nó Ciência e Direitos dos Animais é bastante forte no hemisfério norte, como dá pra perceber. Lá a discussão transcende a ridícula dicotomia proteção animal x progresso das ciências da saúde, pois aparentemente os cientistas do hemisfério norte são mais criativos para imaginar métodos rigorosos de investigação que não explorem animais (os tais métodos alternativos), já que a discussão que importa é: queremos uma Ciência humanitária e não violenta ou não? O preocupante não é a tecnologia e o acúmulo de conhecimento (pelo menos enquanto não formos atacados por uma ditadura religiosa e obscurantista), pois essas coisas vão se desenvolver de qualquer jeito, matando ratinhos ou não. A questão é: que tipo de educação é essa que legitima a violência dentro da instituição máxima do saber? Que tipo de civilização a vanguarda do saber está construindo dessa forma? É isso que queremos que nossos jovens cientistas aprendam?
Agora, com essa nova lei, a ideologia do bem-estarismo e da experimentação animal será ainda mais forte, com todo um respaldo jurídico, acadêmico e midíatico, capando com uma navalha as tentativas legais de se defender a dignidade desses animaizinhos explorados e maltratados e assim vai morrendo até mesmo o espírito crítico e a reflexão filosófica da nossa tão capenga academia. Qualquer vestibulando que espera transgredir as fronteiras do pensamento ao entrar na universidade irá se deparar com professores acomodados cortando suas asas e dizendo que induzir um cão ao desamparo aprendido ou arrancar o coração de uma rã viva para ver a maravilha da noradrenalina agindo é ético porque é respaldado por lei, e porque todo mundo faz. O assassinato de inúmeros seres sencientes mata também a possibilidade de uma afiada formação filosófica para os cientistas. Essa sim é uma dicotomia na qual os dois lados não podem coexistir, e cada cientista vai ter que escolher o seu e decidir que tipo de progresso se quer.

Bruno Graebin de Farias, futuro cientista de verdade

Um comentário:

  1. Quem te garante que ele será publicado mesmo? =P



    Claro que vai, tô só te sacaneando.

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