Nesta semana, do dia 25 ao 29 de janeiro de 2010 ocorreu na Grande Porto Alegre a décima edição do Fórum Social Mundial, grande evento a nível internacional que busca articualr os movimentos sociais e pautar ações de construção de um outro mundo possível, no qual sejam superadas as injustiças. Paralelamente ao Fòrum Social Mundial, e juntando forças, aconteceu o Acampamenot Intercontinental da Juventude, cujo objetivo é o mesmo, mas com uma estrutura diferente. Enquanto o Fórum consistiu de diversas atividades, algumas programadas pela organização, como os seminários internacionais, nos quais grandes intelectuais do Brasil e do mundo discursavam sobre as conjunturas atuais, e muitas oficinas e debates propostos pelas instituições e movimentos sociais, o AIJ consistiu em um acampamento no qual estavam previstos diversos espaços para juntar tribos com interesses em comum, como o Espaço Saúde, a Cidade Hip Hop, o Mundo pela Diversidade e a Ecoaldeia da Paz, no qual ocorriam diversas atividades, vivências, debates e palestras, e que era possível muita interação humana. Neste contexto, perdemos um pouco do caráter de fórum e ganhamos muitas oportunidades de vivenciar estilos de vida diferentes. No Acampamento Intercontinental da Juventude nós vivemos outros mundos possíveis.
Meu objetivo ao participar do AIJ era basicamente conhecer pessoas, debater politica e construir redes de contato, objetivo este que foi satisfeito maravilhosamente. Ainda que houvesse um número expressivo de pessoas interessadas exclusivamente em jogar papo pro ar e fazer festa, muitas pessaos foram com o propósito de construir redes e se articular enquanto movimentos sociais. Alguns desses movimentos sociais lamentavelmente apresentavam idéias bastante ingênuas e não muito produtivas em um sentido social, defendendo ideologias de um contexto de Guerra Fria pautadas no combate a determinadas classes sociais e defendendo como estratégia única a mobilização das massas. A minha perplexidade quanto a quantidade de pessoas defendendo essas idéias no que era para ser o maior evento mundial de debates de alternativas ao neoliberalismo selvagem clama por uma análise mais detalhada dessas idéias e do porquê eu estaria classificando elas como inadequadas e antiquadas.
Começamos pela proposta do FSM, que acaba por ser a proposta do AIJ também: propor alternativas ao modelo neoliberal. Isto significa que já temos um ponto de onde iniciar, que é uma crítica, e temos que propor utopias e, a partir destas, compor práticas - mais especificamente, práticas econômicas que valorizem as pessoas e levem à justiça social. Mas o que tem de prático em "combater a burguesia imperialista"? É para fazer inimigos no FSM, em vez de alianças? O que as pessoas inseridas na burguesia tem de poder e responsabilidade em relação ao imperialismo? O que é imperialismo? Como se combate o imperialismo? Mobilizando as massas? Dando palavras de ordem? Fazendo passeatas? O que tem de prático e economicamente revolucionário no grito e na pregação ideológica? A nossa causa é mesmo em relação ao imperialismo ou ao capitalismo? Por que não em relação ao meio ambiente, à educação pública de qualidade ou aos direitos humanos?
Em Histórias do Século XX (2000), Daniel Aarão diz que a pós-modernidade se inicia com a diversificação das lutas sociais, que transcende a luta de classes e contra o Capital e dá lugar a diversas micro-lutas: movimento queer, luta feminista, luta animanicomial, movimento ambientalista, pacifismo, direitos humanos, cultura livre, neotribalismo, etc. Neste contexto, não só por inadequações conceituais, mas também por ignorar todo o resto do mundo, essas lutas de cartilha contra o Capital são ideologias que emperram uma discussão mais produtiva em prol da justiça social, e encontramos a verdadeira riqueza de idéias, estilos e práticas em todas estas micro-lutas. São essas idéais novas que eu queria encontrar no FSM, e que apesar da tristeza de também encontrar as idéias da Guerra Fria ali, encontrei muitas idéias boas. Participei de debates sobre política e terapêutica de drogas, desconstrução da identidade de gênero e de conversas sobre a rede de agricultores que cultivam juçara, planta nativa semelhante ao açaí, que é um símbolo da vanguarda da soberania alimentar gaúcha.
Contudo, apesar da grande diversidade de tribos e de idéias, tive a impressão de que as idéias não circularam. Pelo que observei, fui um dos poucos a se dar ao luxo e ao desafio de circular pelas diferentes tribos, acompanhar suas causas e conhecer seus estilos de vida - a maioria dos acampados permaneceu em grupos fechados com os quais já estavam identificados.
Dentre essas tribos, a que pareceu mais singular e à parte foi a Ecoaldeia da Paz, que tem a característica excepcional de já ser um movimento organizado e itinerante, com muitos de seus habitantes vivendo permanentemente com a Ecoaldeia da Paz, e que, em vez de ser um espaço constituído no AIJ, é um movimento integrado que veio ocupar um espaço e mostrar sua utopia viva para os participantes do acampamento. Observei que os participantes da Ecoaldeia da Paz não fizeram questão de visitar outros espaços do acampamento, mas se mostravam abertos a acolher, aceitar e até compartilhar alimento com quem qeur que quisesse partilhar da experiÊncia de viver no sistema da Ecoaldeia da Paz. A Ecoaldeia era suficiente em si mesma, e rica e abundante, de forma que transbordava visibilidade através de suas músicas, shows, rituais e danças circulares, conhecidos por todos no acampamento. A Ecoaldeia é uma utopia viva, uma comunidade intencional pautada na absoluta solidariedade e no respeito sagrado à natureza, e apresenta-se como a mais concreta e organizada alternativa ao modelo neoliberal nestes anos todos de Fórum Social Mundial, com propostas práticas e estruturadas das quais pudemos observar: cozinha comunitária vegana, banheiro seco, assembléias populares pautadas no direito à palavra e à escuta respeitosa, comissões voluntárias para desempenhar tarefas específicas e temporárias, mutirões de construção e mediações e rituais de apaziguamento, permacultura, espaços de troca solidária e um dispositivo de cuidado das crianças pautado no voluntariado, no respeito à criança, an liberdade e no contato com a natureza. Esta é uma alternativa ao neoliberalismo que não passa pela revolução, mas pela comunidade intencional. Não se trata de realizar passeatas ou lutar no campo político, mas simplesmente de viver, celebrar e ser solidário com quem precisa, em ações simples como construir fornos-foguete ou composteiras em pequenas propriedades rurais.
Além de apresentar alternativas concretas ao neoliberalismo, a Ecoaldeia da Paz chama a atenção por sua unidade, integração e pela afinação de todos os participantes com os valores sustentados pela comunidade, valores pautados no pacifismo, na solidariedade, na adoração da Natureza, na liberdade pessoal, an tolerância e no comunitarianismo. Como pode uma comunidade, na qual circulam muitos estranhos alheios a estes valores, e que não têm nenhum aparato de controle na sociedade, manter a coesão e a coerência entre suas idéias e as ações de cada membro da Ecoaldeia da Paz? Percebi que a sua coerência e integração são produtos de uma das atividades que, no início, via como das masi desnecessárias e despropostiadas em qualquer sociedade humana: os rituais e canções que afirmam e reafirmam so valores dribo. São estas atividades ritualísticas/lúdicas/artísticas que remetem as pessoas às suas identidades como integrantes da tribo, desta tribo que é a Ecoaldeia da Paz, e qeu mostram o caminho a seguir e os valores a obedecer. É desta forma que se lembra que alguém deve se voluntariar para cuidar das crianças naquela tarde ou até para mediar e apaziguar um conflito, dissolvendo a discórdia em perdão ao remeter a essa identidade e a esses ideais maiores que transcendem as contingências e interesses individuais.
Estas atividades que trazem visibilidade e que são aparentemente não-funcionais - rituais, celebrações, músicas, shows - produzem ainda um outro efeito além da coerência entre idéia e ação e coesão social: elas divulgam os valores e o estilo de vida da tribo para todos os que não fazem parte dela. A estratégia da Ecoaldeia da Paz de transformar o mundo à sua volta consiste na divulgação de seu estilo de vida, em vez de centrar-se em combates ou argumentos. Trata-se não só da propaganda pelo ato, mas também da expressão dos valores, estilo de vida e visão de mundo através de sua arte, em especial pela música e pela dança circular.
Pareceu-me que muitos dos acampados estavam mais interessados em conhecer formas melhores de viver, conhecer pessoas e receber a transmissão de alguma sabedoria do bem-viver, do que em debates sobre estratégias e propostas políticas e econômicas como alternativas ao neoliberalismo. Devo confessar que meu propósito no AIJ consistia em conhecer pessoas, construir redes e alianças e aprender, e não havia nada de prévio em termos de ideologia, discurso ou ação que eu tive intenção de trazer ao acampamento - e que este meu objetivo foi satisfeito plenamente. Contudo, em um determinado momento comecei a pensar que, neste evento, absorvi muito mas não retribuí nada, ou quase nada. Eu não havia levado butiá, nem panfletos, nem jornais, não promovi nenhuma roda de conversa sobre nada e sequer comentei com outros sobre alguma militância que eu tivesse. E eis que então aprendi mais um hábito revolucionário neste outro mundo possível que foi o Acampamento Intercontinental da Juventude - sobre a importância de, onde quer que eu vá, que eu traga algo de bom para o mundo.
Bruno Graebin de Farias
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