
Trabalhar mais de oito horas por dia é desumano. Isso segundo a escola de pensamento trabalhista que tem voz na legislação. Outras escolas de pensamento, como o do anti-trabalho, consideram que o trabalho por si só é desumano e extrai dos indivíduois as forças que poderiam ser usadas para o ócio e o lazer. O modelo neoliberal exige que os trabalhadores invistam cada vez mais tempo e energia a fim de sobreviver no mercado altamente competitivo, perdendo em humanidade e ganhando em produtividade. As pessoas correm para se adaptar ao sistema, mas considero importante parar para pensar em qeu tipo de sistema se quer viver. Viver para trabalhar, é isso o que queremos?
Se essa pergunta foi feita a um workaholic, a resposta é sim. Workaholics são pessoas viciadas em trabalho que trabalham o máximo de tempo que lhes for permitido e sentem-se muito insatisfeitos quando não estão trabalhando. Esse quadro apresenta vários sintomas psicopatológicos, como insônio, surtos de raiva, stress ou depressão, o que nos faz pensar que é uma subjetividade desumanizada e sofrida. Alguém que deveria trabalhar menos e fazer outras atividades, em vez de viver nesse regime de escravidão.
Mas e se o trabalho é realmente uma grande fonte de prazer? Se a pessoa é movida pela paixão,
Trouxe esse exemplo porque romantizo bastante essa imagem. Realmente gosto dessas loucuras de passar muito tempo em torno de uma única atividade que faça sentido e seja produtiva e prazeirosa para mim. Acho muito bonito, útil e interessante ficar dias e dias envolvido somente com o estágio de vivência, ou com a banda, ou com a história em quadrinhos, com o filme, com a redação de um livro, a leitura de um livro, o kung fu, a greve geral, a perseguição dos baleeiros, enfim. Parece que isso dá um sentido para a vida e uma sensação de integração, e que tudo vai fluir nesse sentido. Mas parece que o trabalho precisa realmente fazer sentido e ser fonte de prazer, senão, esse mesmo regime sem essa motivação seria simplesmente torturante e alienante.
Esses trabalhos que citei exigem a dedicação de corpo e alma, em vez do 'bater ponto' típico da sociedade capitalista. O trabalho enquanto obra de arte exige o ócio e a dedicação apaixonada à obra, que seria o projeto definido pelo próprio artista. Isso, por sua vez, contraria a política do trabalho enquanto obrigação e enquanto necessidade de renda, e se torna atividade lúdica, só que mais séria e com um toque de loucura.
Um toque de Augusto Boal:
"Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à sua arte -- é seu direito ou condição! --, mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida"
Brunão, aquele livro que eu estava lendo, "A Descoberta do Fluxo", falava justamente sobre isso (pelo menos em parte)!
ResponderExcluirBom, como eu já te falei porcamente no caminho pra lanchonete da Escola Técnica, existem três tipos gerais de atividades: trabalho remunerado, lazer e manutenção. No trabalho se ganha dinheiro, no lazer a gente se diverte e na manutenção a gente mantêm nosso corpo e nosso ambiente em ordem (escovar os dentes, limpar a casa, comer...)
E, basicamente, os seres humanos encaram estas atividades de três maneiras: fazem por que gostam, por que precisam ou por que não tinham nada melhor por fazer. Nas pesquisas que o autor do livro cita, chegou-se a conclusão que, em média, as pessoas não se sentem mais insatisfeitas por fazerem algo por dever, mas por que não tinham nada melhor por fazer. Em outras palavras, é mais fácil ficar feliz trabalhando por que se precisa de dinheiro do que assistindo TV no domingo por que não tem mais nada pra fazer (essa é a origem da chamada Neurose Dominical).
Uma das questões que ele aborda no livro é justamente essa questão de "tempo livre vs. trabalho", não tanto dessa perspectiva socialista (o departamento 02 tá te influenciando demais, garoto), mas pensando mais se mais tempo livre é problema ou solução. Bem, para ele, tanto faz. A questão é se o trabalho ou o lazer/hobby nos torna pessoas melhores.
O livro tem um capítulo intitulado "A Personalidade Autotélica". Telos em grego significa "meta", e autotélico seria algo que é uma meta em si mesmo - uma pessoa autotélica faz as coisas por si próprias. Em geral, essas pessoas são mais satisfeitas com a própria vida do que as demais, em grande parte por causa de sua capacidade de gostar do que faz, não fazer só o que gosta.
Enfim, resumi um pedação enorme do livro, e talvez tenha até dado uma distorcida não intencional.
A neurose de domingo eu costumo chamar de "domingueira" e volta e meia rende bons posts no meu blog! HEHEHEHE
ResponderExcluirMas quanto ao post do Bruno, eu pensei em uma coisa que pode reunir alguns dos teus ideais! Eis a idéia: faz uma história em quadrinhos sobre a perseguição dos baleeiros, mas uma perseguição do Ahab! Tipo assim, um cara tão obcecado quanto o Ahab é por caçar a Baleia Branca, mas no caso ele é obcecado por caçar e prender o Ahab! HEHAEHA XD