
Para uma aventura, nos dispomos a correr riscos, dormir mal, gastar dinheiro. Investimos muito dinheiro numa aventura. As pessoas pagam por viagens, festas, horas no campo de futebol, acampamentos e mais uma infinidade de atividades divertidas. Mas para investir nessas atividades, precisamos de dinheiro, e, para isso, temos que trabalhar. Se no trabalho não se investe tanto e não nos dispomos a tanto, ele não é tão divertido, então temos o seguinte esquema: fazemos coisas chatas para ter dinheiro para fazer coisas legais.
Isso nos traz a outra questão. Cada vez mais a renda média aumenta, em função da mobilização do capital e outros fenômenos econômicos, e cada vez mais aumenta a necessidade desse aumento na renda média para consumir a variedade crescente de produtos. As pessoas ficam dependentes do dinheiro, porque são dependentes dos produtos. São dependentes desse dinheiro porque não estão vivendo uma aventura. Estão entediadas.
Numa situação de aventura, o dinheiro não importa. Ele não é necessário, porque não precisamos comprar nenhum tipo de artefato para nos divertirmos. Toda a diversão está no ar. Os artefatos comprados com o dinheiro do nosso trabalho são uma forma de compensar o desprazer do trabalho, de uma vida tediosa e um cotidiano alienante. As pessoas não se envolvem com seu dia-a-dia, por isso tentam escapar de qualquer forma, gastando o que tiverem para ter um pouco de felicidade e distração, longe do resto do dia. Trabalham justamente para fugir do trabalho, e nessa equação, o resultado acaba sendo zero.
Se as pessoas vivessem vidas de aventura, todos achariam esse anúncio da Sea Shepherd Conservation Society a coisa mais natural do mundo. Marinheiros não precisam de dinheiro.
Simplesmente não poderia concordar mais contigo.
ResponderExcluirMuito bom, muito bom. Mas será que realmente não precisamos de dinheiro em uma aventura? Por que é que os marinheiros cobram salários, então? Eu sei que a tua idéia não é fazer uma tese científica séria e justificada por Fulano et al., mas acho que aí existe uma romantização da aventura. A começar pelo imperativo que é prover as nossas necessidades básicas. Segundo, as aventuras não são eternas, pois prolongá-las indefinidamente eventualmente faz com que elas deixem de ser aventurescas. Mas eu acho que se tu contornar um pouquinho a questão específica da aventura e expandir para uma idéia de uma prática espiritualmente gratificante, então teu ponto permanece muito válido. Eu penso parecido contigo sobre isso, tu sabe.
ResponderExcluirAventura: uma prática espiritualmente gratificante! O que nos faz (ou faz alguns, melhor dizendo) deixar para trás confortos e seguranças para por o pé no arriscado aventurar-se?
ResponderExcluirHá algum tempo, sentia que tinha que assistir ao filme "Na Natureza Selvagem" (Into The Wild). Fui (fiz um grande esforço, diga-se de passagem) e valeu muito! Ao chegar em casa, escrevi um texto e ainda foi pouco pra dar conta do tanto que fez sentido! Comprei e li o livro no qual foi baseado o filme (homônimo).
Eu poderia escrever o que penso de uma maneira menos "eventureira" sobre esse tema? Acho que não! (na real, não escrevi nada, apenas dei uma indicação de filme e de livro e uma idéia sobre do que se trata)
Por mais que eu credite um certo valor à aventura, ainda assim há limites. Quando se traça uma oposição entre uma vida tediosa e a aventura, isso com certeza ajuda a clarear as coisas, mas ouso propor algo mais. Conforme o Marcelo, viver sempre na aventura tiraria seu caráter "idealizado" e concordo com ele. Mas o que venho acrescentar é que me parece, mais importante que a "aventura" radical, como mais comumente a entendemos não é NECESSÁRIA para uma vida significativa, não tediosa. O que se deve, a meu ver, pautar nossa vida, devem ser ad recorrentes perguntas: "o que eu quero da vida? O que eu realmente preciso pra VIVER? A que posso estar PRESO? Estou mesmo?".
Ler esse livro que citei me fez pensar bastante nisso. Além disso, me vem à mente, outro filme que pode nos amparar nesse tipo de reflexão: "Minha Vida Sem Mim". A protogonista, no meu entender, mesmo sem ter conhecido outros lugares, sem ter se aventurado (no sentido "senso comum" expresso acima", sendo sempre pobre, ralando smpre e prestes a morrer, dá uma lição sobre como VIVER uma vida SIGNIFICATIVA.
Não vou me alongar mais. Se puderem, assistam, pensem e, de preferência, escrevam!
Culau.