terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ser psicólogo e ser humano normal

Tenho me deparado nos últimos tempos, em função da minha intensa vivência de estágio na rede de São Lourenço do Sul e do crescente envolvimento da minha turma de Psicologia com a prática em saúde mental, com a relevante, mas às vezes torpe, discussão ética sobre o contato que temos com as pessoas durante nossa prática de terapia e o contato com essas mesmas pessoas fora do cenário terapêutico. Ou seja: como se portar ao encontrar na rua, em um bar ou no supermercado, um paciente seu?

Primeiro a gente tem que pensar o porquê essa é uma questão. Essa é uma questão porque a prática em psicologia dentro de um setting terapêutico é considerada distinta da prática de outras profissões, como enfermagem, medicina, docência, odontologia, comércio e vendas, secretariado e outras. Isso porque consideram que ela trata de problemas de uma esfera qualitativamente diferente de todas as outras práticas e profissões: a esfera privada e simbólica do paciente, com seus medos, neuroses, angústias e segredos que não devem ser coletivizados. A partir daí, pensa-se que o contato que o terapeuta e o paciente tenham fora desse cenário profissional seja já uma exposição desses segredos e neuroses do paciente. Essa exposição, além de condenável, comprometeria o vínculo, a transferência e toda a relação terapêutica daí em diante.

Esse é um pressuposto geral em qualquer psicoterapia que se aprende na Universidade. O que não nos ensinam é que esse pressuposto tem uma orientação teórica muito bem rígida: a psicanálise. A teoria psicanalítica supõe que para o bom andamento da terapia, ou análise, como é chamada, é necessário que ocorra a transferência do paciente para o terapeuta, aliada à idealização do terapeuta como detentor de um saber especial sobre seus processos inconscientes. Por isso, perceber o terapeuta em outra situação que não a de análise seria desidealizá-lo, e, portanto, desandar no processo terapêutico/analítico (estou aqui equiparando psicoterapia e análise, mas elas posuem algumas diferenças). Ou seja, reconhecer o terapeuta como um ser humano completo seria improdutivo e disfuncional para a terapia. Isso significa que o terapeuta deve evitar a todo custo que paciente e terapeuta não se encontrem fora da situação de terapia, controlando, vigiando e até reprimindo suas próprias condutas ou exposições, a fim de manter a boa relação de trabalho. Assim, o terapeuta tem medo de que ele seja desidealizado, e o paciente tem medo de que ele seja analisado publicamente ou exposto em seus segredos e associações livres pela conduta do terapeuta em um cenário qualquer. Supondo que a resposta imediata do contato entre a pessoa que é terapeuta e a pessoa que é paciente será a análise e interpretação, obviamente.

É importante deixar claro que essa conduta ética que aprendemos na Universidade deriva já de uma posição teórica, que é importante que seja questionada e que nos sintamos livres para pensar outras formas de encarar essa situação-problema. Um amigo meu das Ciências Socias da USP me inspirou a essa reflexão e crítica ao contar como na sua faculdade existe um tabu em relação a expor a própria posição política em sala de aula por parte do corpo docente. A justificativa é que expor a sua posição política é ser ideológico, em vez de técnico, o que seria uma falta de profissionalismo. Esse é um pressuposto weberiano, de que deve-se burocratizar e impessoalizar as relações profissionais, a fim de que sejam funcionais e ideais, e que todos seguem, independente de serem weberianos, marxistas ou pós-modernos, simplesmente por não investigarem epistemologicamente suas próprias condutas. Essa suposição difere radicalmente da do paradigma marxista, por exemplo, na qual docência e militância fazem parte de um mesmo processo, a práxis, que consiste na ação consciente voltada para a construção de uma sociedade sem classes. No entanto, como eu disse, até esses marxistas são, no âmago do seu ser, weberianos.

O mesmo acontece com os não-psicanalistas, que também se esforçam por manter a relação terapeuta-paciente o mais distante possível de uma relação humana normal e saudável. Vimos que existe uma justificativa teórica e um propósito técnico para essa conduta, mas também existe um propósito ideológico. O Alfredo Moffat mostra o comprometimento ideológico desta prática dos terapeutas com a disseminação dos valores burgueses, de distância, frieza, troca comercial e etiqueta, que são contrastadas com o que ele considerou as condutas proletárias, que envolvem piadas, toques corporais, conversas calorosas e irreverência, e como esse comprometimento ideológico da terapia é naturalizado, e justificado teoricamente como demonstrei anteriormente.

No entanto, com a maravilhosa experiência que tive em São Lourenço do Sul, onde a Reforma Psiquiátrica está bem implementada e existe uma postura bastante peculiar entre os profissionais da saúde mental dessa cidade, pude ver que existem diferentes formas de ser profissional e ser humano, e que é possível ter uma relação descontraída com um paciente, e até brincar com ele na rua ou encontrá-lo numa festa, sem perder o saber/poder tão querido aos profissionais. É possível até mesmo segurá-los ou abraçá-los, sem que eles simbolizem ou associem com experiências traumáticas de um Complexo de Édipo mal-resolvido. Envolve também colocar os profissionais psi no mesmo status que outros profissionais da equipe de saúde, que também ouvem os pacientes e sabem sobre eles, e que se envolvem da mesma maneira. Claro, existem condutas específicas do psicólogo, referentes a escuta clínica e a alguns pontos do 'Código de Ética', mas isso não significa que o psicólogo tenha um status e um campo de atuação qualitativamente diferente de todos os outros, como se fosse o único a conhecer a psique do indivíduo, e isso lhe trouxesse um tipo diferente de poder e fardo.

Penso também que é mais importante ser humano e ser competente tecnicamente do que ser idealizado, por causa dos valores que sigo, que são bem diferentes de uma defesa da imagem. Se um dia o paciente ver o seu terapeuta com um namorado na praça, qual é o problema? O terapeuta não pode namorar? O paciente não suporta que ele seja gay? O paciente se sentiu ignorado pelo terapeuta? Longe de ter que reprimir seus desejos e estereoripar suas condutas a fim de preservar uma imagem para o paciente, considero dever do terapeuta expressar-se de forma sincera e saber trabalhar questões como essa com o paciente. Estudamos por muito tempo a importância de se respeitar e tolerar as diferentes subjetividades, e considero que isso nos torna competentes para trabalharmos essas questões caso nossos pacientes não se mostrem tão tolerantes às diferentes subjetividades. Terapeuta tem direito de ser humano, e se o paciente fica complexado por essas coisas, precisa mesmo é trabalhar isso em terapia. É dever do terapeuta tomar a dianteira na defesa da singularidade no cotidiano, e não só no campo teórico ou do discurso, em vez de ajudar a neurotizar o paciente.

9 comentários:

  1. Pois é, esse tabu vai além dos portões da Universidade, e alimenta a crença popular que psicólogo tem o dever de ser emocionalmente estável e controlado. Curiosamente, muita gente que acha isso não acha que médico não deveria ficar doente.

    Gostei da idéia do Moffat, mas acho que ela é incompleta e superficial. Mais do que "disseminar os ideais burgueses", acho que esta prática de agir de forma fria e distante para não desidealizar o terapeuta é mais um mecanismo de defesa do próprio terapeuta, que odiaria ser visto como uma pessoa normal, imperfeita com problemas. Da mesma forma que alguns pacientes poderiam desejar se tratar com um semideus, mas acho que isso acontece bem menos do que nossos professores do departamento de psicanálise acreditam (e querem que acreditemos).

    Eu gosto de duas idéias sobre como encarar a terapia e o terapeuta. Segundo o Harry Stack Sullivan, o psicoterapeuta é um especialista em relações humanas, que é consultado para ajudar alguém a melhorar seus relacionamentos com a família, com os amigos e consigo mesmo. A outra idéia é uma metáfora formulada pelo Steven Hayes, o mentor da Acceptance and Commitment Therapy (ACT - curiosamente, uma terapia de orientação skinneriana!). Nessa metáfora, ele compara o terapeuta e o paciente como duas pessoas escalando duas montanhas diferentes, mas voltadas uma para a outra. O terapeuta, por estar mais distante da montanha do paciente, pode gritar umas dicas do que fazer para continuar subindo. Mas a relação é recíproca, e pode ser que o paciente também grite uns conselhos para o terapeuta. Bonito, né?

    ResponderExcluir
  2. Brilhante!!!!! Eu senti um real prazer em ler este post. Excelentemente bem dito, excelentemente bem fundamentado. Eu não poderia ter feito melhor. E ainda por cima, é uma análise que não tinha me passado pela cabeça. Neste exato momento eu lamento pelos nossos colegas que não leram esse post, pois ele contribuiu para a minha formação.

    ResponderExcluir
  3. Excelente artigo. Tenho oito anos de prática como psicoterapeuta (linha não psicanalítica) e cheguei às mesmas conclusões. Infelizmente falta uma visão crítica para uma boa parte dos que se formam em psicologia e assim aderem sem pensar a esse conceito psicanalítico de evitar os pacientes fora do setting terapeêutico. A transferência é um conceito com a mesma validade científica da transubstanciação (http://pt.wikipedia.org/wiki/Transubstancia%C3%A7%C3%A3o).

    ResponderExcluir
  4. Bah, agradeço ao Bruno pelo belo texto e ao Samuel por ter enviado o link. Bom, creio que tenho bastante a dizer. Como alguns sabem, tenho cada vez mais me embrenhado na TCC (Terapia Centrada no Clente - haha... peguei vocês!), ou, mais amplamente falando, na Abordagem Centrada na Pessoa, proposta inicialmente por Carl Rogers. Nesse sentido, cabe salientar que minha experiência com essa abordagem e com esse "jeito de ser" transcende os livros que li e os grupos de estudo do Instituto Delphos de que participei; eu experienciei por alguns meses a instigante aventura de ser um cliente! E eu senti. Sim, eu senti na pele, no peito, na inteireza do meu ser a diferença! Após algumas outras "tentativas" de terapias, cheguei a um momento muito significativo.
    Mas... o que propõe essa abordagem, afinal?! Ela propõe que, mediante a presença de algumas condições ambientais, a pessoa-cliente libera forças internas que tendem ao "crescimento", à "maturidade". Cabe, então, ao terapeuta propiciar esse ambiente facilitador. Já aí se percebe a diferença: o terapeuta não está num degrau acima; quem direciona o processo é o cliente! O terapeuta é um facilitador! Entretanto, para disponibilizar esse ambiente facilitador, liberador das forças internas do cliente, não basta ao terapeuta a aplicação de "técnicas". Com a palavra, Carl Rogers: "Quanto mais o terapeuta é percebido pelo cliente como sendo genuíno, como tendo uma compreensão empática e consideração incondicional por ele, maior será o grau de mudança construtiva na personalidade do cliente" (artigo "A equação do processo de psicoterapia", in "Abordagem Centrada na Pessoa, John Keith Wood et all (org), p. 105).
    Isso vem diretamente ao encontro da discussão iniciada pelo belo texto do Bruno, ainda que possa não parecer. Como disse, fui cliente nessa abordagem. Mas, além disso, participei de grupos de estudos e o meu terapeuta era "facilitador" nesses grupos. Além disso, como grupo, confraternizamos juntos. Eu realmente senti, percebi o que Rogers escreveu como parte da "equação" da psicoterapia! Eu senti que aquela PESSOA, antes de tudo PESSOA, estava ali, junto comigo e que era autêntica, genuína e que realmente me queria bem! É até difícil de descrever o que aconteceu comigo nesses poucos meses! E outras vezes vi o meu terapauta e a sensação era de uma genuína afeição de parte a parte (ainda que eu eu não possa garantir o que ele estava sentindo, posso responder tranqüilamente pela minha percepção, que é o que realmente importa para o processo terapêutico). Poderia falar mais sobre esse jeito de ser e de fazer terapia, mas creio que o recado está dado.
    Agora vamos a mais uma questão também abordada pelo Bruno: a capacidade do cliente respeitar e tolerar diferentes subjetividades. É que tenho gestado um projeto de pesquisa que leva em conta essa e outras mais questões éticas. Seguinte: tendo como pressuposto que o cliente (pensando na abordagem centrada na pessoa) atinge uma mudança construtiva de sua personalidade no momento em que dispõe de um ambiente em que se vê "livre" para ser ele mesmo, sem ser julgado e sendo empaticamente compreendido e, mais, generalizando o poder dessa "experiência" a grupos de encontros (algo também abordado por Rogers), cabe a pergunta: o cliente ou as pessoas do grupo progrediriam em seu desenvolvimento ético/moral? Essa pergunta passa a ter sentido se temos em mente a teoria do desenvolvimento moral proposta do Kohlberg (não tenho certeza se é assim que se escreve). Ainda que não haja uma correlação perfeita entre crença e comportamente, parece evidente que há uma correlação alta. Assim, meu projeto trataria de testar, por exemplo, dois grupos de encontros baseados no método da apresentação de dilemas morais (como proposto do Kohlberg para a mensuração e desenvolvimento da capacidade de julgamento moral) antes de seu início. Em um deles se trataria de, deleberadamente, aplicar a ACP, criando um ambiente favorável e proporcionando, assim, uma experiência profunda dessas questões e não apenas uma compreensão intelectual/cognitiva. No outro grupo (controle) teríamos uma discussão desses temas dirigida por um professor sem esses pressupostos claros. Após faria-se uma testagem para verificar ou não devergências. É claro que isso é só uma idéia bem geral e, no momento mesmo em que vou escrevendo, já vou identificando limitações à metodologia e à hipótese! Mas, se eu consegui empolgar alguns dos Amoladores de Facas para um projeto nesse sentido, já me dou por satisfeito! Bom... podemos (e seria muito, mas muito bem mesmo se isso acontecesse) conversar mais sobre isso e otras cositas más pelos corredores, intervalos e festinhas da Psico!
    Abração a todos,
    Culau.

    ResponderExcluir
  5. Incrível! Teu texto é instigante, Bruno! O que eu encontro de mais belo na Psi é a possibilidade de mudar o meu olhar/ a minha percepção da realidade. O teu texto produziu algo nesse sentido em mim. Ver o efeito que palavras e idéias bem articuldas têm diante de mim me fascina completamente. Gosto muito de poder dividir essa sensação com vocês. Faço minhas as palavras do Marcelo. Agradeço ao Samuel pelo link e contribuições sempre pertinentes. Ainda to assustada com o quanto o saber técnico que a Universidade nos oferece poder atrapalhar as relações humanas. A cada dia que passa, eu vejo que as idéias que eu tinha antes de entrar na faculdade faziam mais sentido do que as que eu ando escutando entre quatro paredes de um certo Instituto. Não conheço o Harry Stack Sullivan, mas fico feliz de tê-lo 'encontrado' por aqui. Eu quero ser psicoterapeuta no sentido que ele traz da palavra. Gabi Geara ;)

    ResponderExcluir
  6. Bruninho, vou ser menos "verboso" que os outros comentadores... :)
    Minha percepção é que tratas de mais uma das heranças psicanalíticas da qual a psicologia moderna precisa se livrar...
    Só queria pontuar que não considero que as linhas do tipo "subjetividade/singularidade" como as únicas alternativas para o approach psicanalítico.
    bjo

    ResponderExcluir
  7. Concordo com o Jéferson. Certa vez conversávamos sobre isso. Entretanto, mesmo que haja terapias coginitivo-comportamentais funcionais, creio que a ênfase numa relação cliente-terapeuta calcada em um ambiente facilitador, genuíno e, por isso, terapêutico, só tem a ajudar!
    É por essas e por outras que sou um entusiata da ACP.
    Abração,
    Culau.

    ResponderExcluir
  8. Amiguinho Jeff, toda boa psicoterapia leva em conta a "subjetividade", caso contrário, não funcionaria. E Culau, te recomendo que tu pegue alguns livros de TCC para ler, por que ao contrário do que muita gente diz por aí, a TCC leva em consideração a relação terapêutica, tanto que a bibliografia sobre o assunto é extensa.

    ResponderExcluir
  9. Só lembrar que estamos falando de diversar estruturas psíquicas, e que determinada estrutura não supõe um saber no analista. Em relação aos que supõem esse saber, nem por isso o analista deve se colocar neste lugar!
    Meu trabalho de MEDEP do semestre passado aborda um pouco isso... :p

    ResponderExcluir