quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Guerras culturais

Eu estava lendo na Wikipédia um artigo sobre 'guerra culturais (Culture wars), que são os conflitos políticos em função posturas baseadas em valores diferentes, e que dá muita discussão. O que, ao, meu ver, é bastante positivo, enquanto se manter a educação e o diálogo, evidentemente. O mais interessante é que todo mundo tem uma opinião sobre cada um desses assuntos, mas nem todo mundo passou mais de cinco minutos pensando sobre isso ou estudou pontos de vistas diferentes. Querem fazer o teste?
O que você acha sobre:

*Legalização do aborto

*Sexualidade em adolescentes

*Ações afirmativas

*Evolução vs Criação

*Censura em videogames e outras mídias

*Pena capital (pena de morte)

*Proibição do comércio de drogas

*Única língua nacional(na verdade é English-only movement, referindo-se à discussão se o inglês deveria ser o único idioma oficial dos E.U.A., e o único que poderia ser usado em eventos públicos, mas isso pode ser aplicado ao Brasil, Canadá e outros)

*Valores tradicionais familiares (devem embasar a sociedade?)

*Feminismo

*Zonas de livre debate para ativistas políticos, sem censura ou vigilância

*Movimento GLBT, casamento gay e afins

*Redução da maioridade penal

*Política de identidade (manifestações políticas de exigência de direitos de minorias políticas e oprimidos): Nacionalismo negro, Black Power, identidade africana, separatismo negro, nacionalismo latino, nacionalismo do Quebéc, nacionalismo branco, movimento feminista, comunidade gay, veganssexualismo, feminismo radical, femismo, Vegan Pride, direitos dos autistas, direitos dos portadores de necessidades especiais, cultura surda, diabetes, aceitação dos gordos (fat acceptance), identidades baseadas na idade

*Guerra do Iraque

*Imigração para países ricos

*Imigração ilegal

*Desenvolvimento de energia nuclear

*Viés da mídia e controle social

*Absolutismo moral x Relativismo moral

*Ato patriota: Invasão vs direito à privacidade

*Sociedade permissiva

*Idade de consentimento (para o ato sexual consensual)

*Alimentos transgênicos

*Linguagem politicamente correta

*Racismo

*Xenofobia

*Animal Liberation Front e Animal Liberation Millitia

*Etnias e inteligência

*Educação inclusiva

*Política de redução de danos (de usuários de drogas)

*Direito à morte e eutanásia

*Políticas comportamentais de redução à liberação de CO2

*Secularização

*Estado laico

*Oração nas escolas

*Revolução sexual

*Educação sexual

*Pesquisas com células-tronco

*Pesquisas em animais de laboratório

*Programa de vigilância a terroristas

*Desarmamento x direito à propriedade da arma

*Punição para culpados por abuso sexual

*Mulheres no Exército

*Guerra contra as drogas

*Transexualismo

*Guerras Científicas (Cientificismo x Pós modernismo; ciências naturais x humanas)

*Movimento antimanicomial

*Medicalização do comportamento

*Transhumano ( enxertos robóticos, melhoramentos genéticos, drogas de melhora da memória ou atenção...)

*Eugenia, Darwinismo Social e Disgenia

*Crianças de apartamento

*Ato Médico

*Reforma Agrária

E então? Qual a tua opinião?
CONTRA ou A FAVOR?

...
Ou tu pensaste sobre essas questões?

domingo, 7 de outubro de 2007

Alexandre recusa a água

Ok, ok. Isso não é uma idéia minha. Mas é uma história que eu gosto tanto, e que diz muito sobre a personalidade complexa de um de meus heróis favoritos, Alexandre da Macedônia. É, ao mesmo tempo um exemplo de amizade e respeito, e, também, uma das mais brilhantes estratégias para manter uma população sob seu comando. Eu não consigo acreditar que ele era realmente tão passional e impulsivo como dizem.



"Alexandre, o Grande, conduzia seu exército de volta para casa depois da grande vitória contra Porus, na Índia. A região que cruzavam no momento era árida e deserta, e os soldados sofriam terrivelmente de calor, fome e, mais que tudo, de sede. Os lábios rachavam-se e as gargantas ardiam por falta de água. Muitos estavam prestes a se deixar cair no chão e desistir. Um dia, por volta de meio-dia, o exército encontrou um destacamento de viajantes gregos. Vinham montados em mulas, e carregavam alguns recipientes com água. Um deles, vendo o rei quase sufocar de sede, encheu um elmo com água e ofereceu-lhe. Alexandre pegou o elmo nas mãos e olhou em torno de si. Viu os rostos sofridos dos soldados, que ansiavam, tanto quanto ele, por algo refrescante. - Pode levar - disse ele -, pois se eu beber sozinho o resto ficará desolado, e você não tem o suficiente para todos. E devolveu a água sem tomar uma gota. Os soldados, aclamando seu rei, puseram-se de pé e pediram que o líder continuasse a conduzí-los adiante."
(In: O Livro das Virtudes II, William J. Bennett, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996.)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Quando nascemos fomos normatizados

Aula de Psicologia do Excepcional, com altas discussões sobre valorização da diferença e combate à estigmatização. A turma teceu várias críticas ao conceito de "deficiente", que permeia o nosso vocabulário. A palavra "deficiente" supõe um déficit, uma diminuição em algo, que está abaixo da média, E, supondo que a média é a norma, está fora da norma. Supõe que a pessoa não possui nenhuma outra qualidade, é simplesmente pior que os outros. Deficiente auditivo é o cara que tem dificuldade pra atravessar a rua, que não pode conversar, que não vai pra escola normal, que não pode ouvir música(onde já se viu?alguém não poder ouvir música!), e que jamais vai desfrutar de uma vida minimamente normal. Agora, o surdo é o cara que entende a música pela percussão, fala a língua de sinais, se comunica muito mais rápido que um ouvinte, tem uma lógica em sua vida totalmente diferente. É estranho de pensar com um simples termo altera todo o significado, passando de deficiência à diferença na organização, de um aspecto quantitativo para um qualitativo.
Além de injusto, o termo deficiente também é errado. Deficiência é limitação, e todos têm alguma limitação. Precisam de óculos pra ler, têm dor nas costas, não sabem jogar futebol, odeiam matemática, desenham que é um horror, são desastrados, distraídos ou nervosos. Todos deficientes, mas todos na norma.
Aí eu pensei: "ei, eu não estou na norma! Eu não uso meus óculos!" Realmente, eu convivo bem e aceito muito bem a minha miopia. Nesse aspecto eu não me rendo à normatização. Mas tem outra coisa: eu uso aparelho os dentes. Obviamente, isso não é uma deficiência. Mas é uma ferramenta para colocar as pessoas num determinado padrão de estética. É uma normatização muito mais sutil do que a do comportamento, e portanto menos questionada.
Então chegamos a uma lei geral da normatização:
-a primeira é a estética > a criança não escolhe as suas roupas, e mais tarde, quando cresce, existe a exigência de que se vista bem e penteie o cabelo
-a segunda é a comportamental > comporte-se direitinho, seja educado e não dê vexame, não exagere (essa a Psicologia já problematiza)
-a terceira é a funcional > além de se comportar, a pessoa deve pensar e sentir determinadas coisas, e outras não (não viaja, não seja louco, que bizarro!)

Pronto! Você acaba de ser programado e pronto pra sair da fábrica.

sábado, 29 de setembro de 2007

Proletariado Intelectual

Segundo Daniel Engel, um de meus autores preferidos, nós, estudantes e acadêmicos, somos um proletarido intelectual. Só temos nossa força de trabalho a oferecer, oferecemos demais, e só as editoras lucram com o que a gente produz.
A diferença de ser do proletariado intelectual é que sua força de trabalho não está no corpo, mas na mente (sendo imperdoavelmete dualista, só por hoje). Isso acarreta em algumas conseqüências. Ninguém vê o intelectual se esforçando, Ninguém vê ele sendo exposto a péssimas condições de trabalho, como uma cadeira de computador que destrói a coluna ou muitos cursos, que o impedem de almoçar. Seu horário de trabalho não é limitado, mas infinito, pois ele continua pensando e leva trabalho pra casa quando acaba o seu turno. Leva muito trabalho pra casa, lê muito, e esse tempo de leitura não é considerado trabalho. E é considerado um vagabundo, não importa o quanto se esforce, da mesma forma que o proletariado comum, mas desta vez sendo desvalorizado por pensarem que qualquer um numa condição privilegiada como essa faria tranqüilamente esse trabalho. E o que eu acho mais interessante: a singularidade de sua alienação. Na verdade eu me pergunto se existe alienação no trabalho intelectual. Gostaria de pensar que não, pois, considerando que se pensa o tempo todo, não ocorreria essa cisão, da mesma forma que o intelectual vê o seu escrito como seu. Mas estou tentado em pensar em uma cisão intelectual: duas mentes, uma de trabalho e uma pessoal. O historiador que vai jogar futebol, o biólogo que vai numa churrascaria, o químico que fuma muito e o engenheiro que de jeito nenhum fala de seu trabalho para as meninas. Parece que a alienação do trabalho continua aí, e esses trabalhadores não usam seu trabalho em sua vida, mas são usados pelo seu trabalho.
Mas, ao mesmo tempo, esse proletariado tem poder aquisitivo. Doutores têm carrões, psicanalistas viajam muito de avião, farmacêuticos ganham muita grana. E esse proletariado tem acesso aos meios de produção. Livros, cadernos, filmadoras, computadores, notebooks, celulares, microscópios, passagens de avião, seringas, remédios, aparelhos de mensuração, ratinhos e rãs, laboratórios, salas de espelho, testes psicométricos, torres de Londres. O que me torna um tanto cético quanto à idéia de ser realmente um proletariado, pois parece ter uma boa parcela de autonomia em seu trabalho, tanto em relação ao tempo quanto ao método, quanto ao produto final.
Prefiro chamar simplesmente de intelectuais. Intelectuais que trabalham como proletários, detém seus meios de produção assim como a burguesia e passam a impressão de serem elite. Acham que são elite, também. Mas na verdade são intelectuais alienados, que produzem para seu próprio mundinho e não ajudam a sociedade que os sustenta. Essa cisão entre a mentalidade pessoal e a intelectual se reflete na cisão entre Academia e Sociedade, que a cada dia nos esforçamos para eliminar. Já temos muitos intelectuais que se acham revolucionários, agora só falta transformar todo o proletariado em intelectualidade.

Intelectuais de todo o mundo, uni-vos!

Meios de produção?

Parafraseando todo mundo(intelectuais ou não), o Brasil é um país de contrastes. Integrante do G-4, promissor em astrofísica e biotecnologia, tem uma parcela imensa de sua população analfabeta. País com o maior mercado de cirurgia plástica do mundo e que tem o Programa de Saúde da Família desmantelado. Um vasto território fértil, que poderia ser distribuído para todos os pequenos agricultores hoje sem-terra, é usado pra matar boi, matar canavieiro e envenenar os rios, e produzir carne, álcool e soja. Mercedes de vidro fumê que param na sinaleira e ignoram os meninos fazendo malabares. Principalmente isso: burgueses que andam pelas ruas e passam por medigos.
Pois é. Hoje tive uma epifania sobre isso, ao passar do lado de um morador de rua que dormia, enquanto eu me dirigia à Clínica Pinel para a minha última observação de Dinâmica de Grupo. Sempre que passo perto de um morador de rua, eu me questiono sobre a injustiça social e sobre o que eu poderia fazer. E nunca faço nada. Hoje não foi diferente, mas foi interessante a constatação que fiz. Andava na rua fazendo alguns movimentos de kung fu, mas logo que vi essa pessoa dormindo, parei. O quadro: eu, bonito, forte, saudável, bem vestido, inteligente, estudioso, de futuro promissor, seguro de si, feliz, tranqüilo, mente no futuro - ele: deitado no chão, sozinho, possivelmente há semanas com as mesmas roupas, sem sequer ter idéia se poderá comer amanhã, sem entretenimentos ou estudos, com uma mente preparada para o urgente. E ainda por cima, eu tinha tudo que ele não tinha: mochila, caderno, livros, muitos livros, net, computador, comida da boa, som e uma vida super confortável. Perto dele, sou rico, mesmo que não tenha tanto poder aquisitivo assim. Por que isso? Porque eu tenho todos os meios de produção de que preciso. Aliás, só o fato de ter meios de produção já me distingue dele. Ele não tem nada, nenhuma terra, máquina ou especialidade. Aí é que está a desigualdade!! Não está realmente no poder aquisitivo, pois isso me tornaria muito mais próximo dele do que de meus colegas e professores da faculdade, mas sim na posse dos meios de produção!! Eu tenho mochila, caderno, livros, posso pegar livros, tenho um computador para escrever. Posso escrever um artigo, uma história em quadrinhos, uma charge, uma música, fazer um desenho, uma peça de teatro, qualquer coisa. Por isso eu posso produzir, e por isso que é possível me inserir entre a camada burguesa. E é por isso que esse cara parece tão carente.
Isso me possibilitou um novo insight. A chave não é dar dinheiro, casa, agasalho ou comida a essas pessoas(o que seria uma prática assistencialista), mas sim conceder meios de produção! Eles precisam ter poder para sua subsistência, o que é conseguido através dos meios de produção. Pensam em dar empregos na sapataria, no mercado ou na jardinagem continua deixando-os na posição de proletariado explorado, e, na maioria dos casos, desqualificado. Mas aí eu penso: pô, não adianta eu dar pra ele meu caderno, minha mochila ou o meu polígrafo de Psicologia Social, porque ele não vai aproveitar nada. O trabalhador tem que conhecer e possuir seu meio de produção. Senão ele continuaria alienado de sua produtivdade, e tudo que eu conseguiria seria perder a minha mochila, e perderia muito dinheiro comprando outra.
Aí caio em outra questão: antes de dar oportunidade, tem que dar os meios de produção, antes de dar os meios de produção tem que trazer informação(ou consciência, segundo uma ótica tri marxista). Então eu vou ter que informá-los, antes de qualquer coisa. Praticar o empoderamento, transmitir a consciência de classe, incentivar a vontade de potência, trabalhar a zona de desenvolvimento proximal. Mas eu não faço nada disso. Eu costumo conversar com os moradores de rua que encontro normalmente, e até dou uns lanches pros caras, mas não chego a realizar nenhuma atividade com eles. As minhas conversas são superficiais e distantes, como as que tenho com muitas e muitas pessoas. Aí caio num problema ainda mais fundamental, que são os meus traços autistas. A minha imaginação que supera a interação. Permaneço demais em meu próprio mundo criando coisas que não chego a estabelecer vínculo com as pessoas. E esse vínculo é o instrumento mais importante de todos do que será minha futura profissão: psicólogo. Vejo então que o que eu poderia fazer por essas pessoas, que está a meu alcance, não é dar um pão, uma bergamota, 25 centavos ou cumprimentar essas pessoas, mas sim estabelecer um vínculo com eles e conhecê-los um pouco mais: seus pensamentos, seus gostos, seus sonhos, suas crenças, suas vontades, e a partir daí incentivar a autonomia. É a chance de promover justiça sem ter que perder meus meios de produção, que acredito serem muito importantes que eu continue com eles, para ajudar as pessoas.
Isso me faz pensar como seria legal o mundo se todos tivessem meios de produção... Imagina quanta batata, mandioca, maçã, banana, roupas, e quanto desenho, música, livro e conhecimento científico não seria produzido?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Miami Ink

Esses dias eu voltei do treino e fiquei madrugada adentro assistindo um programa que eu gosto muito, que é Miami Ink. É um reality show sobre quatro tatuadores que trabalham em sua loja, e as pessoas que passam por lá. A primeira coisa legal que eu aprendi assitindo esse programa foi a perder um pequeno preconceito meu quanto à tatuadores, que seriam pessoas meio malvadas e rebeldes demais, que realizavam um trabalho invasivo e meio truculento.
Pois é. Na verdade, os caras são artistas. Eu vi todos os dramas pelos quais a minha família passa, envolvendo viver de arte e essa coisa toda. São vidas bastantes intensas, cheias de significado, e que se entrelaçam com as vidas e significados de cada um de seus clientes. A cada início de programa, eles apresentam quem serão os clientes do episódio, que passa em alguns dias, já que a tatuagem é algo trabalhoso. Não é só chegar e o cara faz. Tu leva uma idéia, de algoq eu representa muito pra ti, explica pro cara, ele volta pra casa de noite, faz uns rascunhos, depois ele faz um 'esboço' na tua pele, daí outro dia ele desenha em ti, e em outro dia ele pinta. Muito trabalhoso. E pesado.
É pesado porque cada tatuagem significa algo pra pessoa, algo muito importante, e que vai ser carregado como um amuleto e uma filosofia para sempre, no corpo da pessoa. A responsabilidade é muito maior do que um desenho ou um grafitti. Eles realizam um verdadeiro trabalho terapêutico naquela loja, conhecendo a história de seus clientes, e oferecendo a tatuagem como a 'cura' para o problema apresentado. E cada uma dessas pessoas marca as suas vidas, e as fazem olhar para a vida com diferentes olhos.
Imagina o que deve ser a pessoa chegar pra ti e dizer " eu quero que tu desenhe uma fada; ela representa um câncer que eu tive no ano passado, e todo o drama pelo qual passei; meu noivo foi embora tres semanas antes do casamento e eu tive pouco apoio da família, e essa tatuagem representa a minha superação do câncer". É uma bomba. E os tatuadores conseguem lidar muito bem com isso. Mesmo sem ter um bacharelado em Psicologia, em poucas sessões, eles provocam mudanças profundas e significativas nas vidas de seus clientes. É aí que a gente pode ver com clareza poder transformador que a arte tem.
Essa valorização da arte que tem nesse programa é outro aspecto que me agrada muito. E o desenho posto como arte, importante, significativa, produtiva, repleta de nuances e sutilezas. Eles mostram a evolução que existe no desenho. Vai de frente com a visão comum de que é um mero talento, um passatempo, estático, e que não há a necessidade de evoluir muito mais do que uma charge rabiscada. Eu me emociono muito vendo eles desenharem, e falarem sobre o seu desenho, seu traço. Explicando pro aprendiz como é que se desenha uma onda. Articulando criatividade, sensibilidade, destreza e disciplina.
Desenhar é um aprendizado constante. E dar uma obra de arte, como um desenho ou uma tatuagem, para alguém, transcende ao infinito o mero talento. Muito masi do que uma habilidade, um ato mecânico, é a encarnação de um espírito no papel, ou na pele. E é um significado que fica eternizado. A menos que as pessoas essas marcas.

Sem contar que a gente fica imagina em quais tatuagens poderíamos fazer enquanto assitimos ao programa...

sábado, 28 de julho de 2007

X-MEN e Psicopatologia

Acabei de assistir o filme X-MEN 3:The Last Stand, e fiquei emocionado do começo ao fim. Efeitos especiais excelentes, cenas de ação incríveis, atores cativantes, uma de minhas histórias favoritas e, o que masi me chamou a atenção, um conteúdo político extremamente relevante. Já no primeiro filme eles abordam a questão do preconceito e da discriminação, além das questões de mudanças e incompreensão adolescente. O segundo filme aborda temas como vingança e justiça, com a guerra do Striker contra os mutantes. Já neste último filme, o grande problema é 'a cura'. Uma empresa farmacêutica desenvolve uma droga capaz de anular a mutação genética da pessoa, e então 'curá-la', tornando-a uma pessoa 'normal'. A invenção foi divulgada como uma maravilha, criando espaço para uma política de contenção à ameaça mutante, mas de um forma democrática. Alguns mutantes ficaram vislumbrados com a idéia de serem curados, enquanto outros se manifestavam publicamente afirmando não serem uma doença. Quando o grupo de mutantes rebeldes liderado pelo Magneto atacou a 'humanidade', a cura passou a ser uma imposição, em defesa do bem comum. Esses vaivéns são os mesmos que acompanhamos na Psicologia e na Psiquiatria, no tratamento da Psicopatologia, ou, como é comumente chamada, a 'loucura'.
De um lado temos a responsabilidade das autoridades para zelar pelo bem comum e o bom funcionamento da sociedade, esforçando-se para fazer com que as pessoas não agridam física ou mesmo moralmente(hum, conceito discutível) uma as outras, e para assegurar sua produtividade e engagement no mainstream. De outro, temos esses considerados os diferentes, os loucos, os improdutivos, os instáveis, a possível ameaça à moral, à escola e à empresa. Suas diferenças não foram escolhidas por eles mesmos, foram causadas por alguma condição complexa que traçou determinados rumos para suas vidas. No entanto, eles manifestam uma vontade ao direito à vida, e ao direito à escolha. Eles querem ser aceitos, acolhidos, compreendidos, não excluídos, encaixados ou exterminados. Mas eles são estranhos, instáveis, fora de controle, e não temos certeza se realmente podemos dar ouvidos a eles, ou, ainda mais, mobilidade. Essa é a dialética da Psiquiatria tradicional, apoiada pelo poder vigente, e o Movimento Antimanicomial, que luta por uma humanização do tratamento da loucura.
A discussão do Movimento Antimanicomial é institucional, é uma luta por melhores condições de tratamento destes pacientes e um direito à mobilidade e até não-medicalização, em alguns casos. A minha discussão será outra: vou tratar da questão filosófica ou conceitual da dicotomia normal x patológico. Por quê conceitual? Porque eu quero propor uma (ousada)dissolução dessa dicotomia. Nem uma rígida separação baseada em preconceitos de ordem moral com raros respaldos neurocientíficos, nem a naturalização da patologia, com a filosofia do 'de perto, ninguém é normal'. Seguindo o exemplo dos mutantes, que são apenas diferentes, e não necessariamente doentes, proponho que é necessário estudá-los, compreendê-los e encontrar uma maneira de desenvolver sua autonomia e auto-controle, assim como a escola-clínica-basemilitar do Charles Xavier. De fato, pessoas como a Rogue, o Ciclope e a Jean precisam de um acompanhamento, um treinamento e às vezes um isolamento. E pessoas como o Hank McCoy, o Homem-de-Gelo e o Nightcrawler precisam de integração e aceitação. O Pyro e o Juggernaut assumem o papel de criminosos na trama, o que pode ser considerado um fruto da psicopatologia, de transtornos do desenvolvimento e más condições de sobrevivência. E que iriam para um prisão ou hospital psiquiátrico, na nossa sociedade. Mas acho que a questão da criminalidade fica para outro dia. Vamos focar nos que são só diferentes. Da mesma forma, eu não acho que alguém com Déficit de Atenção ou Transtorno Bipolar do Humor, mesmo com possíveis surtos psicóticos e agressividade, possa ser considerada doente. Até porque estas patologias(segundo o DSM-IV) trazem algumas habilidades e benefícios ao portador, como iniciativa, criatividade, ousadia, coragem e dedicação ao trabalho ou aos amigos. Essas pessoas têm poderes e limitações, e não é justo suprimir seu potencial numa tentativa de enquadrá-las. Muitos artistas e cientistas brilhntes sofrem de doença mental, o que, em vez de atrasá-los em seu trabalho, faz parte da obra e da vida dessas pessoas.
O Psicodiagnóstico faz justamente o oposto: separa, aliena a pessoa de seu conflito, sua motivação, sua psique. Considera ela errada, fora do normal. Minha proposta aqui não é dissolver as clínicas, hospitais e ambulatórios, mas pensar uma nova forma de atender essas pessoas. Baseada não na idéia de anormalidade, mas de "configuração mental". Seria uma espécie de mapeamento da estrutura e dinâmica dos diferentes indivíduos, com descrições claras e aprofundadas de seus potenciais, suas limitações e seus conflitos. Reconhecê-las como diferentes da nossa configuração burguês-trabalhador-consumidor-recalcado, e como diferentes entre si, não jogando no mesmo saco da 'patologia'. Criar instituições de apoio, treinamento e trabalho de bipolares, hiperativos, borderlines, despersonalizados e pessoas com delírios ocasionais. Oferecer um estudo da condição da pessoa desde cedo, um autoconhecimento tanto objetivo quanto introspectivo. Instituições de serviço estatal nas quais a pessoa vai deliberadamente aprender como desenvolver sua autonomia, proteger as pessoas queridas de seus surtos psicóticos, como lidar com sua depressão, sua ansiedade, seu pensamento rápido. Seus instáveis e misteriosos poderes mutantes.
Quando tentamos aplicar a escola de Charles Xavier à nossa realidade, ela passa a parecer uma utopia. Não é por menos. Temos muito preconceito, muito medo dos loucos. Imprevisíveis, deseducados, que invadem nossa privacidade e ferem nossos sentimentos. Quando nos deparamos com um, queremos logo que ele saia de perto e seja levado para um hospital psiquiátrico e receba um remédio. Uma cura para sua doença. Para sua falta de capacidade de se entender e se controlar. Se o Bobby começa a congelar as coisas sem querer, seu irmão chama a polícia. Atualmente, já é bem forte a corrente de pensamento que dá atenção à subjetividade do ser, mas ainda ninguém pensa na autonomia dessa pessoa. A promoção da autonomia está no discurso de inúmeras terapias, mas, ao considerá-los com um transtorno, sua autonomia já foi roubada. A patologização já pressupõe que a pessoa está fora de controle, e tem que ser controlada, suprimida. Eric Lansharr foi catalogado como um mutante, potencialmente perigoso, o que nutriu sua revolta pela humanidade. A pessoa carrega esse fardo, essa marca, esse algo fora do normal. O diagnóstico funciona como a marca do 'mutante perigoso'.
Mas, obviamente, isso não quer dizer que eu recomendo que psicólogos não estudem psicodiagnóstico. Este foi criado com a meta de objetivar e catalogar características desses transtornos, ou, como quero chamar, configurações. São uma tentativa bem-intencionada, mas mal-sucedida. É preciso lançar um novo olhar sobre o normal e o patológico. E pensar no potencial que até nós, normais, temos para desenvolver nossa autonomia, nosso auto-controle. E que opções devemos oferecer a estes que sofrem com a falta de controle ou com a medicalização quase-que-imposta.
Precisamos de um Instituto Xavier então...