Parafraseando todo mundo(intelectuais ou não), o Brasil é um país de contrastes. Integrante do G-4, promissor em astrofísica e biotecnologia, tem uma parcela imensa de sua população analfabeta. País com o maior mercado de cirurgia plástica do mundo e que tem o Programa de Saúde da Família desmantelado. Um vasto território fértil, que poderia ser distribuído para todos os pequenos agricultores hoje sem-terra, é usado pra matar boi, matar canavieiro e envenenar os rios, e produzir carne, álcool e soja. Mercedes de vidro fumê que param na sinaleira e ignoram os meninos fazendo malabares. Principalmente isso: burgueses que andam pelas ruas e passam por medigos.
Pois é. Hoje tive uma epifania sobre isso, ao passar do lado de um morador de rua que dormia, enquanto eu me dirigia à Clínica Pinel para a minha última observação de Dinâmica de Grupo. Sempre que passo perto de um morador de rua, eu me questiono sobre a injustiça social e sobre o que eu poderia fazer. E nunca faço nada. Hoje não foi diferente, mas foi interessante a constatação que fiz. Andava na rua fazendo alguns movimentos de kung fu, mas logo que vi essa pessoa dormindo, parei. O quadro: eu, bonito, forte, saudável, bem vestido, inteligente, estudioso, de futuro promissor, seguro de si, feliz, tranqüilo, mente no futuro - ele: deitado no chão, sozinho, possivelmente há semanas com as mesmas roupas, sem sequer ter idéia se poderá comer amanhã, sem entretenimentos ou estudos, com uma mente preparada para o urgente. E ainda por cima, eu tinha tudo que ele não tinha: mochila, caderno, livros, muitos livros, net, computador, comida da boa, som e uma vida super confortável. Perto dele, sou rico, mesmo que não tenha tanto poder aquisitivo assim. Por que isso? Porque eu tenho todos os meios de produção de que preciso. Aliás, só o fato de ter meios de produção já me distingue dele. Ele não tem nada, nenhuma terra, máquina ou especialidade. Aí é que está a desigualdade!! Não está realmente no poder aquisitivo, pois isso me tornaria muito mais próximo dele do que de meus colegas e professores da faculdade, mas sim na posse dos meios de produção!! Eu tenho mochila, caderno, livros, posso pegar livros, tenho um computador para escrever. Posso escrever um artigo, uma história em quadrinhos, uma charge, uma música, fazer um desenho, uma peça de teatro, qualquer coisa. Por isso eu posso produzir, e por isso que é possível me inserir entre a camada burguesa. E é por isso que esse cara parece tão carente.
Isso me possibilitou um novo insight. A chave não é dar dinheiro, casa, agasalho ou comida a essas pessoas(o que seria uma prática assistencialista), mas sim conceder meios de produção! Eles precisam ter poder para sua subsistência, o que é conseguido através dos meios de produção. Pensam em dar empregos na sapataria, no mercado ou na jardinagem continua deixando-os na posição de proletariado explorado, e, na maioria dos casos, desqualificado. Mas aí eu penso: pô, não adianta eu dar pra ele meu caderno, minha mochila ou o meu polígrafo de Psicologia Social, porque ele não vai aproveitar nada. O trabalhador tem que conhecer e possuir seu meio de produção. Senão ele continuaria alienado de sua produtivdade, e tudo que eu conseguiria seria perder a minha mochila, e perderia muito dinheiro comprando outra.
Aí caio em outra questão: antes de dar oportunidade, tem que dar os meios de produção, antes de dar os meios de produção tem que trazer informação(ou consciência, segundo uma ótica tri marxista). Então eu vou ter que informá-los, antes de qualquer coisa. Praticar o empoderamento, transmitir a consciência de classe, incentivar a vontade de potência, trabalhar a zona de desenvolvimento proximal. Mas eu não faço nada disso. Eu costumo conversar com os moradores de rua que encontro normalmente, e até dou uns lanches pros caras, mas não chego a realizar nenhuma atividade com eles. As minhas conversas são superficiais e distantes, como as que tenho com muitas e muitas pessoas. Aí caio num problema ainda mais fundamental, que são os meus traços autistas. A minha imaginação que supera a interação. Permaneço demais em meu próprio mundo criando coisas que não chego a estabelecer vínculo com as pessoas. E esse vínculo é o instrumento mais importante de todos do que será minha futura profissão: psicólogo. Vejo então que o que eu poderia fazer por essas pessoas, que está a meu alcance, não é dar um pão, uma bergamota, 25 centavos ou cumprimentar essas pessoas, mas sim estabelecer um vínculo com eles e conhecê-los um pouco mais: seus pensamentos, seus gostos, seus sonhos, suas crenças, suas vontades, e a partir daí incentivar a autonomia. É a chance de promover justiça sem ter que perder meus meios de produção, que acredito serem muito importantes que eu continue com eles, para ajudar as pessoas.
Isso me faz pensar como seria legal o mundo se todos tivessem meios de produção... Imagina quanta batata, mandioca, maçã, banana, roupas, e quanto desenho, música, livro e conhecimento científico não seria produzido?
sábado, 29 de setembro de 2007
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SÓ 4CHO KE VC EX4GEROU UM POUCO NO SENTIMENT4LISMO/ROM4NTISMO NO FIN4L, M4S EXISTEM TRECHOS B4ST4NTE IMP4RCI4IS E PORT4NTO 4PROVEIT4VEIS
ResponderExcluirF4LOW TCHE