sábado, 29 de setembro de 2007

Proletariado Intelectual

Segundo Daniel Engel, um de meus autores preferidos, nós, estudantes e acadêmicos, somos um proletarido intelectual. Só temos nossa força de trabalho a oferecer, oferecemos demais, e só as editoras lucram com o que a gente produz.
A diferença de ser do proletariado intelectual é que sua força de trabalho não está no corpo, mas na mente (sendo imperdoavelmete dualista, só por hoje). Isso acarreta em algumas conseqüências. Ninguém vê o intelectual se esforçando, Ninguém vê ele sendo exposto a péssimas condições de trabalho, como uma cadeira de computador que destrói a coluna ou muitos cursos, que o impedem de almoçar. Seu horário de trabalho não é limitado, mas infinito, pois ele continua pensando e leva trabalho pra casa quando acaba o seu turno. Leva muito trabalho pra casa, lê muito, e esse tempo de leitura não é considerado trabalho. E é considerado um vagabundo, não importa o quanto se esforce, da mesma forma que o proletariado comum, mas desta vez sendo desvalorizado por pensarem que qualquer um numa condição privilegiada como essa faria tranqüilamente esse trabalho. E o que eu acho mais interessante: a singularidade de sua alienação. Na verdade eu me pergunto se existe alienação no trabalho intelectual. Gostaria de pensar que não, pois, considerando que se pensa o tempo todo, não ocorreria essa cisão, da mesma forma que o intelectual vê o seu escrito como seu. Mas estou tentado em pensar em uma cisão intelectual: duas mentes, uma de trabalho e uma pessoal. O historiador que vai jogar futebol, o biólogo que vai numa churrascaria, o químico que fuma muito e o engenheiro que de jeito nenhum fala de seu trabalho para as meninas. Parece que a alienação do trabalho continua aí, e esses trabalhadores não usam seu trabalho em sua vida, mas são usados pelo seu trabalho.
Mas, ao mesmo tempo, esse proletariado tem poder aquisitivo. Doutores têm carrões, psicanalistas viajam muito de avião, farmacêuticos ganham muita grana. E esse proletariado tem acesso aos meios de produção. Livros, cadernos, filmadoras, computadores, notebooks, celulares, microscópios, passagens de avião, seringas, remédios, aparelhos de mensuração, ratinhos e rãs, laboratórios, salas de espelho, testes psicométricos, torres de Londres. O que me torna um tanto cético quanto à idéia de ser realmente um proletariado, pois parece ter uma boa parcela de autonomia em seu trabalho, tanto em relação ao tempo quanto ao método, quanto ao produto final.
Prefiro chamar simplesmente de intelectuais. Intelectuais que trabalham como proletários, detém seus meios de produção assim como a burguesia e passam a impressão de serem elite. Acham que são elite, também. Mas na verdade são intelectuais alienados, que produzem para seu próprio mundinho e não ajudam a sociedade que os sustenta. Essa cisão entre a mentalidade pessoal e a intelectual se reflete na cisão entre Academia e Sociedade, que a cada dia nos esforçamos para eliminar. Já temos muitos intelectuais que se acham revolucionários, agora só falta transformar todo o proletariado em intelectualidade.

Intelectuais de todo o mundo, uni-vos!

3 comentários:

  1. Só uma ressalva: quem surgiu com esse negócio de proletariado intelectual foi o Daniel Engel. Eu apenas roubei o conceito dele, como eu faço com muitas das suas idéias...

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