Esses dias eu voltei do treino e fiquei madrugada adentro assistindo um programa que eu gosto muito, que é Miami Ink. É um reality show sobre quatro tatuadores que trabalham em sua loja, e as pessoas que passam por lá. A primeira coisa legal que eu aprendi assitindo esse programa foi a perder um pequeno preconceito meu quanto à tatuadores, que seriam pessoas meio malvadas e rebeldes demais, que realizavam um trabalho invasivo e meio truculento.
Pois é. Na verdade, os caras são artistas. Eu vi todos os dramas pelos quais a minha família passa, envolvendo viver de arte e essa coisa toda. São vidas bastantes intensas, cheias de significado, e que se entrelaçam com as vidas e significados de cada um de seus clientes. A cada início de programa, eles apresentam quem serão os clientes do episódio, que passa em alguns dias, já que a tatuagem é algo trabalhoso. Não é só chegar e o cara faz. Tu leva uma idéia, de algoq eu representa muito pra ti, explica pro cara, ele volta pra casa de noite, faz uns rascunhos, depois ele faz um 'esboço' na tua pele, daí outro dia ele desenha em ti, e em outro dia ele pinta. Muito trabalhoso. E pesado.
É pesado porque cada tatuagem significa algo pra pessoa, algo muito importante, e que vai ser carregado como um amuleto e uma filosofia para sempre, no corpo da pessoa. A responsabilidade é muito maior do que um desenho ou um grafitti. Eles realizam um verdadeiro trabalho terapêutico naquela loja, conhecendo a história de seus clientes, e oferecendo a tatuagem como a 'cura' para o problema apresentado. E cada uma dessas pessoas marca as suas vidas, e as fazem olhar para a vida com diferentes olhos.
Imagina o que deve ser a pessoa chegar pra ti e dizer " eu quero que tu desenhe uma fada; ela representa um câncer que eu tive no ano passado, e todo o drama pelo qual passei; meu noivo foi embora tres semanas antes do casamento e eu tive pouco apoio da família, e essa tatuagem representa a minha superação do câncer". É uma bomba. E os tatuadores conseguem lidar muito bem com isso. Mesmo sem ter um bacharelado em Psicologia, em poucas sessões, eles provocam mudanças profundas e significativas nas vidas de seus clientes. É aí que a gente pode ver com clareza poder transformador que a arte tem.
Essa valorização da arte que tem nesse programa é outro aspecto que me agrada muito. E o desenho posto como arte, importante, significativa, produtiva, repleta de nuances e sutilezas. Eles mostram a evolução que existe no desenho. Vai de frente com a visão comum de que é um mero talento, um passatempo, estático, e que não há a necessidade de evoluir muito mais do que uma charge rabiscada. Eu me emociono muito vendo eles desenharem, e falarem sobre o seu desenho, seu traço. Explicando pro aprendiz como é que se desenha uma onda. Articulando criatividade, sensibilidade, destreza e disciplina.
Desenhar é um aprendizado constante. E dar uma obra de arte, como um desenho ou uma tatuagem, para alguém, transcende ao infinito o mero talento. Muito masi do que uma habilidade, um ato mecânico, é a encarnação de um espírito no papel, ou na pele. E é um significado que fica eternizado. A menos que as pessoas essas marcas.
Sem contar que a gente fica imagina em quais tatuagens poderíamos fazer enquanto assitimos ao programa...
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
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