"Tudo bem que ele seja vegetariano, desde que ele não tente me convencer a ser vegetariano também"
Essa foi uma maravilhosa pérola que eu ouvi outro dia, de uns caras falando sobre outro cara do qual eles não gostavam muito, e que era vegetariano ativista. Sobre o quanto esses caras devem ser legais uns com os outros, não interessa. O que interessa é que a frase entre aspas acima reflete muito bem um discurso recorrente quando se entra em choque com um vegetariano político ( o que não come carne por questões políticas e de ordem social), que é o de um certo relativismo quanto à opção alimentar.
Concordo que as pessoas não devem se alimentar todas de uma mesma forma, e que existem gostos variados que devem ser respeitados. Isso é relativismo cultural. Existem pratos preparados de maneiras que ahcamos estranhas e temperos que nos dão um treco. Mas isso não se aplica ao consumo de carne, pois ele envolve não só uma opção alimentar mas também relações de poder muito marcantes e a violação do direito à liberdade de outros indivíduos, principalmente. Não é que nem Tonho gosta de banana e Quito gosta de pêra, mas sim Carlo planta e colhe arroz enquanto Gregório chuta e dá marretadas num porco numa gaiola. Um porco que poderia estar livre, feliz, e, apesar das dificuldades inerentes à vida, elas são muito melhores do que ser tratado como um saco de argamassa e depois levar algumas facadas no pescoço quando ele queria na verdade correr pelo campo.
Aí que entra o primeiro problema quando um consumidor de carne exige essa postura de relativismo e liberdade de estilo de vida de um vegetariano. O próprio consumo de carne já é uma violação dessa idéia de liberdade de agir-viver. Viola-se primeiramente a dignidade do animal, transformando sua existência em um meio para um outro objetivo que não a própria vida (o lucro ou o consumo), depois é violada o seu direito de ser livre e conhecer os ambientes à sua escolha (escolha é um termo controverso, mas já que aplicamos à nós aplicaremos a eles também, já que escolha exige livre arbítrio, e não necessariamente uma nova arma ou um cérebro mais gordo. Livre-arbítrio exige alma, e ou todos tem ou ninguém tem. Enfim, conceitos controversos.) e por último é violado o seu direito à integridade, com uma martelada na cabeça. Com uma defesa tão firme da violação a liberdade de outros, é muito incoerente que ele exija um respeito ao que ele considera como liberdade, que provavelmente deve ser uma concepção muito mais confusa que a de escolha.
Além disso, tentar convencer alguém a se tornar vegetariano não é necessariamente uma ameaça à liberdade. Normalmente, se tenta convencer alguém a ser vegetariano apresentando fatos e argumentos, sobre aspectos diversos. Discutir e argumentar é uma ameça à liberdade? Se alguém pensar que sim, é recomendável que jamais se leia um livre novamente ou vá para a faculdade, porque a exposição às idéias novas apresentadas num livro deve ser praticamente um suplício em praça pública pra essa pessoa. Na verdade, no meio intelectual, entrar em contato com diferentes fatos e idéias é visto como uma libertação intelectual. Dúvidas existenciais, insights, teorias novas, essas coisas todas. Então, o mais inteligente seria que essas pessoas ficassem felizes ao ter alguém ao lado argumentando a favor de uma dieta vegetariana com implicação política.
Infelizmente, todas as críticas feitas ao consumo de carne são encaradas como se a pessoa estivesse "forçando" as outras a agirem como ela. Essa reação é uma forma de defesa à sua cosmovisão, que acontece com quaisquer outros grupos que têm suas crenças ameaçadas pelos fatos. Mas elas não estão sendo forçadas a agir de acordo com esses fatos. Espera-se que ajam, mas não há essa garantia. O vegetariano só está expondo as informações e críticas que possui, o uso que as pessoas farão a partir daí não depende mais do vegetariano. A menos que ele tenha uma arma ou bastante poder político, só que não são todos os vegetarianos que têm isso. Forçar exige o uso da força, e não é isso o que normalmente ocorre em uma discussão. Ninguém vai apanhar do colega por comer carne. No máximo vai levar xingão, mas provavelmente só vai ter discussões bem acaloradas.
Uma coisa que eu considera incrível é que existem vegetarianos que dizem "respeita a opção dele", como se o tentar argumentar fosse violação de alguma coisa. E como se ser vegetariano fosse uma simples opção alimentar, como gostar de pão com chocolate ou batida de banana com limão, quando também é uma posição política e uma forma de se expressar. Não se é vegetariano por peninha dos pobrezinhos dos animaizinhos; se é vegetariano porque se opõe à injustiça, à exploração e à uma das indústrias mais cruéis do mundo, em todos os sentidos. E se tu te opões à injustiça, tu vais fazer valer a tua voz. Bandeira não é pra ficar guardada no armário, escondida dos exércitos alheios. Por isso não é só um direito, mas um dever do vegetariano consciente de criticar e se opor firmemente ao consumo de carne. E isso pode ser feito de maneira educada e respeitosa, posi o que devemos respeitar e conservar são as pessoas, e não suas idéias ou hábitos nocivos e questionáveis.

Imagine, por exemplo, que você está na faixa de Gaza, e está acontecendo um combate entre o Hamas e guerrilheiros israelenses. Eles acreditam que estão fazendo a coisa certa, que eles estão certos e foi assim que eles aprenderam a se relacionar. Você acha que esta prática deles deve ser 'respeitada'? Falar de paz e tentar uma conciliação seria 'forçar' ou 'converter' estes homens tão certos e tão satisfeitos com o que fazem?
Aí que entra o valor de se posicionar de forma clara, respeitando as pessoas. A gente não vai chegar xingando e socando esses caras, até porque isso não daria certo, e simplesmente os tornaria ainda mais intolerantes a idéias outras. Mas um diálogo tem sempre o seu valor, seja para a paz árabe-israelense, seja para uma dieta mais ética e socialmente benéfica, mesmo que as pessoas se mostram avessas no início.
Lobo da Estepe,
ResponderExcluirApreciei muito seu artigo "Relativismo Vegetariano"
sou vegan e não perco uma oportunidade de re-lembrar as pessoas
de que comer também é um ato político
e através do veganismo estamos combatendo a injustiça.
Um grande abraço.
e dê um alô ao Herman Hesse por mim!
Bruna Ribas
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQue ótimo texto!
ResponderExcluirMeus parabéns!