quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Por que eu não cursei Biologia


Clima de final de ano, início dos estágios, amigos fazendo vestibular, o meu envolvimento cada vez maior com militâncias políticas, o aprofundamento nas pesquisas, tudo isso suscita muitas questões acerca do futuro. Curiosamente, pensar sobre o futuro significa pensar sobre a carreira profissional, mas eu penso que isso seja mais por esse ser o campo mais fácil de planejar do que por uma supervalorização do trabalho em detrimento de outras dimensões da vida. De qualquer forma, tudo o que eu faço é muito importante pra mim, e eu critico e justifico constantemente as minhas escolhas.

Pensando sobre outros caminhos possíveis de serem seguidos, voltei a me questionar sobre o porquê que eu não entrei para o curso de Biologia, que é uma matéria pela qual sou absolutamente apaixonado e que coincidentemente tenho muitos e muitos amigos de lá. Eu estudo conteúdos de Biologia seguidamente e consigo travar debates bastante equilibrados com biólogos, e muita gente diz que eu estou no curso errado. Mas eu discordo.

Eu desisti de Biologia logo na metade do Ensino Médio, porque eu não sabia qual seria a perspectiva de emprego de um biólogo, e eu achava que ser um cientista era uma coisa muito difícil e rara. Se bem que eu estava bem determinado a ser repórter da National Geographic Channel e filmar os bichinhos caçando.
Outro ponto, que por muito tempo eu considerei o principal para me afastar deste curso foi justamente por causa dos bichinhos. Mais precisamente, o que os professores fazem e mandam fazer com os bichinhos. Eu iria me recusar a participar das vivisssecções e iria acabar travando uma guerra com os professores, que empacaria meu currículo e, como a grande maioria das pessoas, mesmo que discorde, costuma ficar em silêncio e baixar a cabeça, eu ia acabar ficando sozinho brigando com os professores. E eu não queria me opor a todo mundo.





Só que o problema lá não é só o tratamento dispensado aos animais de laboratório, mas sim toda a relação humanidade-ciência-Natureza que é ensinada ali. É uma Natureza subjugada à humanidade através da ciência, que tem por objetivo o mero progresso da ciência. Não é essa a relação que eu tenho com a Natureza, e muito menos a que eu quero ter.

O estudo de Biologia está muito fundamentado da filosofia de Francis Bacon, filósofo naturalista do século XVII, expressa na máxima: "A Ciência deve servir para o Homem dominar a Natureza". Nessa concepção, a Natureza está separada da humanidade, e é vista como um inimigo e um objeto a ser dominado e utilizado para a satisfação dos interesses da humanidade. Isso é chamado de façanha prometéica, por sugerir que é uma técnica, uma prática que não existia antes, com a filosofia escolástica tida como inútil. Mas eu chamo de falácia prometéica, por concluir que por conhecer a Natureza através da ciência, e pelo fato de o conhecimento trazer poder, e conseqüentemente controle, é legítimo que o detentor do conhecimento se apodere da Natureza. A idéia de ter poder aí seria o suficiente para ser considerado legítimo, justo, correto ou bom, o controle sobre a Natureza.

A suposição de que o poder deve ser exercido, ou de que ele é suficiente para dar o direito, são imediatamente reprovadas se tentarmos aplicá-las a vários setores da sociedade, e com boas justificativas.

Ocorre uma confusão conceitual também no momento em que se classifica a Natureza, ou a vida, como objeto de estudo. Ontologicamente falando, podemos classificar esses mesmos como objetos, por serem comnpostos de matéria e constituirem parte do nosso Universo. Epistemologicamente falando também, porque nós os conceituamos e tentamos estudá-los e conhecê-los. Mas, segundo a nossa filosofia baconiana, o objeto de estudo é o objeto a ser controlado, então eles também são tidos como objetos do ponto de vista valorativo. O valor atribuído aos organismos vivos é um valor instrumental, sem quaisquer idéias igualmente metafísicas de direito, respeito, justiça ou até sacralidade.

Esse problema do objeto de estudo ser transormado em objeto do ponto de vista do valor atribuído a ele acontece também nas ciências humanas, embora em menor escala e não tão institucionalizado e naturalizado. E por causa dessas barreiras institucionais, mesmo que eu estudasse muito de filosofia da ciência e criticasse essas práticas, os professores não iam entender nada do que eu falasse e iam mandar eu obedecer a súmula.


Só que eu não queria, de jeito nenhum, ser ensinado a ter esta relação instrumental, utilitarista, intervencionista e displicente com a Natureza, tratando como um reles objeto ou atibuindo a ela apenas valor econômico. Minha relação com a natureza sempre foi passiva, contemplativa, apreciadora, respeitosa, daria até pra dizer pagã. Pagã no sentido de um sentimento de conexão com a Natureza da qual fazemos parte, sem necessariamente a presença de deuses, mitos ou rituais, que eu dispenso. E eu discordaria que esta é uma postura mística, pois de fato fazemos parte da Natureza e inevitavelmente nutrimos algum sentimento por ela, seja de pertencimento ou não. Além disso, a filosofia baconiana não é tão laica assim: essa separação Homem-natureza e fé na condução da Natureza através da razão são heranças diretas do transcendentalismo católico, e da idéia de natureza como mundana, e, portanto, sem valor, enquanto o humano é dotado de uma alma perfeitamente racional concedida por Deus, do qual foi feito à imagem e semelhança.

Quando eu era mais novo eu tinha apenas uma intuição de sobre o porque que eu discordava dessa idéia de arrancar folhas das árvores para estudar ou colocar insetinhos num pote de álcool, mas agora eu já consigo articular e elaborar críticas mais justificadas sobre isso tudo. Essa cosmovisão 'pagã', da qual posso dizer que compartilho, atribui um valor imanente à Natureza, com idéias de dignidade, respeito, harmonia, e outros valores usados no nosso sistema social. Se a sociedade é tão dependente da Natureza, como podemos não atribuir valores a ela e a seus organismos vivos, da mesma forma que fazemos conosco? Ou será que deveríamos eliminar de vez todo o valor construído em volta dos objetos, incluindo nós mesmos, e permitir um uso instrumental de qualquer coisa?

O primeiro ataque histérico que alguém tem ao ver confrontada essa cosmovisão baconiana é de reagir agressivamente, condenando a pessoa de ser contrário ao progresso da ciência e da tecnologia. Eu não sou, de forma alguma, contrário ao progresso da ciência, embora que com a produção de tecnologia eu costume demonstrar um alto ceticismo quanto às suas aplicações. Só que eu defendo que, por estarmos inseridos em uma sociedade, dependentes de suas contribuições e sujeitos às suas leis, devemos estipular restrições éticas quanto ao que é permitido para o progresso da ciência. A ciência vai evoluir, não importa com que metodologias ou que enfoque, e defendo que o conhecimento é sempre importante. O problema é o como. O método utilizado para isso. Criar um ratinho transgênico autista quebra muitas barreiras éticas, e embora produza um conhecimento excelente, a produção de papers não vale a violação da dignidade de ninguém. Podemos pensar na observação não-participante como uma metodologia mais próxima da minha postura contemplativa, mas eu não tenho uma caixinha de respostas com todoas as metodologias possíveis. Isso demandaria muitos anos de esforço e criatividade da comunidade científica, e imagino que daria certo.

Essa minha cosmovisão está bastante relacionada à concepção sistêmica, usada no estudo da ecologia, no entendimento de que todo o ecossistema está integrado e todas as nossas ações interferem no equilíbrio, e isso despenca sobre nós. A noção prática de ecologia é algo que falta em muita gente, e é urgente que se mude essa atitude na população mundial, devido aos incontáveis problemas ambientais que estamos vivendo, e que ameaçam a sobrevivência de grande parte da vida sobre a Terra. Ao meu ver, o conhecimento das conseqüências de suas ações provavelmente traz reflexões éticas muit positivas.

Então eu achei nessa minha crítica ao ensino de Biologia o meu objetivo na Psicologia: mudar a postura das pessoas em relação à Natureza. Eu sei, todo mundo ama o mar e diz que preservar o ambiente é importante, mas ninguém reflete sobre o respeito que se tem ao usar aerosol num camping ou comprar um bife no supermercado. E ter noção das conseqüência é importante, e é para isso que temos a ciência. E justamente esses esforços para a preservação ambiental é que podem ser um dos maiores propulsores da ciência e de uma relação mais respeitosa com a Natureza. Eu reconheço que algumas pessoas brilhantes podem cursar Biologia e manter ou desenvolver essa atitude 'pagã', mas num geral os mecanismos institucionais agem de maneira deformadora. E isso eu não queria pra mim, eu não queria ser obrigado a agir de um jeito diferente do que vejo. Assim eu preferi trabalhar na Biologia por outro caminho, no qual posso conseguir mais instrumental para as minhas lutas.
Tá, isso não quer dizer que o curso é ruim, a profissão é corrupta e ninguém tem discernimento pra encarar essas práticas. Na verdade, é a minha paixão. E só porque eu não tinha maturidade, apoio e conhecimento pra combater as questoes das quais discordo, não quer dizer que pessoas que compartilham da mesma visão que a minha devam evitar o curso. Pelo contrário, melhor que se formem muitos biólogos engajados. Eu só não troco de curso porque eu estou gostando do meu e quero habilitação psicólogo.

Quem quiser conhecer o homi:

Um comentário:

  1. Bah cara mas assim tu acaba com as minhas perspectivas dentro do campo científico..
    Nunca passou pela minha cabeça usar o conhecimento científico pra manipular a natureza ou usar a favor somente da espécie humana, muito pelo contrário, sempre quis fazer Bio pra prestar um serviço ao planeta, pra pelo menos diminuir a minha ou nossa dívida com ele. Eu só espero que nao me decepcione com algumas coisas que rolam dentro do curso, vai ser foda encarar o uso de animaizinhos pra fins de estudo. Eu quero que isso mude, só vou precisar de apoio de alguns colegas ^^

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