sábado, 22 de dezembro de 2007

Porque eu não cursei Medicina





Mais um capítulo da série "Porque eu não cursei...", na qual eu vou refletir sobre os motivos que me afastaram de outros cursos considerados vocações para mim. É negando o outro que a gente se identifica, como diria o velho Hegel (não acreditem em tudo que ele diz). Curiosamente, são os mesmos cursos que os meus amigos fazem ou vão fazer, mas eu não quero desmotivar ninguém, só compartilhar algumas reflexões que podem até ser resolvidas.


Pois é. Medicina. O curso mais difícil, mais respeitado, mais apavorante e mais cobiçado daqui. Todas as famílias se orgulham de terem filhos médicos, ou no mínimo acham uma boa idéia. Já me disseram que eu tinha cara de médico, por ser estudioso, ter 'sangue frio', ter uma tendência a estudar questões de saúde e muitas outras qualidades boas para um médico. E que eu poderia me especializar em Psiquiatria e receitar remédios, que era muito melhor que 'só' Psicologia.


Mas eu nunca gostei tanto assim de Medicina, apesar de já ter cogitado várias vezes. Nenhuma dessas implicâncias é necessariamente por causa da ciência ou da profissão, mas mais pelas politicagens e hábitos associados a elas.


Nunca tive problemas com cadáveres, doenças e cortar coisas, nem com decorar pacas, apesar de não ter o costume de usar o caderno, o que é extremamente útil num curso desses. Mas eu não gostava da frieza da relação médico-paciente, e na época que eu pensava sobre isso eu não sabia da existência do movimento de Humanização da Saúde, da Reforma Psiquiátrica, da Anti-psiquiatria e nem tinha assistido ao Patch Adams.


Engraçado que essa não foi a minha única crítica à Medicina que eu encontrei também na Psicologia. Na Medicina, me desagradava a prática da Medicina Reparativa, em contraste com a Medicina Preventiva. Mais que isso, eu não queria ser como só mais um tijolinho no muro consertando erros, enquanto a máquina central continuaria a produzir erros com a mesma freqüência. Eu não queria fazer cirurgia para quem tivesse problemas cardíacos, eu queria que todos fizessem exercício desde o início. Queria agir nas causas sociais dos problemas de saúde. Só que, na época, não via perspectivas de fazer isso dentro da Medicina. Acho que foi engano meu, porque eu tenho essa mesma crítica dentro da Psicologia, e tem muita gente lutando pra conseguir fazer alguma coisa quanto a isso.


Na Psicologia eu também me deparei com muitas problematizações em cima da instituição hospitalar, o que faz eu pensar que foi uma boa eu entrar pra Psico. Ou que eu deveria estudar essas coisas e trocar pra Medicina, mas não quero isso, não. Prefiro só discutir e recomendar leituras aos médicos. Vocação de professor.


Mas os problemas institucionais realmente me afastaram da Medicina. O ritmo alucinante, não podendo atender com o devido esforço aos pacientes que gostaríamos. A economia de recursos com pacientes de alto risco. A exigência dos superiores para receitar determinada terapia. O controle sobre as outras profissões. Ser obrigado a fazer coisas qeu não concorda devido às exigências da instituição. Ter que obedecer questões do código de ética dos quais discorda.


Na verdade, tem muitos médicos que conseguem liberdade para agir de forma mais ética dentro de uma instituição hospitalar. E tem também os clínicos, que agem muito baseados em suas convicções. E isso pode ser perigoso, pois daí falta uma ggeneralidade do código de ética e da atuação profissional. Além disso, eu tenho certos preconceitos com profissionais liberais, relativos a questões de mercado.


Que nem no caso da objeção de consciência que os médicos brasileiros fazem com relação à demanda de aborto. O aborto é permitido no Brasil em casos de estupro ou risco de vida da mãe, e abortos clínicos em função de falta de planejamento familiar ou opressão de gênero ocorrem apenas em clínicas privadas superespecializadas que passam por cima da lei ou em fundos de quintal, por fora da lei e que trazem grandes riscos às pacientes devido à falta de preparo e equipamento. Mas permitido não quer dizer realizado. A Igreja Católica é muito forte aqui no Brasil, e é a principal opositora da legalização do aborto, assim estendendo suas influências fortemente dentro da classe médica. Então, mesmo que a mãe não tenha nenhuma condição de criar um filho, ou que ela tenha passado por um triste caso como os já comentados, o médico tem o direito de se recusar a realizar a operação. Eu vejo esta atitude como uma falta de unidade do código de ética da Medicina e como uma interferência da religião na política e na ciência, estabelecendo critérios para a vida baseando-se em crenças religiosas. Mas na nossa legislação, o médico está tão no direito de se recusar a realizar um aborto quanto um estudante está de se recusar a participar de aulas com experimentação animal, pois a lei caracteriza esses posicionamentos como crenças pessoais que devem ser respeitadas. Já eu caracterizo como uma crença religiosa de um lado, e uma postura política e crítica institucional de outro. Mas de qualquer forma, não dá pra obrigar os médicos a realizar as operações e nem deixar que eles se eximam de suas responsabilidades. País grande e desigual dá nisso, desigualdade da educação científica e falta de unidade do código de ética.


Os médicos lidam com conflitos éticos constantemente, em assuntos como a aplicação de determinado procedimento cirúrgico de alto risco ou dar atenção a determinado paciente em detrimento de outro. São deicsões éticas que as pessoas comuns não precisam tomar, mas que os médicos têm a obrigação de encarar. Eu questiono se, se o sistema de saúde fosse estruturado de forma diferente, esses problemas ainda se apresentariam. Talvez eles sejam causados pela própria institucionalização da Medicina desta forma. O médico tem a obrigação de dispensar muitos esforços e recursos para tentar curar, muitas vezes inutilmente, um paciente com câncer, enquanto que em outras sociedades pode ser simplesmente aceita a morte da pessoa como um processo natural ou como inevitável conseqüência de ações passadas. Claro, em algumas sociedades também é visto como castigo divino ou como presença do demônio, e isso não é muito humanitário. Mas é possível ter diferentes relações com a doença e a morte que não esta intervencionista, combativa e reparadora da nossa Medicina.


Eu acho essa exigência da profissão de combater na morte e tentar reparar algo que é conseqüência de hábitos ruins, como um câncer de pulmão causado por fumo excessivo, algo muito cruel. Cruel para os trabalhadores médicos. É um tipo de exigência que eu não iria suportar, principalmente porque meus questionamentos não seriam ouvidos ou atendidos.


Ter que encarar a morte do paciente e atribuir isso à minha causa também não é algo que eu gostaria. Até por não ver a própria doença, acidente ou tragédia sofrida como causada por mim, e seria muito controverso fazer algo no qual não acredito. Por outro lado, seria muito chato encarar tranqüilamente a morte de um paciente enquanto eu poderia ter feito alguma coisa. Como que os médicos e pensadores da medicina pensam sobre isso, eu não sei. Mas é importante saber.


Dentro dos conflitos éticos e obrigações institucionais que eu quis evitar está também a receita de medicamentos. Ela é a principal prática terapêutica da nossa medicina, e é muito criticada devido à sua articulação estreita com a corrupção e os interesses da indústria farmacêutica. Efeitos colaterais, medialização e normatização do comportamento, receita de remédios errados, distribuição desigual do acesso à saúde à população, experimentos em animais com o intuito de dar respaldo jurídico para os laboratórios, produção de dependência da medicação, controle do itinerário do paciente, custos expensivos com bengalas em vez de um treinamento pra fortificar as pernas. Tudo isto está envolvido com a utilização de remédios, que é inevitável na profissão médica. E como eu não queria ter que receitar remédios testados em animais, mas teria que fazer isso, não tinha jeito de eu passar pela Medicina.


Na verdade isso era só o que eu achava, devido ao meu desconhecimento da área. A Medicina, assim como qualquer ciência, é muito mais ampla e variada do que supõe quem vê de fora, e as possibilidades de atuação e mudanças estão aí, para quem tiver disposição para estudar e militar. Eu acho que estudar células ou doenças intestinais é muito chato, mas se eu me transferisse para a Medicina eu ia levar comigo o Michel Foucault, a Análise Institucional, o Humanismo e tudo o que se tem sobre Ética e Antropologia da Medicina.


Hunter Patch Adams é um ativista legal. Ele veio pro Brasil esse ano e eu perdi, mas imagino que ele venha de novo.

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