segunda-feira, 8 de setembro de 2008

As idéias do Lutzenberger e as minhas

Mês passado participei de um evento muito bacana que foi a I Semana de História e Meio Ambiente e I Mostra de Documentários Ambientais, promovido pelo movimento estudantil da PUC-RS. É muito feliz ver o pessoal da História rompendo as barreiras tradicionais da disciplina e se apropriando dos problemas ambientais, cosntruindo aquela palavrinha mágica da transdisciplinaridade, embora não tenham usado esse termo nenhuma vez. Mas foi isso o que aconteceu: biólogos, historiadores, cientistas sociais, jornalistas, geógrafos, professores universitários dessas áreas, a turma do técnico em monitoramento e controle ambiental e dois estudantes de psicologia perdidos, mas muito interessados, participantes e críticos.
A temática central era sobre o meio ambiente no Rio Grande do Sul, sobre os riscos e negligências do bioma pampa, a ameaça das grandes empresas da celulose, Aracruz e Stora Enso, a perda da biodiversidade e um estudo e homenagem a um dos maiores ícones do ambientalismo no Rio Grande do Sul, José Antônio Lutzenberger. Foram exibidos dois documentários sobre a vida dele, 'Lutzenberger:For Ever Gaia' e 'O Legado Lutzenberger', e teve uma mesa-redonda com outros dois ícones do movimento ambientalista, Augusto Carneiro e Flávio Lewgoy. Com todo esse panorama, deu pra ter um quadro geral dos pressupostos epistemológicos do movimento ambientalista gaúcho e das idéias do Lutz, como é chamado. Adoro demais ouvir teorias e palavras de sabedoria de pioneiros e veteranos, e suas histórias de vitória e militância, e mudança de paradigma. Porém, não pude deixar de notar que todos os ambientalistas que falaram e a grande massa que estava presente pareciam se enquadrar em um ambientalismo softcore, com um discurso sem práxis e sem uma crítica propositiva de mudanças estruturais nos modelos econômicos. Por isso, softcore.
Cheguei atrasado e perdi o começo do primeiro filme, então peguei a partir da crítica que Lutz tece sobre a destruição ambiental causada pela moderna tecnologia industrial. Levanta os clássicos problemas de exploração dos recursos naturais, poluição, devastação e produção de lixo produzidos pela indústria e por todo o sistema capitalista desde a Revolução Industrial. No entanto, ele erra ao considerar a destruição ambiental atual como inerente à natureza da tecnologia. Isso porque esse enunciado pressupõe que tecnologia significa qualquer equipamento complexo produzido em uma indústria por uma linha de produção em série e que consuma alguma das fontes energéticas desenvolvidas a partir da Revolução Industrial, desconsiderando que vasos, talheres, tapetes, roupas, iglus, arados, enxadas, fornos e muitos outros instrumentos bem mais simples em termos de composição e de produção sejam também tecnologia. Segundo a Wikipédia:
" Tecnologia (do grego τεχνη — "ofício" e λογια — "estudo") é um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas, processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento."
Ou seja, a aplicação sistematizada dos ossos conhecimetnos e o uso de instrumentos é tecnologia. Isso é inerente e necessário à vida do Homo Sapiens e de outras espécies também. Não que isso seja bom ou ruim em si mesmo, e sim que é algo qeu acontece, e até hoje nunca vi ninguém defender que esqueçamos todos os nossos conhecimentos para tentarmos viver a vida como ignorantes absolutos. A tradição energética e de consumo da Revolução Industrial realmente ferrou com o nosso querido planetinha, que se torna cada vez mais pobre em recursos naturais, mas a solução não é abandonar a tecnologia, mas sim tranformá-la. Se o problema são os combustíveis fósseis e a poluição, precisamos de tecnologias energéticas e de produção limpas. Não se trata de reformar, com motores mais eficientes e econômicos ou estipulando taxas limites de poluição para as empresas, mas sim de instalar carros a hidrogênio e enegia elétrica derivada de baterias solares, e métodos de reaproveitamentos de produtos químicos dentro das próprias empresas. Temos o dever ético de sustentar toda a população do globo e de poupar os nossos ecossitemas, em uma missão cornucopiana que só será possível com as promissoras eco-techs.
Os ambientalistas clássicos falam na importância da mudança de consciência, mas ao meu ver a chave para salvar o globo está na modificação estrutural do sistema econômico. Consciência é super legal, mas ela não necessariamente leva a uma práxis. Essa é uma tese clássica da escola marxista, de que a tomada da consciência de classe levará necessariamente à luta contra o sistema econômico, sendo então tarefa dos intelectuais levar essa consciência de classe para os até então alienados. Não gosto dessa atitude missionária, duvido de que a consciência de classse sempre correponde aos interesses dos indivíduos desses grupos e considero as massas bastante prescindíveis nas decisões políticas (ninguém é absolutamente esclarecido, e esperar que todos sejam para então fazer alguma coisa é querer demais, além de achar que quem está ensinando a ter consciência já está prévia e absolutamente certo). Além de que a importância dessa consciência de classe está em combater valores metafísicos, como O Capitalismo ou A Exploração da Terra, e novas idéias como O Socialismo ou Gaia vão diretamente destruir todas as manifestações concretas dessas antigas cosmovisões. Considero a produção de culturas mais humanitátios um passo importantíssimo para uma mudança estrutural, mas me parece que o mais importante é a mudança em si de cada manifestação concreta dessas ideologias, sendo nomeadas e repensadas, como a substituição pelo combustível do hidrogênio, a Reforma Agrária, o biogás, a reciclagem do lixo eletrônico, o mercado agrícola local, metrôs movidos a energia elétrica, energia solar caseira ou o transporte a pé. O Marx disse que as forças produtivas é que criam a cultura, e não o contrário, e é desse conhecimento que a gente tem que se apropriar para agir mais diretamente.
A crítica à insustentabilidade envolve também uma crítica ao capitalismo, e isso o Lutz apontou de forma magnífica: o mercado é cego às necessidades humanas. A mão invisível que rege o mundo esmaga os humanos que considerar inúteis, que não tiverem como contribuir monetariamente com o sistema ou que se coloquem no caminho dos recursos qeu a mãe desejar pegar: velhos, índios, pobres, povos excluídos do mercado que detém recursos naturais em seu território... Novas necessidades humanas são impostas em função dos produtos oferecidos e necessidades básicas são negligenciadas por não serem lucrativas. Uma fábrica polui o rio que alimenta determinada vila e, sem ter o que comer e sem a mínima noção de seus direitos constitucionais, a vila se submete a trabalhar na parte mais arriscada, imbecil e alienante da linha de produção por um valor salarial ínfimo, para então comprar a água que conseguiria de graça e mais limpinha. A consciência têm dois papéis fundamentais aí: da parte da vila, de conhecer seus direitos e como se organizar politicamente, o que só é possível com determinadas formas de acesso à educação; da parte dos cidadãos externos à isso, conhecer a origem dos produtos que são vendidos em sua cidade e não consumir dos mesmos, a fim de que essa máquina quebre e a fábrica seja forçada a sair de lá. Para proteger essa vila, penso em duas opções: Estado de Bem-Estar Social e Previdência Social ou Auto-gestão. Novas sugestões são muito bem-vindas, mas pretendo deixar essa discussão para mais tarde.
Esse exemplo da vila retrata bem uma das grandes polêmicas silenciosas da atualidade que é sobre a quem pertence a terra (ou Terra?). Pertence ao Estado, ao povo que ali está, a cada indivíduo em particular, a quem chegar primeiro? Como distribuir e como atribuir valor a cada pedaço de terra? Por extensão, localização geográfica, riqueza do dono anterior, produtividade, biodiversidade, oferta e procura? Enquanto não se refletir e não se entrar em consenso sobre isso, a Reforma Agrária não será possível e os direitos das populações de fora do mercado permanecerão constantemente violados, e o mercado se apropriará dos pedaços de terra e vai fazer isso que a gente vê acontecendo. A população urbana já nem sabe mais o que é terra, e a população rural só sonha com isso. As entradas são proibidas, é tudo muito longe, o dono é desconhecido. A ONU não dá palpite e as universidades fecham os olhos, e nem o opressor nem o oprimido cogitam a hipótese da democracia e da equalidade.
Segundo tradições indígenas que o Lutz admira bastante, não são os humanos que detém a terra, mas ela que detém os humanos. Com isso eles convocam a pessoa a um apego à terra e à responsabilidade de preservá-la e cultivar sentimentos normalmente direcionados apenas a humanos(e olhe lá!), como respeito e devoção. Tenho minhas dúvidas de que essa idéia seja apenas discurso e não práxis, pois povos tribais também fazem guerra e destroem a Natureza, como disse o Jared Diamond. Mas se essas culturas pagãs, de devoção à Natureza, também envolvem práticas sustentáveis, certamente são idéias que precisamos incorporar. Tenho certas ressalvas quanto à visões místicas, ainda mais quando se existe a promessa de que são a única salvação, e considero perfeitamente possível atribuir valores mais positivos à Natureza a partir de uma visão secular, mas nada contra as pessoas considerarem a Terra uma divindade, o importante é que não se trate os nossos recursos naturais como dispensáveis ou passíveis de exploração. O Lutz sintetiza essa ética ao dizer "nós não herdamos a terra de nossos pais, nós a pegamos emprestado de nossos filhos e netos". É uma subversão do nosso conceito de propriedade.
Alguns ambientalistas não chegam a defender um valor transcendente para a Natureza, mas apontam a experiência estética como a chave para o despertar da consciência e proteção ambiental. Sou cético enquanto a isso, pois me parece muito fácil que as pessoas aproveitem as delícias da Natureza, achem o mar superagradável e as borboletinahs voando a coisa mais lindinhas, mas continuem alienadas dos processos de produção e consumo, e assim as pessaos vão pra praia e compram suas garrafinhas de Coca-Cola para apreciar a vista e o vento. Confio muito mais na divulgação da ciência como forma de conscientização, pois as pessoas querem e precisam de informação sobre como é o mundo, como descobrir, o que fazer e como fazer. A divulgação científica intrumentaliza teoricamente as pessoas, os torna mais céticas e investigadoras, e amplia os horizontes do conhecimento, da procupação e do poder da pessoa. Precisamos saber o que fazer, como intervir e como desenvolver tecnologias, para que faça sentido nos preocuparmos com a destruição ambiental - ou não passaria de uma falta de esperança sobre uma catástrofe iminente. Para isso, precisamos popularizar a ciência, principalmente as ciências ambientais - de fato, a grande maioria dos livreos de divulgação científica é sobre evolução ou neurociências, que, por mais que sejam interessantes e importantíssimos para a educação científica e desenvolvimento da ciência, não me parecem tão urgentes quanto as ciências da terra.
É importante reconhecer esse papel da ciência. Sem esse conhecimento, nem saberíamos a amplitude dos problemas ambientais, nem de onde vem, e nem teríamos feito nada a respeito. Alguns grupos fazem passeatas, mas outros estão pesquisando e desenvolvendo eco-techs. O lutzenberger aponta que ciência e tecnologia são a principal fonte de poder no mundo moderno, e a maior parte da população é iletrada em ciência e tecnologia. Ou seja, vivem em um mundo cheio de equipamentos dos quais usufruem, mas que não sabem como criá-los, nem de onde vem, nem quem está ganhando com isso e pra quê, e assim consomem mais e mais simplesmente porque está no mercado.
O Lutzenberger trabalhava com educação ambiental através de seu sítio, o Rincão Gaia, que é um lugar bem bonito, tranqüilo e com bichinhos. No evento, compareceu um trabalhador e representante do Rincão Gaia, e fizemos perguntas para ele. Eu queria saber se existia pesquisa e publicações sobre o modo de produção agrícola promovido no Rincão Gaia, e ele deu a antender que não. Mas foi decepcionante ele dizer que eles criam e abatem aimais lá, porque o Lutz dizia que não tinha problemas se a criação fosse sustentável e o abate, indolor. Nunca vi nenhum estudo bem feito mostrando como se faz uma criação de animais para consumo de forma sustentável. Pior ainda, nunca vi nenhuma justificativa ética que preste que aponte para um assassinato não-consensual humanitário, como muitos defensores do bem-estar animal propagandeam. Aparentemente, a filosofia desses ambientalistas defende a preservação dos números que eprmitem o equilíbrio do ecossistema, e não necessariamente com os sujeitos coexistentes nesse ecossistema.
Esses que eu chamei de ambientalistas softcore não sustentavam nenhuma crítica ao sistema pecuário - pelo contrário, a defendiam como uma opção ao plantio de pinus e eucaliptos, e finalizavam com a piadinha esdrúxula de que gostam de uma picanha. Nenhuma criação massiva de gado pode ser sustentável, pois envolve desmatamento, consumo exagerado de recursos e poluição dos rios e da atmosfera, além de gastos com transporte e refrigeração. Enquanto esses ambientalistas não atacarem a própria estrutura da pecuária, o aquecimento global continuará aumentando. A mudança deve ser na estrutura econômica, não simplesmente na consciência.

*Levei muito tempo escrevendo esse post, entõa talvez esteja meio solto, assim...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Objeto transferencial

"Não enche, máquina estúpida!"

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Texto extraído da comunidade ' Bibliotecários Subversivos '



Independência ou Morte! Des(ordem) e Progresso! Liberdade, ainda que tardia!
- Bibliotecas polissêmicas, plurissignificativas e ecléticas!
- A biblioteca é uma espaço de inter-relações pessoais, interação social, comunicação, criação, transformação, conflito, discussão, convivência, riso, dor, paixão, produção sociocultural!
- A biblioteca é do Povo, para o Povo!Seu poder, sua construção, uso, transformação e destruição emanam do Povo!
- Música, teatro, dança, artes plástica, literatura, tai chi chuan na Hora do Conto!
- Biblioteconomia: CRIATIVIDADE, CRIAÇÃO, CRITICIDADE, CONFLITO CULTURAL, INTERAÇÃO SOCIAL;
- Bibliotecas alegres, vivas, bonitas e tão agitadas quanto os “shopping-centers” (E.N.Fonseca)
- Interação, oxigenação e diversidade sexual, racial, religiosa e gastronômica nas bibliotecas! Homens e mulheres num bolo só;
- TV de plasma, DVD, Som, Telão, Canhões de projeção, Karaokê… é “nóis”!
Lei Áurea Bibliotecária. Abaixo a Mediocridade!

sábado, 16 de agosto de 2008

Tédio e Luxo



Por que razão alguém gostaria de um trabalho desses, de tempo integral, sem pagamento, arriscado, só recebendo comida e água? Ao meu ver, isso está longe de ser um trabalho. Está mais próximo de ser uma aventura.
Para uma aventura, nos dispomos a correr riscos, dormir mal, gastar dinheiro. Investimos muito dinheiro numa aventura. As pessoas pagam por viagens, festas, horas no campo de futebol, acampamentos e mais uma infinidade de atividades divertidas. Mas para investir nessas atividades, precisamos de dinheiro, e, para isso, temos que trabalhar. Se no trabalho não se investe tanto e não nos dispomos a tanto, ele não é tão divertido, então temos o seguinte esquema: fazemos coisas chatas para ter dinheiro para fazer coisas legais.
Isso nos traz a outra questão. Cada vez mais a renda média aumenta, em função da mobilização do capital e outros fenômenos econômicos, e cada vez mais aumenta a necessidade desse aumento na renda média para consumir a variedade crescente de produtos. As pessoas ficam dependentes do dinheiro, porque são dependentes dos produtos. São dependentes desse dinheiro porque não estão vivendo uma aventura. Estão entediadas.
Numa situação de aventura, o dinheiro não importa. Ele não é necessário, porque não precisamos comprar nenhum tipo de artefato para nos divertirmos. Toda a diversão está no ar. Os artefatos comprados com o dinheiro do nosso trabalho são uma forma de compensar o desprazer do trabalho, de uma vida tediosa e um cotidiano alienante. As pessoas não se envolvem com seu dia-a-dia, por isso tentam escapar de qualquer forma, gastando o que tiverem para ter um pouco de felicidade e distração, longe do resto do dia. Trabalham justamente para fugir do trabalho, e nessa equação, o resultado acaba sendo zero.
Se as pessoas vivessem vidas de aventura, todos achariam esse anúncio da Sea Shepherd Conservation Society a coisa mais natural do mundo. Marinheiros não precisam de dinheiro.

Trabalho escravizante, paixão e arte


Trabalhar mais de oito horas por dia é desumano. Isso segundo a escola de pensamento trabalhista que tem voz na legislação. Outras escolas de pensamento, como o do anti-trabalho, consideram que o trabalho por si só é desumano e extrai dos indivíduois as forças que poderiam ser usadas para o ócio e o lazer. O modelo neoliberal exige que os trabalhadores invistam cada vez mais tempo e energia a fim de sobreviver no mercado altamente competitivo, perdendo em humanidade e ganhando em produtividade. As pessoas correm para se adaptar ao sistema, mas considero importante parar para pensar em qeu tipo de sistema se quer viver. Viver para trabalhar, é isso o que queremos?
Se essa pergunta foi feita a um workaholic, a resposta é sim. Workaholics são pessoas viciadas em trabalho que trabalham o máximo de tempo que lhes for permitido e sentem-se muito insatisfeitos quando não estão trabalhando. Esse quadro apresenta vários sintomas psicopatológicos, como insônio, surtos de raiva, stress ou depressão, o que nos faz pensar que é uma subjetividade desumanizada e sofrida. Alguém que deveria trabalhar menos e fazer outras atividades, em vez de viver nesse regime de escravidão.
Mas e se o trabalho é realmente uma grande fonte de prazer? Se a pessoa é movida pela paixão, e não pela pressão? Existirão ainda essas condições desumanas na atividade do trabalho? Faço essas perguntas pensando na imagem do artista desvairado que passa horas e horas e horas pintando, esculpindo ou compondo, num regime de dedicação exclusiva, só parando para comer e outras necessidades básicas, mas investindo no trabalho como se fosse toda a sua vida. Será ele um escravo? Se toda a sua vida gira em torno de uma única atividade, e ele também come, dorme e faz sexo no mesmo local que trabalha, sem parar para se distrair, e todos os seus pensamentos se voltam para esta atividade, a sua única diferença em relação a um escravo é a motivação?
Trouxe esse exemplo porque romantizo bastante essa imagem. Realmente gosto dessas loucuras de passar muito tempo em torno de uma única atividade que faça sentido e seja produtiva e prazeirosa para mim. Acho muito bonito, útil e interessante ficar dias e dias envolvido somente com o estágio de vivência, ou com a banda, ou com a história em quadrinhos, com o filme, com a redação de um livro, a leitura de um livro, o kung fu, a greve geral, a perseguição dos baleeiros, enfim. Parece que isso dá um sentido para a vida e uma sensação de integração, e que tudo vai fluir nesse sentido. Mas parece que o trabalho precisa realmente fazer sentido e ser fonte de prazer, senão, esse mesmo regime sem essa motivação seria simplesmente torturante e alienante.
Esses trabalhos que citei exigem a dedicação de corpo e alma, em vez do 'bater ponto' típico da sociedade capitalista. O trabalho enquanto obra de arte exige o ócio e a dedicação apaixonada à obra, que seria o projeto definido pelo próprio artista. Isso, por sua vez, contraria a política do trabalho enquanto obrigação e enquanto necessidade de renda, e se torna atividade lúdica, só que mais séria e com um toque de loucura.

Um toque de Augusto Boal:

"Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à sua arte -- é seu direito ou condição! --, mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida"

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Moderação demais

Uma das coisas que me deixa mais incomodado é ser chamado de radical, ou radical demais, em função de minhas idéia e posicionamentos políticos. Isso me incomoda porque acho um julgamento extremamente preconceituoso e enviesado, que dissertarei numa postagem próxima. Mas algo que me deixa ainda mais incomodado é ser chamado de 'moderado demais', porque isso significa ser frouxo, covarde e pouco crítico e subversivo. A primeira me incomoda por ser um preconceito imbecil, a segundo por ser uma verdade que me desestabiliza.

Pois é, eu tenho algumas idéias bastante fortes e chocantes, e muitas vezes dou uma de moderado e fico de boca fechada para não ofender ou desestabilizar ninguém. É compreensível, porque é muito sábio prever as conseqüências dos seus atos. Mas também é muito sábio atender ao dever de transformar a nossa realidade e trazer a luz, ou informação, aos que vivem na ignorância, sempre espalhando a verdade e as boas idéias. Isso, muitas vezes, significa comprar uma briga, ou seja, sustentar uma discussão, Além de preparo, também é necessário pique e concentração para isso, e nem sempre eu estou no clima. Mas eu também não posso transformar esse cansaço num hábito, e tenho que mostrar meu espírito de guerreiro, pois só depois do cansaço é que a luta começa, como diria a velha Genkai.

Mas e se isso significa que a pessoa vai levar a briga para o lado pessoal e ficar ofendida com o ataque às suas idéias? Por um lado, é preciso ter sensibilidade para não causar um dano emocional na pessoa gratuitamente, só para impor o próprio pensamento, como um sobrinho ateu criticando a religião na frente de sua religiosa vovó sem o mínimo comedimento, como se estivesse falando com amigos ou com acadêmicos. Por outro lado, existe uma tremenda falha na educação na população em geral que se refere ao despreparo para discutir criticamente e pluralisticamente. As pessoas são apegadas à próprias idéias, e se têm a intenção de discutir, devem se desapegar delas, pois podem estar erradas, e provavelmente estarão: ninguém sabe tudo, sempre tem algo a aprender.

Ok, fiz uma linda defesa do espaço acadêmico como um espaço plural e democrático no qual todos são humildes e constroem o conhecimento na maior diversão. Mas nem sempre funciona assim, e muitas vezes as autoridades são as mais apegadas às próprias idéias, o que inviabiliza qualquer discussão razoável. Nesse caso, o que fazer? Por motivos pragmáticos, podemos ficar quietos e fazer de conta que o que o professor diz tem algum sentido, correndo o risco de ouvir o mesmo discurso ideológico repetidas vezes e permitir que os colegas também sejam vítimas dessa lavagem cerebral, a fim de não perder energia discutindo com um gravador que não pensa epistemologicamente e parece não ter capacidade de introspecção. Mas, em defesa da verdade, da democracia e do propósito daquele espaço, torna-se dever comprar essas brigas, por mais infrutíferas que sejam, pois desestabiliza e permite a mudança, e ainda funciona como uma propaganda pelo ato, mostrando o qeu deve ser feito em sala de aula. Se ignorado por estupidez do professor, ao menos os colegas verão o seu martírio e o quão estúpido é o professor. E se o professor ficar ofendido, que peça para sair, pois a academia não é lugar para quem chora por ser criticado.

Mas e fora da academia? Criticar radicalmente só gera inimizade. Bom, aí entram as estratégias de comunicação e como apresentar uma idéia de forma objetiva e não falaciosa, mas ainda assim persuasiva, escohendo bem as palavras e usando um tom suave, com compreensão e empatia. Se a pessoa vai expor suas idéias, por que deveríamos ficar calados? Não poderíamos expor também?

Na aventura do conhecimento, aparecerão muitas barreiras, e devemos ultrapassá-las vigorosamente. Saúde!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Artigos da Natalie Portman

Vocês sabiam que a Natalie Portman é psicóloga? E ainda por cima, cientista? Pois é, descobri isso no blog SEMCIÊNCIA, e consegui os dois artigos dela publicados, sob o nome de Natalie Harshleg. Particularmente, tenho uma queda por mulheres cientistas, e adoro saber fofocas bizarras sobre as celebridades, o que me motivou a postar isso tudo. O mais legal é que os artigos dela são interessantes, e são muito mais ciência do que o que é produzido no nosso Instituto de Psicologia.



Title: Frontal lobe activation during object permanence: Data from near-infrared spectroscopy



Author(s): Baird AA, Kagan J, Gaudette T, Walz KA, Hershlag N, Boas DA
Source: NEUROIMAGE 16 (4): 1120-1126 AUG 2002
Document Type: Article
Language: English
Cited References: 24 Times Cited: 23
Abstract: The ability to create and hold a mental schema of an object is one of the milestones in cognitive development. Developmental scientists have named the behavioral manifestation of this competence object permanence. Convergent evidence indicates that frontal lobe maturation plays a critical role in the display of object permanence, but methodological and ethical constrains have made it difficult to collect neurophysiological evidence from awake, behaving infants. Near-infrared spectroscopy provides a noninvasive assessment of changes in oxy- and deoxyhemoglobin and total hemoglobin concentration within a prescribed region. The evidence described in this report reveals that the emergence of object permanence is related to an increase in hemoglobin concentration in frontal cortex.


A Simple Method To Demonstrate the Enzymatic Production of Hydrogen from Sugar


Natalie Hershlag Syosset High School, Syosset, NY 11791
Ian Hurley Department of Obstetrics and Gynecology, North Shore University Hospital, Manhasset, NY 11030
Jonathan Woodward Chemical Technology Division, Oak Ridge National Laboratory, Oak Ridge, TN 37831-6194
October 1998 Vol. 75 No. 10p. 1270

Full Text (PDF)


Abstract
There is current interest in and concern for the development of environmentally friendly bioprocesses whereby biomass and the biodegradable content of municipal wastes can be converted to useful forms of energy. For example, cellulose, a glucose polymer that is the principal component of biomass and paper waste, can be enzymatically degraded to glucose, which can subsequently be converted by fermentation or further enzymatic reaction to fuels such as ethanol or hydrogen. These products represent alternative energy sources to fossil fuels such as oil. Demonstration of the relevant reactions in high-school and undergraduate college laboratories would have value not only in illustrating environmentally friendly biotechnology for the utilization of renewable energy sources, such as cellulosic wastes, but could also be used to teach the principles of enzyme-catalyzed reactions. In the experimental protocol described here, it has been demonstrated that the common sugar glucose can be used to produce hydrogen using two enzymes, glucose dehydrogenase and hydrogenase. No sophisticated or expensive hydrogen detection equipment is required-only a redox dye, benzyl viologen, which turns purple when it is reduced. The color can be detected by a simple colorimeter. Furthermore, it is shown that the renewable resource cellulose, in its soluble derivative from carboxymethylcellulose, as well as aspen-wood waste, is also a source of hydrogen if the enzyme cellulase is included in the reaction mixture.