sábado, 29 de novembro de 2008

O Direito Penal Divino dos Reis


O Direito Divino dos Reis foi uma longa tradição durante o complexo e diversificado período caracterizado como Idade Média na Europa, que consistia na atribuição dos poderes de governar soberanamente, ou seja, que a vontade do rei era a lei, que era concedido pelos membros do clero. Dessa forma, uma das classes sociais mais poderosas legitima outra das classes sociais mais poderosas no seu direito de governar. Por que? Porque a nobreza tem terras, e todo mundo quer terras, mesmo que a burguesia não dê tanto valor a elas.
Os burgueses e os proletários criticam a monarquia absolutista, acusando-a de injusta e arbitrária. No entanto, é um dos sistemas políticos mais seguros de todos, tanto é que durou muitos séculos. É o único sistema no qual todos têm clareza de que os governantes são os proprietários de terra, e as mesmas pessoas que têm todo o poder. Isso facilita muito a escolha dos alvos para uma possível revolução ou golpe de estado, principalmente dentro da própria família real. Esse clima de instabilidade permite aos plebeus fazerem o que quiserem, ou seja, traz liberdade.
Além disso, as políticas são continuadas. Enquanto nas democracias de governo partidário provisório, as políticas públicas são meladas de uma eleição para outra, como a construção de estradas ou pontes, e são feitas somente obras menores, nas monarquias absolutistas as políticas são grandiosas e continuadas. Construção de estátuas em homenagem ao rei ou príncipe, guerras que duram mais de trinta anos e ações inquisitórias que duram um século inteiro de perseguições declaradas. O rei é um visionário, ele continua o que ele quer.
Mas o principal benefício da monarquia absolutista é para o direito penal. Ou deveria ser, mais especificamente o direito penal divino dos reis. Isso significa a legitimidade do rei, enquanto ser divino e iluminado, de decidir e efetivar a pena de cada indivíduo, usando de todos os recursos políticos, naturais e sobrenaturais para isso.
Assim, o rei, enquanto soberano divino, controla tudo sobre o seu Reino. As vendas, os servos, as condutas, as roupas, as comidas, as estradas, os soldados, os costumes, as penas, os ventos, as chuvas, os trovões, o dia, a noite, o sol e a lua. Tudo está sob o controle do rei, representação de Deus na Terra. Assim, todos devem obediência ao rei e gratidão por ele ter lhes concedido o próprio direito à vida, e o direito de habitar o seu Reino e contemplar a sua Natureza e aproveitar o seu sol e suas chuvas. Se alguém desagradar ao rei, a quaisquer de suas crenças e desejos, será punido com alguma catástrofe natural diretamente pelo rei, como um relâmpago ou a devastação de sua lavoura.
Submeter a Natureza à vontade do rei, e permitir que ela seja usada como instrumento de punição para aqueles hereges mesquinhso que ousarem destratar da autoridade magnânima do rei é a melhor forma de manter uma sociedade controlada, coesa e integrada. Tudo deve se submeter e nada pode contestar a vontade soberana do que controla a Natureza - assim, nada lhe escapará, ou seja, não haverá crime, heresia ou má conduta. Todos serão felizes e terão recursos naturais em abundância, pela simples condição de obedecerem ao rei. É a força conjunta da nobreza, da Natureza e de Deus que permite a paz e a harmoia nos povoados do Reino.
Assim, proponho a monarquia absolutista, com o Direito Penal Divino dos Reis, como alternativa às leis instáveis, anônimas e negligentes do Estado Moderno, que não é capaz de satisfazer nem regular as vidas de seus próprios cidadãos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Dr. Kiki Sanford

Eu tenho uma baita tara por mulheres cientistas, e fico muito feliz quando descubro mais uma celebridade da ciência de beleza estonteante. A última, comentada aqui no blog, havia sido a psicóloga, neurocientista e atriz Natalie Portman, graduada em Harvard, com pesquisas sobre ativação do lobo frontal e até um artigo sobre produção enzimática de hidrogênio a partir do açúcar.




Agora, a minha mais nova paixão é a Dra. Kirsten Sanford, ou simplesmente Kiki Sanford (para os íntimos, damn!). Ela é PhD em Fisiologia Celular e Molecular pela Universidade da Califórnia em Davis, na qual leciona, pesquisando nos temas de neurofisiologia da cognição e da memória. Ela é uma cietista super pop que aparece em vários programas, devidamente linkados na wikipedia, e administra um site com fotos e pesquisas suas chamado The Bird's Brain.

Eu nunca acredito quando as pessoas dizem qeu inteligência é afrodisíaco, mas devo confessar que é verdade. Nossa.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O pobre choco e o tratamento da vida marinha

Eu deveria estar produzindo meus trabalhos da faculdade, mas algo me mobilizou demais e tenho que escrever a minha indignação. Eu estava alegremente pesquisando fotos sobre uma criatura marinha pela qual tenho muito apreço, o choco (cuttlefish, em inglês), quando me deparei com imagens desagradáveis e uma certa oposição muito visível mas não nomeada nas páginas do Google. Vou resumi-las apresentando as fotos mais representantes deste conflito:






O choco é conhecido como a espécie de invertebrado (veja bem, de invertebrado!) mais inteligente da Terra conhecida. São também conhecidos como os reis da camuflagem, por sua habilidade de ficar praticamente invisíveis. Sociáveis, capazes de formular armadilhas, de se comunicar trocando de cor e de nadar livremente pelos mares, são criaturas magníficas. Obviamente, não são os únicos animais marinhos brilhantes, mas são dos mais, e o mais importante: as pessaos não reconhecem isso. E essa ignorância dá margem para que idiotas pesquem, cortem, processem, empacotem, vendam, comprem e comam chocos, como se fossem batatas, em vez das criaturas brilhantes que são. O desrespeito pela riqueza cognitiva e comportamental da grande maioria dos animais da Terra é uma longa tradição entre os povos humanos, e isso fica ainda mais chocante comparando os dois universos: os dos conservacionistas, estudiosos e preocupados com a vida destes magníficos seres, e o dos capitalistas cretinos e insensíveis.

Esse quadro acaba de me mostrar como é importante informar sobre a riqueza da vida animal, e como um determinado conjunto de informações pode construir uma consciência e uma práxis muito mais harmônicas e respeitosas do que os preconceitos tacanhos dos nossos antepassados.

"We have intelligent species on our planet that we are not even trying to communicate with"
Paul Watson, http://br.youtube.com/watch?v=PnhqmF-RBu4

sábado, 1 de novembro de 2008

Modo de produção natalino




A banda Garotos Podres! acusa a figura do Papai Noel de ser um filho da puta, porco capitalista, que rejeita os miseráveis - algo que muitas pessoas, observando o consumismo da época de Natal e as propagadas da Coca-Cola, também pensaram. Alguns poucos argumentam que na verdade ele é socialista, pois distribui os presentes sem custo algum, e não lucra nada com isso, e algumas poucas crianças acreditam que é caridade. No entanto, Papai Noel não tem relação nenhuma com qualquer um desses modos de produção muito teorizados no confuso século XX, muito menos com virtudes cristãs que jamais estariam presentes em um habitante das gélidas e impiedosas terras do Pólo Norte. Papai Noel é o semi-deus governador de seu próprio modo de produção, e seu governo e poder político-econômico se estendem para além dos limites do Estado Nacional do Pólo Norte. Este é o modo de produção natalino.
A força de trabalho do modo de produção natalino é formada pelo sub-proletariado da raça duende, uma vasta população que ficara isolada nas terras do Pólo Norte, e teve todos os seus meios de produção e até a própria educação tradicional expropriados por um dissidente do capitalismo carismático, autoritário e patriarcal, interessado em violar a soberania e as fronteiras dos Estados Nacionais e eliminar a possibilidade de competição ou crise às quais as empresas comuns, mesmo as mais poderosas, devem se submeter. Papai Noel oferece a sua imagem para as forças do capitalismo, como uma distração para as suas atividades predatórias mascaradas de benefício para as grandes empresas, pedindo à benevolência das empresas a matéria-prima, inclusive lixo e produtos pré-prontos, que for excedente, estabilizando assim os preços para os empreendedores capitalistas. Os capitalistas sabem do benefício econômico que essas doações trazem para seus bolsos, e ainda recebem muito crédito da população consumidora através da atenção dada pela mídia a esses eventos de caridade. O Papai Noel também fica bem representado, e consegue toda a sua matéria-prima sem gastar nada da força de trabalho ou de recursos, pois estes inexistem no Pólo Norte. Dessa forma, o Papai Noel é o único no Pólo Norte a ter acesso à matéria-prima, fazendo os duendes se submeterem a qualquer regime de trabalho no complexo industrial, na esperança de subsistência.
Papai Noel usufrui do poder da ideologia para manter os regimes de trabalho desumanos dos duendes durante o ano inteiro, apresentando os esforços deles como altamente virtuosos, um exercício de caridade extremamente essencial para trazer a felicidade às criancinhas humanas de todo o globo. Essa estratégia está sendo utilizada, de maneira bastante rudimentar, pelo sistema capitalista no século XXI. A falta de meios de produção, de recursos, de força física, de acesso à educação, de consciência de classe, e a ideologia quase-religiosa do Natal, mantém os duendes em um regime opressivo e sem chances de empoderamento ou revolução.
Na ideologia do Natal, todos os envolvidos no modo de produção natalino têm uma missão maior: fazer os presentes para a felicidade das criancinhas no mundo inteiro. Essa missão é liderada pelo semi-deus Papai Noel, figura paternal e profética com poderes mágicos e um grande coração, ao qual os duendes devem grande obediência. As propagandas sobre as grandes viagens do Papai Noel ao final do ano sempre relativizam o trabalho explorado dos duendes, que permanecem em segundo plano - embora eles sequer saibam disso. A vida típica de um membro da corte nomeado pelo clero, com muitos caprichos satisfeitos e comidas fartas, também é ocultada da população duende, que aceita a aparência do Papai Noel como natural à sua personalidade.
Dessa forma, o sistema capitalista fica estável, Papai Noel não gasta com matéria-prima, a força de trabalho é explorada ao máximo e todos acreditam que a atitude de Papai Noel é a salvação divina. Mas as travessuras do bom velhinho não páram por aí. Durante seu pequeno período de trabalho anual - a entrega de presentes - a suposta divindade aproveita a excitação e distração da época para exercer seu poder acima da lei: transição entre as fornteiras dos Estados sem perrmissão, invasão de propriedades particulares, saque de provisões alimentares das casas (biscoitos, etc) e até perturbação do horário de silêncio. Papai Noel exige as homenagens das árvores de Natal e outros luxos e aproveita para dar a sua lição de moral etnocêntrica às crianças das culturas mais variadas, incentivando-as a se submeter à educação autoritária e permanecer individualista em uma sociedade altamente competitiva. Como ele distribui os presentes gratuitamente, as famílias e Estados Nacionais são permissivos para com ele.
Por estes motivos, é sociologicamente impreciso caracterizar o Papai Noel como um representante do capitalismo, pois, em sua economia: o trabalho não é livre, o trabalho é valorizado em seu esforço e tem o reconhecimento da relação entre o produtor e o produto, não existe lucro nem trocas comerciais, o poder de consumo é desnecessário bem como a produção subsistente e a extração de matéria-prima. Não existe competição, nem educação das massas e nem submissão à lei de outros países, pois a figura da divindade é muito carismática e inibe o espírito crítico de todos os membros das nações, pois todos conhecem crianças, que são os seus súditos e alter-consumidores mais essenciais para todo o funcionamento de sua economia e, conseqüentemente, seu poder.




Abaixo à opressão natalina, apague as luzes de sua vizinhança!

Modo de produção natalino

A banda Garotos Podres! acusa a figura do Papai Noel de ser um filho da puta, porco capitalista, que rejeita os miseráveis, algo que muitas pessoas, observando no consumismo da época de Natal e as propagadas da Coca-Cola, também pensaram. Alguns poucos argumentam que na verdade ele é socialista, pois distribui os presentes sem custo algum, e não lucra nada com isso, e algumas poucas crianças acreditam que é caridade. No entanto, Papai Noel não tem relação nenhuma com qualquer um desses modos de produção muito teorizados no confuso século XX, muito menos com virtudes cristãs que jamais estariam presentes em um habitante das gélidas e impiedosas terras do Pólo Norte. Papai Noel é o semi-deus governador de seu próprio modo de produção, e seu governoe poder político-econômico se estendem para além dos limites do Estado Nacional do Pólo Norte. Este é o modo de produção natalino.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O progresso é frio como uma navalha

Textinho publicado no jornal do Diretório Acadêmico de Psicologia da UFRGS de outubro/novembro/2008:


O progresso é frio como uma navalha

No dia oito de outubro de 2008, a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, a Fundação Osvaldo Cruz e as Faculdades de Farmácia do país inteiro fizeram muita festa, regada a muitas risadas macabras e talvez até drogas que eles mesmos adoram desenvolver. Tudo isso pela aprovação de uma lei. Talvez eu esteja exagerando, e eles não tenham feito tanta festa assim: pra falar a verdade, a lei foi aprovada silenciosamente. E o silêncio maior foi aquele dos mais afetados pela lei: os animais nas universidades.
Esses animais que eu estou falando não são os que vão todos os dias para a sala de aula, e que se reúnem em vários pequenos grupos primatas para exercitar suas habilidades lingüísticas, mas os que não têm a mínima idéia do que raios que estão fazendo naquele gelado laboratório com o crânio aberto e uma sensação estranha produzida por alguma mágica droga sem o seu consentimento. A Lei Arouca (11794/08), que tramitava há dez anos no Senado, regulamenta nacionalmente a experimentação animal nas instituições de pesquisa e ensino, padronizando os comitês de ética e que tipo de experimentos com animais podem ser aprovados ou não. Na prática, isso quer dizer que quem trabalha com experimentação animal ganhou um baita respaldo jurídico, e que os animais criados em biotérios terão o mesmo destino no país inteiro, sem entraves. Tudo isso apenas com a pressão dos representantes da nossa classe de cientistas, sem o mínimo diálogo com a sociedade civil. De fato, apesar do que o Senador Cristovam Buarque respondeu no e-mail que mandei para ele, não houve diálogo com NENHUMA organização de defesa dos direitos dos animais (Veddas, PEA, Gato Negro, Tribuna Animal, GAE, InterNICHE). Foi simplesmente a SBPC sussurrando no ouvido dos doutos senadores. Uma decisão secreta e anti-democrática, o que faz muito sentido em uma nação que proíbe acadêmicos de discutirem sobre legalização da maconha e reprime pelas armas qualquer tipo de movimento social que clama por terra, liberdade ou dignidade. Mas como nós não somos patriotas, e temos um espírito crítico relativamente afiado, o fato de violência e falta de democracia serem fortes tradições em nosso país não justifica lhufas. Não são só adolescentes sentimentais que gostam de cachorrinhos que combatem a experimentação animal, situação que os “cientistas” alegam para dizer que quem tem que decidir sobre experimentação animal tem que ser os que estão informados, ou seja, “cientistas”. Coloco “cientistas” entre aspas porque não admito que a vontade desses idiotas sedentos por patentes farmacêuticas e linhas no currículo lattes e sem a mínima capacidade de reflexão epistemológica ou ética seja colocada como representando a classe da qual fazem parte gênios humanistas como Carl Sagan e biólogos revolucionários e proponentes do Great Ape Project, como Jane Goodall e Richard Dawkins, e muitos outros cientistas honrados que preferiram ir para áreas como agicultura, climatologia, energias limpas, ciências sociais, economia, biologia da conservação e (por que não?) psicologia, para contribuir para o progresso do conhecimento e da sociedade, em vez da torturar inocentes ratinhos e sustentar sujos biotérios. A audácia desses idiotas em se apresentarem como a voz de toda a classe dos cientistas faz com que acadêmicos e profissionais mais preocupados com saúde, educação e não-violência criem instituições que realmente os representam, como Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), Ethical Science and Education Coalition (ESEC), Humane Learning, Humane Society of the United States (HSUS), National Anti-Vivisection Society (NAVS), Novivisezione - No Vivisection, Physicians Committee for Responsible Medicine (PCRM) e, quem diria, Psychologists for the Ethical Treatment of Animals (PsyETA). O nó Ciência e Direitos dos Animais é bastante forte no hemisfério norte, como dá pra perceber. Lá a discussão transcende a ridícula dicotomia proteção animal x progresso das ciências da saúde, pois aparentemente os cientistas do hemisfério norte são mais criativos para imaginar métodos rigorosos de investigação que não explorem animais (os tais métodos alternativos), já que a discussão que importa é: queremos uma Ciência humanitária e não violenta ou não? O preocupante não é a tecnologia e o acúmulo de conhecimento (pelo menos enquanto não formos atacados por uma ditadura religiosa e obscurantista), pois essas coisas vão se desenvolver de qualquer jeito, matando ratinhos ou não. A questão é: que tipo de educação é essa que legitima a violência dentro da instituição máxima do saber? Que tipo de civilização a vanguarda do saber está construindo dessa forma? É isso que queremos que nossos jovens cientistas aprendam?
Agora, com essa nova lei, a ideologia do bem-estarismo e da experimentação animal será ainda mais forte, com todo um respaldo jurídico, acadêmico e midíatico, capando com uma navalha as tentativas legais de se defender a dignidade desses animaizinhos explorados e maltratados e assim vai morrendo até mesmo o espírito crítico e a reflexão filosófica da nossa tão capenga academia. Qualquer vestibulando que espera transgredir as fronteiras do pensamento ao entrar na universidade irá se deparar com professores acomodados cortando suas asas e dizendo que induzir um cão ao desamparo aprendido ou arrancar o coração de uma rã viva para ver a maravilha da noradrenalina agindo é ético porque é respaldado por lei, e porque todo mundo faz. O assassinato de inúmeros seres sencientes mata também a possibilidade de uma afiada formação filosófica para os cientistas. Essa sim é uma dicotomia na qual os dois lados não podem coexistir, e cada cientista vai ter que escolher o seu e decidir que tipo de progresso se quer.

Bruno Graebin de Farias, futuro cientista de verdade

sábado, 4 de outubro de 2008

Aguardar resposta e sustentação

Estive aqui em deparando com exercícios de introspecção nos quais fiquei rememorando minhas práticas de psicoterapia (ah, tão novinho!) e atitudes nas relações interpessoais em geral, e surgiu-me então uma simplória classificação sobre dois modos de se comportar durante e após proferir um enunciado, seja verbal ou não: aguardar resposta ou sustentar o enunciado. Estes dois modos de se comportar então teriam conseqüências muito diferentes, fazendo-se necessário pensar a ética de cada um.
Admito, como posição ética, que devemos sempre ter sensibilidade para perceber as respostas de outros indivíduos diante de nossos discursos e atuações, e que para a construção d euma sociedade democrática devemos sempre dar o direito à voz ao outro. Porém, o aguardo de resposta que classifico aqui se refere a assumir uma posição neutra após o enunciado, aguardando a colocação, aprovação ou recusa do outro indivíduo. Isso protege psiquicamente o autor do enunciado de sofrer qualquer ataque, pois retornando à posição neutra ele se desapega de seu enunciado, que fica à mercê da colocação do outro. Fazer isso é um bom preparo de solo para estabelecer um vínculo, evitar conflitos e conduzir negociações importantes e delicadas, o que é muito usado na prática clínica em psicologia.
Só que nem sempre é a melhor posição a assumir: hoje atendi meu primeiro caso de alcoolismo, de uma mãe que veio obrigado para o atendimento pois senão perderia a guarda dos filhos (está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que eles têm direito a viver em um ambiente livre de ameaças e práticas parentais inadequadas, e alcoolismo é uma delas). A moça chegou na consulta de forma compulsória e sem receber nenhum documento formal que pudesse ler para estar informada, o que fez com que chegasse confusa, sem querer muito papo e em tom desafiador com 'o doutor'. Esse contexto ainda catalisado pelo humor e comportamento de uma alcoolista, dentro os quais está a oposição e a negação do problema. No final das contas, o atendimento saiu ótimo, pois eu sou super congruente com a minha humanidade e me disponho à escutar, assim desenvolvemos um bom vínculo. Mas na hora de comunicar para ela o motivo de sua vinda à consulta, assumi a mesma posição de 'aguardar resposta', o que fez ela me desafiar e me achar um babaca. Nesse momento eu devia ter sustentado minha posição, de forma firme e clara, pois afinal das contas eu estava certo e tinha evidências disso.
Sustentar envolve a percepção do feedback também, mas não numa posição neutra. É preciso se descentrar e tomar partido. Devemos estar congruentes com a enunciação, seguros da nossa posição em função dos conhecimentos consolidados. Ela é mais arriscada em termos de sentimento do outro em relação ao autor da enunciação, mas é boa se o interesse é desequilibrar a relação ou fazer a sua posição ser vista. Sustentar, significa mostrar que não vamos abrir mão de nada, diferentemente da submissão de aguardar resposta, que busca ouvir a demanda do outro e modificar-se em relação à ela.
Nenhuma das duas é mais certa: são estratégias, que dependem do contexto e da aplicação para serem bem-suceiddas ou não. Sendo estratégias, portanto, é recomendável não se viciar sempre na mesma, mas agir de forma inteligente e variada.