domingo, 13 de janeiro de 2008

Como eu acho que deveria ser o currículo da Psicologia

Deveria ter...
*Teoria Sistêmica e Terapia Familiar: essa teoria quebra muitas limitações da Psicanálise ralativas à abordagem indivíduo-relacionamentos e a conepções de equilíbrio do sistêma dinâmica salva ela muito dos riscos de normatização do indivíduo. Além disso, ela é bastante simples, livre, explicativa e oferece uma visão muito diferente das que a gente vê na faculdade. Suas técnicas de terapia e seus métodos de treinamento são bastante variados e inovadores, e valoriza muito o trabalho em equipe. Também não faz nenhuma suposição mirabolante sobre o ser humano, e apesar da discurso de 'nâo-linearidade', ela está bastante sujeita a estudo, falseamentos e novos modelos explicativos baseados em evidências.

*Teorias Feministas: ultimamente estou descobrindo que o feminismo não é só uma bandeira política, mas um olhar característico sobre muitos pontos da sociedade. As meninas feministas têm muitas críticas muito boas sobre coisas que a gente não têm o hábito de questionar, e são questões que são diretamente relacionadas ao humano e à Psicologia. Como ponto principal, eu diria que é reconhecer o papel político das pessoas, em vez de devanear sobre desejos imanentes e pulsões inconscientes infalseáveis. Feminismo pós-moderno não é feminismo, por favor. Eu gosto de fatos.

*Ciências do Desenvolvimento e da Personalidade: Ciências, não Psicologia. Esses são assuntos muito controversos, e acaba que muita gente sai da faculdade pensando isso por um viés psicanalítico ou diz que o sujeito não existe. Por isso é muito bom dar um chão, até porque isso é o que as pessoas acham que a gente vai aprender em Psicologia. Tem muita coisa nova sendo estudada, muitas teorias científicas interessantes, e é muito melhor de aprender genética e neurociência dentro de uma perspectiva do desenvolvimento e da personalidade do que decorando onde é o fórnix e a via paleoespinotalâmica. Seria um bom jeito de acabar com o preconceito que os psicólogos têm com Biologia, também. E evitaria tempo gasto com teorias antiquadas que a gente não lembra mais, como Cattel, Allport ou Winnicott.

*Ciências Sociais: Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Direito, Economia. O self está imerso na sociedade, pô! Nem tudo é recalque, e muito do que é melancolia é devido à nossa configuração social. Assim como no feminismo, considero importante que exploremos muito mais o social, de maneira metódico e rigorosa, com evidências e muita discussão crítica. Todo psicólogo estudo um pouco de ciência social, mas nem todos tem o olhar para a política em volta do cidadão. Política, não discurso, pois vetores não tem nada a ver com opressão ou estatísticas, e o significante não diz nada sobre mim.

*Michel Foucault: ele é muito apreciado pelos pós-modernos, mas ele ainda é estruturalista, e traz um pensamento crítico muito bom.

*Análise Institucional: tem Análise Institucional na faculdade, mas é que eu gostei muito e acho que tem que ser muito explorado. É a articulação da psicologia com as instituições, e trabalha com grupos, e envolve trabalho em equipe. É um excelente agente de mudança social.

*Técnicas de TCC e Terapia de Família: técnicas, de verdade, que a gente precisa. Eu valorizo muito a discussão e a teoria, e considero muito importante termos técnicas bem estruturadas para encarar os problemas, em vez de analisar os desejos inconscientes de tudo o que o paciente diz.

*Violência Escolar: deveria se ter uma cadeira inteira sobre isso, e não só uma hora de aula. Muita ciência, muita teoria explicativa, muita estatística, muita crítica institucional e muito questionamento político. Psicologia Escolar é meio indefinido, então eu acho que um foco desses cairia bem, pois essa instituição tem mesmo violência de tudo quanto é jeito. Talvez pudesse ser Violência Institucional, mas poderia fragmentar demais e parecer só uma listagem de coisa ruim.

*Psicologia e Ciência da Computação: esse é um campo emergente, que está avançando nas pesquisas e está se configurando como uma realidade a nível global. Não dá pra ignorar, e tratar simplesmente como a instituição 'mídia'. Além disso, envolve questionamentos sobre violência, filosofia da educação, comportamento, uso da tecnologia, ciências cognitivas e inteligência artificial.

*Não Violência: isso não é uma opinião política, é um método de atuação, que dá voz aos oprimidos. E nós, psicólogos, que incentivamos o diálogo, deveríamos aprender a usar métodos não violentos para lidar com grupos e conflitos políticos com os quais estaremos envolvidos. É um campo de atuação que considero muito apropriado para um psicólogo, pelos motivos supracitados. Além disso, pode mudar a conduta e o discurso de muita gente nesse curso, para melhor.
"Nonviolence scholar Gene Sharp, in his book The Politics of Nonviolent Action, suggests that the conspicuous absence of nonviolence from mainstream historical study may be because elite interests are not served by the dissemination of techniques for social struggle that rely on the collective power of a mobilised citizenry rather than access to wealth or weaponry"
http://en.wikipedia.org/wiki/Nonviolence#Why_nonviolence.3F


*Filosofia e História da Filosofia: porque é imporante saber do que se está falando.


Poderiam reduzir bastante:
-Freud e Lacan: Teorias machistas, normativistas e centradas no indivíduo, com métodos de terapia antiquados e sem nenhum embasamento empírico.
-Esquizoanálise: discurso politicamente correto e ignorância das evidência e do rigor metodológico
-Outras teorias da personalidade e do desenvolvimento: antiquadas e ensiandas como conteúdo, sem o espírito crítico devido.
-Psicometria: além das muitas críticas clássicas, a maioria nem presta atenção e quem for trabalhr com isso vai ter que estudar depois tudo de novo.
-Processos básicos: brincadeirinhas usando o método científico e fragmentação total do conhecimento. A gente não aplica o que se aprende sobre percepção na terapia, e ninguém lembra de mais nada. Só serve pra gente aprender a idealizar um experimento, mas isso poderia ser feito em outra disciplina.

As pessoas têm o direito de estudar o que quiserem, mas a falta de rigor e implicação política dessas teorias me faz considerá-los um atraso no currículo. Sobre o que eu não falei aqui, ou eu esqueci, ou é porque tem que ficar mesmo, como Psicopatologia, Ética e Metodologia Científica.
Vocês podem até achar supertendencioso e enviesado pro meu lado, mas como defesa eu digo: nada a ver, eu sequer coloquei Educação Ambiental e Etologia.

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