sábado, 3 de novembro de 2007

A crueldade de todo vegetariano

Neste ensaio venho contra-argumentar o mito de que vegetarianos são pessoas sensíveis, calmas e delicadas. Esse mito na realidade deriva de outro mito, o de que o vegetarianismo é uma posição derivada da pena dos animais, ou, operacionalmente falando, da empatia. Quando que na verdade é um forte traço de frieza e calculismo.
Primeiro, porque nenhuma postura política é derivada de um mero sentimento. Sentimentos não geram discursos, filosofias, práticas materias ou políticas. São os interesses que fundamentam as posturas políticas. Mas daí esses interesses podem estar fundamentados em sentimentos, em vontades egoístas, em discursos repetidos, em preconceitos e superstições ou em falácias lógicas. Assim é o consumo de carne, o racismo, a xenofobia, o belicismo ou a oposição da Igreja aos anticoncepcionais.
Já o vegetarianismo não passa de uma generalização da justiça. A nossa sociedade possui uma determinada noção de justiça e de liberdade, mas o fato de apoiar o consumo de carne gera contradições. E essas contradições são respondidas com falácias, que são muito úteis para convencer alguém que já está querendo acreditar nisso e que não quer abandonar seus velhos hábitos e alguns momentos de prazer. Então, a postura vegetariana deriva de uma fidelidade à lógica, e um respeito à sua própria racionalidade.
Se ser vegetariano é uma questão de lógica, então não há a necessidade de empatia. Um computador pode ter lógica. É só seguir o princípio da não-contradição. Você não precisa ver o porco ser torturado pra saber que é injusto. Você nem precisa saber se o animal existe ou não, pode simplesmente construir uma situação hipotética na sua cabeça e concluir que não deve fazer isso. É possível ter empatia por um ser hipotético?
Agora eu vou provocar mais. Não só vegetarianos não precisam de empatia, como também não têm. Empatia é o reconhecimento e imitação de um sentimento alheio. Não é o que vegetarianos fazem quando decidem virar vegetarianos, ou quando sua avó tenta fazer uma galinha com arroz 'com todo o amor e carinho(com quem?)', ou quando um colega retardado tenta justificar dizendo que 'os bichinhos também comem carne'. Eles deixam os anfitriões confusos e suas famílias arrasadas, e não estão nem aí, se enchem de orgulho de sua frieza.
Essa frieza é demonstrada também nos seus bem-calculados boicotes, com um extenso conhecimento de marcas e componentes dos alimentos, além de seus intensos estudos em nutrição, evolução humana, filosofia moral, economia, história e questões ambientais. Eles têm respaldo científico de tudo o que eles falam e apontam todos os seus erros de lógica ou falta de conhecimento científico como se você fosse uma criança burra, só que sem a gentileza com a qual se trataria uma criança. Nessas selvagens discussões, um vegetariano pode até fazer um epistemólogo chorar.
Agora vai uma crítica de verdade: vegetarianos não sabem criticar educadamente. Como todo estudioso revoltado, sabem criticar qualquer discurso muito bem. No mundo acadêmico são vitoriosos, e estraçalham os que apelam para a retórica ou para o senso-comum, apesar de, bem, serem vegetarianos. Mas no mundo real é um pouco mais complicado: como é que você pode criticar uma idéia, mostrar que você está certo e ainda convencer a pessoa a te imitar? Porque o objetivo do vegetariano é que os outros o imitem, ninguém quer ser idiossincrático, como um solipsista (mesmo em um mundo de solipsistas, todos seriam idiossincráticos). Só que as pessoas são frágeis e ficam brabas quando criticam suas crenças, e isso é algo que os vegetarianos cruéis não percebem. Se as pessoas fossem racionais, todos seriam vegetarianos. Mas, em vez disso, eles ficam brabos com os vegetarianos, que são a vergonha da civilização, pois eles fazem as pessoas se sentirem mal por comer carne.
Além de fazer se sentir mal e humilhar, alguns vegetarianos passam vídeos que mostram a estupidez da indústria da carne, e aí todos os seus parentes e colegas que comem carne choram e dizem para parar o vídeo, pois eles chegam a se sentir mal. E o vegetariano dono-da-verdade os obriga a encarar a realidade. E fica feliz de ver o sofrimento e a confusão nos rostos deles. Como ele não tem empatia, e tudo funciona na base do raciocínio, essas cenas não passam de uma seqüência lógica de passos que os tornará consumidores com o seu repertório comportamental de comprar/comer/olhar/elogiar carne extinto. Todas as discussões são friamente calculadas para despertar determinadas emoções, pensamentos e ações nas pessoas. E tudo no final se resume a economia (Viva Marx!).

Mas apesar de não demonstrarem empatia, os vegetarianos demonstram mais compaixão do que aqueles bons cidadãos que são felizes e têm pensamento positivo.

2 comentários:

  1. Brilhante! Eu devia estar dormindo, mas tal postagem instigante e ansiosamente aguardada me manterá acordado por mais algum tempo...

    Concordo contigo que a lógica, quando aplicada, independe de empatia. E se tu seguir determinadas premissas de justiça a partir da fria lógica computacional, chegar-se-á sim ao vegetarianismo. Contudo, essa premissa de justiça, um elemento central em teu argumento, não está explicitada e explicada, somente referida como um óbvio dado. Peço que desdobres essa justiça que, segundo tu, é compartilhada por todos, mas que alguns a toleram com suas contradições enquanto outros a desenredam até chegarem no vegetarianismo filosófico. Só assim será possível justificar adequadamente (ou não) teu argumento!

    ResponderExcluir
  2. É, tens razão. Essa parte da minha argumentação está mais pra retórica do que pra uma argumentação de verdade, com clareza conceitual e tudo o mais.
    Bom saber que tu não te iludiu com a minha trova! Por isso que eu boto fé em ti.
    Agora, esse tema da justiça tem que ser abordado... mas ele transcende em muito a temática do vegetarianismo, e quando eu começar essa discussao eu vou me afundar nela.

    ResponderExcluir