segunda-feira, 7 de março de 2011

Brigadas de Defesa da Infância

O povo estava assustado. A situação política não era nada boa - todos vivam em um estado de estresse altíssimo. As ruas eram perigosas, a criminalidade era uma experiência cotidiana, as brigas de rua eram freqüentes. As diferentes tribos urbanas não admitiam a possibilidade de coexistir. Parecia que a utopia para cada um era simplesmente limpar a cidade de qualquer um que fosse diferente de si próprio. Em diferentes bairros, os jovens pichavam a frase " ei ralé, se eu tivesse a chance, apagava vocês todos" e outras igualmente ofensivas. Os discursos de ódio, em vez de parecerem crime, eram política e eram a voz da mídia. E a extrema direita parecia apresentar soluções.
Evidentemente, eu não aceitava isso. E eu tinha certeza que devia fazer algo a respeito. Na escola onde trabalhava, eu era o único professor que se atrevia a interromper as brigas de gangue. Nunca recebi um arranhão. Os alunos sempre me ouviam. Diferentemente de outros professores e professoras, eu não era autoritário . Mas eu tinha clareza do que cada um devia fazer e deixava isso claro para todos. Por isso, a aula de Artes era a aula de maior silêncio, dedicação e disciplina de toda a escola.
A nossa escola era aquilo que gostavam de chamar de uma escola multiculturalista de perifeira - quer dizer, uma escola que acolhe todo tipo de alunos e aceita os desafios que a variedade cultural e étnica implica em uma região pobre, não central. Sim, nossa escola tinha muitos problemas. Muitos alunos pertenciam a gangues e ocasionalmente a tensão escalava. Mas enquanto muitos viam essa situação como um atestado da falência da inclusão cultural, eu e mais alguns professores enxergávamos simplesmente a falta da inclusão cultural.
Faltava tolerância. Uma vez, dez famílias de ciganos foram expulsas de um conjunto habitacional pelos outros moradores da vizinhanças porque suas crianças foram encontradas vandalizando carros e casas. Nós discutimos isso na aula da sexta série e pretendíamos fazer uma exposição ao ar livre para denunciar o ocorrido e provocar uma reflexão - e, quem sabe, tolerância. Para isso, precisávamos da autorização dso pais para sair da escola em horário de aula para fazer a exposição. Porém, apenas um quarto da turma havia aparecido para a aula, e apenas três tinham a autorização assinada. Sem o grupo todo, sem as autorizações e sem os trabalhos, não conseguimos sair a campo e ficamos produzindo mais em cima do que havíamos trabalhado. Na semana seguinte, fiquei sabendo que os alunos que faltaram haviam ficado de castigo por dias - seus pais haviam ficado seriamente ofendidos com a proposta de "uma resposta à expulsão de dez famílias do conjunto habitacional" e proibiram seus filhso de ir à aula.
Fiquei surpreso com a grosseria dos pais. Eles vieram reclamar, ameaçaram me processar, me expulsar do colégio e me chamaram de amigo de bandido e de comunista. Alguns disseram para eu tomar cuidado ao voltar para casa.
Mas a pior parte foi a reação dos pais sobre meus alunos. Eles foram severamente agredidos, humilhados, ofendidos e castigados, sendo orbigados a ficar em casa realizando trabalhos domésticos pesados e faltando quase uma semana de aula.
Então eu percebi que as vítimas da intolerância não eram apenas os outros, mas até suas próprias crianças. Principalmente suas próprias crianças. Esses pais tentavam concretizar o que consideravam sua utopia de controle absoluto, autoritarismo e intolerância dentro do próprio lar.
E ninguém fazia nada. A Constituição Federal previa a existência de Conselhos Tutelares, que eram órgãos do governo federal instalados em cada cidade para a defesa dos direitos de crianças e adolescentes - e estes não faziam nada. Embora tivessem uma missão e filosofia nobres, na prática estavam funcionando como uma polícia de menores - ou, no pior dos casos, uma carrocinha de crianças. Serviam para intimidar e disciplinar crianças, buscar se estas fugiam e cobrar que devolvessem objetos roubados.
Eu queria algo diferente. Esses Conselhos Tutelares estavam sustentando um sistema absurdamente opressivo - eles ignoravam ou justificavam, classificando as agressões como 'educação' ou 'disciplina'. Não havia ninguém que realmente defendesse as crianças - e muito menos alguém que defendesse uma concepção ampla do que são 'crianças' - que não simplesmente 'nossas crianças', mas 'todas as crianças'.
Felizmente, outros colegas concordavam comigo. Durante aquele ano tentamos vários projetos. Não posso dizer que foram um fracasso - eram boas idéias que não foram levadas a cabo por causa de que não havíamos percebido algumas coisas sobre a natureza humana.
Mas no final daquele ano, conseguimos algo que parecia promissor. Percebemos que havíamos nos tornado um grupo forte, militante e coeso, e estávamos muito bem capacitados em termos de legislação, filosofia e direitos da criança. E ainda tínhamos nossas habilidades e experiência como educadores. E o que deveríamos fazer, basicamente, era multiplicar essas habilidades à toda à população.
Nessa época, nós já havíamos conseguido trabalhar com muitos pais a questão da violência e dos castigos, e a importância da tolerância e da compaixão. E havíamos trabalhdo isso com os alunos também, que estavam informados e conseguiam elaborar de forma bastante potente e saudável essas experiências de conflito intenso. As aulas de artes tinham um efeito terapêutico, um efeito educativo e um efeito político. As nossas produções estavam produzindo impactos na cultura fora da sala de aula. E os próprios alunos se demonstravam interessados e defender os direitos de outras crianças.
Começamos então um treinamento. Sistematizamos nossa experiência e passamos adiante. Oferecemos um treinamento em educação e defesa dos direitos das crianças para voluntários da comunidade. O treinamento consistia em três dais de aula e reuniões semanais abertas para escutar demandas e esclarecer dúvidas.
Na primeira semana, começaram os problemas. Um dos voluntários, que havia sido meu aluno anteriormente e tinha dezesseis anos, se envolveu em uma briga com o pai de uma criança da vizinhança.
"Eles pareciam estar só caminhando. O pai andando na frente a passos rápidos com um bebê no colo e a criança pequena, de uns quatro anos, correndo atrás. A criança pediu para o pai esperá-la, e ele retrucou, aos berros, qeu não esperava. E começou a ofender a criança e ameaçar deixá-la para trás, e que se chorasse iria apanhar. "
Meu aluno interviu, questionando o pai da criança, e afirmando que aquela atitude era inaceitável. "Se considera macho, né? Então porque não bate em alguém do seu tamanho?". Então eles brigaram e foram separados pela polícia, que mandou os dois circularem e se afastarem.
Não sei se me chocou mais a brutalidade do pai ou a impunidade e a negligência na atitude da polícia. Mas percebi algo muito importante - precisávamos de um treinamento para estas emergências e situações-limite também. Não seríamos apenas educadores - seríamos defensores completos. E precisávamos de mais organização - devíamos ser mais articulados e nos proteger.
Ocupar as ruas era preciso. Outros grupos de ação política estavam fazendo isso. Os grupos xenófobos de extrema-direita ocupavam as rusa com manifestações, depredação de propriedades de imigrantes, brigas de rua e agressões organizadas - e propagandeavam isso como limpeza urbana ou combate à criminalidade, conquistando a simpatia da população. Antifas - como eram chamados os antifascistas, em especial os punks - realizavam protestos e atacavam os desfiles dos grupos de extrema-direita. Bondes tomavam ruas inteiras de assalto e condenava o governo e a polícia. Outros grupos de ação política também realizavam seus comícios, cantavam hinos e ameaçavam o governo ou outros grupos partidários. O movimento dos sem-teto invadia e ocupava prédios. Os estudantes acampavam na reitoria das universidades em sinal de protesto, quebravam vidros, protas e laboratóriso e enfrentavam a polícia. E, se a polícia não intervia em alguma dessas situações, um grupo rival intervia - e com mais força e brutalidade.
Estávamos em tempos militarizados. Combativos. Diferentemente de outros grupos, não queríamos passar por cima de ninguém. Mas também não iríamos tirar o corpo fora. Se a situação exigisse, deveríamos agir. Então, constituímos Brigadas de Defesa da Infância. Esse era o nome da nossa organização, do nosso movimento. As Brigadas de Defesa da Infância giravam em torno de três eixos:

1) Educação: todos os cidadãos, sem exceção, têm o direito e o dever de conhecer os direitos das crinças e dos adolescentes e aprender e se esforçar para atendê-los, e não deve considerar aceitável nenhuma violência, devendo sempre educar eticamente;
2) Intervenção: não podemos ficar calados enquanto crianças são agredidas e desrespeitadas - devemos nos posicionar, expressar nossa voz, estabelecer o diálogo e, se necessário, usar nossos corpos, para defender as crianças de qualquer violência ou desrespeito;
3) Organização: devemos sempre nos apoiar e proteger uns aos outros e garantir consistência logística em nossas operações;

Estávamos ocupando às ruas. Embora o nosso povo tivesse o costume de manter completament em silêncio as barbáries que aconteciam dentro de cada lar, mutias agressões aconteciam na rua, pois eram toleradas. Com a presença das Brigadas de Defesa da Infância, não só essas agressões pararam de acontecer nas ruas e um oturo posicionamento estaga sendo tomada, como também realizámos monitoramento e vigilâncias dessas situações, inclusive com produção midiática da própria organização. Quer dizer: se alguém continuava a maltratar uma criança, mesmo de pois de nossas intervenções, isso iria aparecer no jornal - nem que fosse no nosso jornal.
Estávamos ganhando visibilidade. Mas a nossa tarefa era enorme e precisávamos de mais gente. Precisávamos expandir a organização - multiplicar as brigadas.
Embora a economia estivesse um desastre - e a crise econômica estivesse impulsionando o ódio contra outras classes e contra imigrantes e o fantasma do súbito desemprego contribuindo fortemente para aumentar o estresse no ambiente familiar -, havia uma característica de nossa economia que facilitou em muito o trabalho das Brigadas de Defesa da Infância. Enquanto em outras regiões os ambientes de trabalho eram mais indiviualizados, como o trabalho informal, o comércio ou o trablaho em escritórios, em nossa região quase toda a população trabalhava ans fábricas. Por determinadas condições históricas e geográficas, as fábricas se instalaram nessa região em diferentes épocas pra processar diferentes produtos, e serviram como quase exclusiva oportunidade de emprego para a população. Tinha vários problemas: ameaça de desemprego, discriminação no ambiente de trabalho, abuso de poder, salários baixos, exploração do trabalho, suspensão de direitos trabalhistas e experiência de trabalho alienado. Mas parecia qeu também fortalecia o sentimento de uma identidade coletiva - tinha muitas identidades coeltivas em uma fábrica, como váriso times de futebol. E isto era uma fotne de conflito. No entanto, também existia a identidade coletiva de 'trabalhadores' e 'trabalhadores desta fábrica'. E queríamos unir a esta identidade coletiva a de 'defensores da infância'.
O plano era simples: realizar ações educativas de apresentação do trabalho das Brigadas de Defesa da Infância nas fábricas, de forma a alcançar o maior número de pessoas, em especial pais e mães, na defesa dos direitos das crianças. Algumas pessoas quiseram nos bater, mas na verdade deu muito certo. Passamos a visitar as mesmas fábricas com regularidade - os patrões estavam gostando da visibildiade da fábrica associada à causa. Os adultos se sentiam reforçados uns pelos outros e a se voluntariar para as brigadas.
O compromisso exigido pelas Brigadas de Defesa da Infância era moral - era um comprmomisso com a filosofia, com o ideal. Os voluntários deveriam assumir a postura da defesa da infância, só isso. Mas era possível fazer mais. Uns simplesmente educaram suas famílias ou proibiram agressões em sua casa. Outros se voluntariavam para organizar forças-tarefa e conduzir ações de vigilância e monitoramento. Outros se dedicavam a dar palestras ou iniciar grupos de ajuda mútua e aconselhamento para pais agressores. Outros organizavam eventos e comemorações, nos quais os voluntários também eram convocados pra passeatas. As Brigadas de Defesa da Infância acabavam funcionando também como grupo de estudos e clube - as pessoas se conheciam, trocavam histórias de vida e se divertiam juntas. E estavam provocando grandes transformações culturais e políticas.
As crianças se tornaram uma causa em comum para os adolescentes e adultos, mais do que conceitos abstratos propagados pelos pacifistas como tolerância ou diálogo. A tolerância foi concretizada como meio - ou como efeito colateral - da defesa da infância em um sentido ampla - que inclui a todas as crianças -, em vez de como um fim em si. E começamos a perceber que, defendendo as crianças em sua totalidade e sem discriminação, estávamos ensinado a elas, pelo exemplo e pela experiência, a proteger os outros e defender o que acha certo. Finalmente veríamos uma geração que aprendeu não a intolerância e a violência, mas o respeito e a proteção. Em vez de agressores ou vítimas, esta geração estava aprendendo a não se calar frente as injustiças.

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