Para Sartre, o inferno são os outros. Para quem tem experiências com trabalhos coletivos, essa afirmação é tentadora. No entanto, apesar das concepções mais pessimistas em relação a natureza humana e o elogio ao individualismo de Sartre, a dificuldade em lidar com os outros é mais objeto de análise do que verdade imutável sorbe a natureza humana. Quer dizer, trabalhar coletivamente tem suas razões para parecer difícil. E parece difícil para quem não sabe como entender o coletivo.
Qualquer grupo humano coloca este tipo de desafio. Mas os coletivos autogestionários, por não estabelecer hierarquias e colocar a responsabilidade pela gestão do coletivo para todo o coletivo, escancaram essa dificuldade, pois demandam uma produção de análise e saber mais consistente. Enquanto que em estruturas hierárquicas é possível siplesmente culpar o abuso de poder ou a disputa pelo poder como fontes da discórdia, em uma autogestão é necessário que o coletivo faça uma análise mais aprofundada do estado do coletivo e de seus motivos e atravessamentos.
Como a auto-análise coletiva não é um costume em nossa cultura, não é raro que ela não aconteça mesmo em coletivos autogestionários. E a falta de auto-análise implica em crise. Os sujeitos e os coletivos são atravessados por uma multiplicidade de desejos, crenças e instituições e, se não se trabalha sobre isso, as contradições começam a aparecer.
Quando as contradições aparecem e começam a se expressar sob a forma de conflitos e desavenças, é necessário colocar esses conflitos em pauta. Muitas vezes se opta por não falar sobre isso, pois o grupo pode ter outras muitas tarefas a cumprir e as pessoas temem que o autoquestionamento trave o desempenho das tarefas, ou talvez simplesmente por as pessoas não gostarem de comunicar abertamente seus conflitos. No entanto, essa é a hora de falar. O coletivo chega a este ponto de crise justamente pela falta de diálogo e auto-análise, e neste momento necessita aplicar esses procedimentos de forma intensiva a fim de desamaranhar esses atravessamentos todos.
Para fazer uma analogia com o sistema de atenção em saúde mental, vamos considerar a auto-análise como a ferramenta terapêutica de prevenção e tratamento. Ela deve ser usada para garantir a manutenção da autogestão - ou seja, da gestão coletiva das questões do coletivo. Quando ela não é usada e o grupo passa a entrar em um modo tarefeiro ou irreflexivo, o coletivo entra em crise. Neste momento, ele precisa fazer a palavra circular novamente, senão a crise vai se encaminhar para um surto - com todos os efeitos disruptivos e dolorosos que um surto acarreta.
Para Sartre, enlouquecemos por sermos solitários e tentarmos nos misturar com os outros. Em um coletivo autogestionário, esta afirmação até qeu faz sentido, mas não da forma como podemos entender pela tese sartreana. O indivíduo e o coletivo não são inerentemente incompatíveis - no entanto, se o indivíduo se fecha para o coletivo e bloqueia os canais de comunicação, o conflito de entendimentos e interesses com o coletivo vai acontecer. E o remédio para isso não é se isolar em si mesmo, ams sim ir de encontro aos outros.
8 Times You Should Be a Total Animal
1 ano atrás
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